Zé Peixe: meu super herói de verdade

Carlos Braz, 27 de Abril, 2018

 

ZÉ PEIXE: MEU SUPER HERÓI DE VERDADE

Por Carlos Braz

 

Hoje fazem 6 anos que um dos personagens mais marcantes da história de Sergipe, nos deixou. Tinha por nome oficial, José Martins Ribeiro Nunes, mas todos o conheciam como Zé Peixe.

Foi um desses homens que não se encontra facilmente por aí. Sua grandiosidade não podia ser definida apenas pelos atos de coragem e destemor que praticou. Era preciso enxergar, acima de tudo, a alma benevolente e pura que habitava aquele corpo minguado.

Nos meus devaneios de adolescente adotei-o como “meu super-herói de verdade”, aquele que não escondia o rosto atrás de uma máscara, nem tampouco possuía uma infinidade de instrumentos de defesa e ataque.

Seu traje era um calção de brim azul amarrado na cintura, os pés, quase sempre descalços, atestavam sua índole franciscana; sua única e infalível arma era a humildade e um sorriso tímido, que mal revelava o altruísmo e a aura de predestinado que o permeava. Viera ao mundo para fazer o bem.

 Eu o via quase todos os dias, à porta da casa onde residiu durante toda vida, localizada na Av. Ivo do Prado 704, a Rua da Frente, pois ficava próxima à escola onde eu estudava; suas façanhas eram comentadas aos quatro ventos, e muitas lendas giravam em torno dessa figura fantástica, potencializadas pelo imaginário popular.

Algumas diziam que ele não se banhava com agua doce, outras que possuía escamas em algumas partes do corpo, e ainda havia quem jurasse que não comia carne e dormia numa banheira cheia de agua salgada.

Na verdade, segundo seus amigos mais próximos e familiares, fora d’água Zé sentia-se em um mundo estranho.

Por seus grandiosos feitos recebeu diversas honrarias, oferecidas por instituições locais e de outros estados, e seu nome está estampado em placas comemorativas e em muitas proas de embarcações. Um memorial foi erguido à margem do Rio Sergipe para louva-lo, e perpetuar sua história.

 Mas o que lhe deixava realmente satisfeito era o elogio sincero dos que o conheciam e o cumprimentava respeitosamente onde quer que fosse, o convívio familiar e a deferência demonstrada pelo Capitão dos Portos de Sergipe, que a ele prestava continência.

O rio e o grande mar tão próximos eram seu habitat natural, sentindo-se bem melhor dentro deles que em terra firme. Todos os dias acordava às 5 horas da manhã e adentrava nas aguas então límpidas e nelas percorria distancias imensas, chegando facilmente ao mar aberto, num percurso de incontáveis milhas aquáticas, um desafio impossível para pessoas comuns.

         Como todo grande herói salvou muitas vidas, socorreu náufragos no litoral sergipano durante a II guerra mundial, orientou centenas de navios que entravam e saiam através da temerosa barra do Rio Sergipe, e assim tornou-se o “prático” mais famoso do Brasil, pois, enquanto outros mestres adentravam ao mar em embarcações, Zé Peixe fazia o mesmo percurso a nado, sem nenhum equipamento de proteção, flanando naturalmente por longas distancias.

         Vê-lo mergulhar das altas torres dos navios, em direção às aguas abissais era um espetáculo impressionante. Aqueles que tiveram o privilégio de vê-lo em ação divulgaram suas performances pelo mundo, e assim, construíram o mito do homem-peixe do Brasil.       .

         Conheci Zé Peixe de perto em uma inesquecível manhã de verão, lá pelos idos de 1965, graças à amizade com a família de Gildo Salva-Vidas, outro filho das águas afamado em Sergipe.

            Todos os domingos, Gildo pegava os filhos, Gileno, Ninho e Leila, e os levava ao local de trabalho, na praia de Atalaia. Antes, porém, passava na casa de Zé e lá ficavam a prosear, enquanto a marinete não passava. Os meninos naturalmente aproveitavam para atirarem-se nas aguas do rio sem nenhum temor, junto com outros moleques da redondeza, numa feliz algazarra matinal.

         Ávido para conhecer o lendário personagem, cantado em verso e prosa pelos mais velhos, acompanhei-os certo dia, sem o conhecimento dos meus pais.

            Zé e Gildo eram grandes amigos, e esperavam ansiosamente por essas manhãs em que, sentados nas escadas do pequeno ancoradouro ali existente, esqueciam-se do tempo, a falar sempre do mesmo assunto: o rio e o mar, paixão daqueles dois homens tão diferentes fisicamente. Um, roliço como um boto e bonachão, o outro comedido, aparentemente frágil, e esbelto qual um marlim.

             Enquanto eles viajavam pelos reinos marinhos, nós fazíamos a festa, pulando de cabeça da amurada. Nadando cachorrinho, eu deliciava-me com o trio de irmãos, exímios nadadores, que respeitavam minhas limitações, não se afastando muito da margem.

            De repente Zé levantou-se e reunindo a gurizada em torno de si, anunciou com aquela voz serena que nunca se alterava, que iriámos nadar até uma determinada boia no meio do rio, que se encontrava a uns 300 metros de distância, e que estava a precisar de reparos.

         Então, aquele homem extraordinário olhou nos meus olhos, enlaçando-me com sua presença superior, sabedor das minhas deficiências, e com a sua aura de Deus das águas encheu-me de coragem e segurança para enfrentar aquele desafio.

         Surpreso e ofegante acompanhei o grupo lado a lado. E lá fomos nós, com o rei dos mares a frente dando-me a certeza de segurança, induzindo-me a braçadas e fôlego ritmados. Sentia que algo sobre humano me sustentava: a força invisível daquele corpo franzino e enrugado.

         E assim foi ida e volta. O dia mais feliz da minha vida. O homem comum José Martins Ribeiro Nunes, transformara-se em minha frente no super-herói Zé Peixe.

           Desde então, acompanhei à distância tudo relacionado àquele ser humano excepcional: homenagens, notas de jornal, fotos, o trabalho como prático da Marinha Mercante do Brasil, a fama aumentando dia a dia e, enfim, a velhice.

         Fim de uma tarde de outono em Aracaju. Zé atravessa a Rua da Frente e segue impávido em direção ao atracadouro. De algum lugar, carregado pela brisa fria, ecoa o som de um clarim entoando a “Canção da Volta”.

          Zé Peixe caminha lentamente, com a fronte erguida, e um olhar profundo a perscrutar o horizonte distante, decifrando as marés e lendo os bancos areias movediças. Desce lentamente aqueles degraus, tão seus durante todos esses anos. Toca os pés escamosos nas aguas, e mergulha, com a mesma elegância de sempre, nas aguas serenas do Rio Sergipe. As correntes marinhas, sábias, lhe abrem caminho e os golfinhos, gentilmente formam uma silenciosa guarda de honra.

           Flutua sobre as brancas espumas em direção à boca da barra, onde o encontro do rio com o mar forma redemoinhos medonhos, pesadelo de pescadores, sala de estar do meu herói.

            Já é noite, e o danado homem-peixe recebe do Atlântico um envolvente e perpétuo abraço.

 

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