13 de maio de 1888: o antes e o depois. Parte I

Carlos Braz, 03 de Maio, 2018 - Atualizado em 03 de Maio, 2018

 

 

 

13 de maio de de 1888: o antes e o depois. Parte 1

 

Por Carlos Braz

 

Data celebrada com vivas e fogos durante décadas pela comunidade afrodescendente, na contemporaneidade o 13 de maio se apresenta não apenas como o dia da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel no distante 1888. É também um dia de luta contra o racismo, arraigado no consciente de uma sociedade conservadora, e melhores condições de vida para milhões de pessoas, arrastadas para uma marginalização social consciente, promovida oficialmente pela precoce república da espada e seus sucessores.

A luta pela liberdade e cidadania do povo africano, transferido à força para o Brasil, não começa nem termina na pena de ouro usada pela princesa para a assinatura da lacônica lei. Ela se inicia, contrariando o senso comum, quando o negro põe os pés na terra brasileira pela primeira vez, ainda em meados de 1530, e continua em um outro contexto e com novas bandeiras de luta em pleno século XXI.

A historiografia brasileira apresenta em seus primórdios a versão do escravo conformado com o seu destino. Essa visão do grupo hegemônico , paulatinamente foi  confrontada por outros relatos, baseados em fontes fidedignas. Tendo como prioridade sobreviver em um ambiente adverso, o cativo lançou mão de estratégias de resistência, tais como a fuga, o aborto,  o aquilombamento, o apoio às revoltas de outrem, o boicote em forma de prejuízo ao senhor, bem como as ameaças de envenenamento e assassinato.

As pressões internacionais promovidas pelos  governos europeus, com ênfase no império britânico e sua revolução industrial já no século XIX, inibem o tráfico negreiro, o que eleva substancialmente o preço cobrado pelos traficantes de gente, comprometendo o modo de produção escravista, e levando os senhores de escravos a procurar alternativas. Algumas delas são bem documentadas: as compras de alforria, a exportação do escravo do norte e nordeste para o sudeste, o escravo de ganho, o regime de servidão e de parceria, entre outros.

O projeto de extinção do regime escravocrata no Brasil é de longa duração, em virtude da oposição aristocrata e do abalo econômico que tal ato provocaria. Tem início ainda em 1831, quando são promulgadas leis que proíbem o tráfico, declarando livres os que aqui entrassem por esse meios. Contudo, por motivos meramente políticos, a legislação nunca foi cumprida.

Sua conclusão dá-se com o ato surpreendente da regente, conhecida desde então pelos grupos liberais e abolicionistas de então como "A redentora", que remete imediatamente a grandiosidade e benevolência do seu gesto, escamoteando a crise da economia e política que assolava o II império, agravada com a guerra do Paraguai.

Nesse contexto, manter um escravo tornou-se inviável economicamente, e a abolição era apenas uma questão de tempo. A lavra de ouro foi o fechamento perfeito , em termos históricos, para uma situação que já era realidade para milhares de negros em todo o Brasil.

Com o advento da república, faz-se necessário um novo modelo de nação, projetado por aqueles mesmos personagens que derrubaram o império e agora eram donos do poder: os grandes latifundiários do sudeste, conservadores, que, na realidade, não tinham projeto que não fosse a continuidade do que já existia.

A grande novidade era os milhares de homens agora libertos, para os quais a elite dominante não tinha outra solução, a não ser o abandono à própria sorte. Assim começa um novo tempo para os afro americanos brasileiros, maioria étnica destinada ao desmantelamento social e consequente  marginalização, simbolizada pela negação de direitos básicos do ser humano.

À esse povo que por 300 anos permaneceu aprisionado  aos aos grilhões de um regime escravista cruel e desumano,  mais uma vez só restava uma opção: a resistência para sobreviver e a luta por por dias melhores, agora em um regime  democrático, sem oportunidades iguais para todos, e que não hesitou em construir barreiras sociais que permanecem firmes ainda nos dias de hoje.

Assim surgem, mais adiante, ações políticas de pequenos grupos, que viriam posteriormente a serem denominados de movimentos negros.

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