Brasileiro é louco por futebol

Carlos Braz, 11 de Junho, 2018

 

Brasileiro é louco por futebol

 

Por Carlos Braz

 

Aproxima-se mais uma Copa do Mundo, e o país vai gradativamente deixando-se envolver pela emoção de acompanhar pela televisão a trajetória do escrete canarinho, a pátria de chuteiras, como bem definiu o jornalista e dramaturgo carioca Nelson Rodrigues.

O brasileiro é mesmo louco por futebol. E em tempos como esse, a paixão contagia até aqueles que durante os quatro anos de intervalo entre um torneio e outro permanecem indiferentes às disputas regionais. Entram no clima festivo, influenciados pelo marketing midiático que movimenta um ciclo econômico gigantesco, promovendo lucros milionários não somente à industria ligada diretamente ao esporte, mas também a tantas outras, nos mais variados ramos.

Nesse contexto, poucos dão atenção aos fatos que não estão diretamente ligados ao ato de torcer e comemorar entre generosos goles de cerveja as vitórias, ou enxugar lágrimas discretas quando vem a derrota.

Os dramas pessoais são acontecimentos à parte, que a ninguém interessa. Como o esse que agora relato, ocorrido no mesmo dia inesquecível em que fomos humilhados pela seleção alemã, que impiedosamente nos infligiu a maior das humilhações: golear a seleção brasileira por  7 a 1, em pleno Mineirão, tragédia só suplantado pelo maracanazzo de 1950.

A história de Salário Mínimo e Furacão

 

A verdade estava ali, nua e crua à frente do assombrado Furacão, pedreiro de profissão, assim chamado devido a semelhança com Jairzinho,  artilheiro e ponta direita da lendária seleção brasileira de 1970, que trouxe a Taça Jules Rimet definitivamente para a galeria dos troféus nacionais.

Sobre o corpo magricela de Salário Mínimo, seu companheiro de tantas tardes e noites no burburinho e cantos de guerras das arquibancadas em festa, cavalgava a sua Rosa Maria, mulata sestrosa, que com os olhos semi-cerrados e o cabelo espinhado em completo desalinho, oscilava freneticamente sobre a lança em riste do vil traidor.

O negro magricela, com corpo de centro-avante implacável, penetrava sem retranca baixo ventre adentro, num frenesi tal, que a qualquer momento brotaria fogo das virilhas dos dois. Gemiam, junto com a cama já desmantelada pelo  uso, e a negra fogosa usava todas as táticas, que dominava com perfeição, para levar o parceiro a um êxtase perfeito, tal qual um gol de placa.

A porta escancarada de repente interrompeu o coito. Furacão, em um transe hipnótico, engoliu em seco, e um replay repentino transpassou-lhe a mente, transportando-o de encontro à realidade. Durante a semana, acertara com o amigo para assistirem o jogo no local de sempre, o Boteco da Marly, especialista em torresmo e chopp com colarinho perfeito, além de ponto de encontro de uma galera tradicional, que ali se reunia ha mais de cinco copas.

Mas o parceiro insistira para irem ao Última Sessão, bem mais distante,onde poderiam desfrutar do samba e das mulatas após o jogo. A contragosto, aceitou a proposta do amigo. Quem chegasse primeiro esperava pelo outro.

Salário Mínimo não apareceu, e com o jogo perdido  ainda no primeiro tempo, Furacão resolveu voltar mais cedo para seu barraco: o gosto amargo da derrota seria diluído em uma boa caipirinha no da mulher amada.Os primeiros pingos de chuva realçaram o aborrecimento, e um táxi abreviaria o percurso em busca de consolo.

Aterrada pelo flagrante e prevendo um um final macabro para aquela cena, Rosa entrou em estado de choque, continuando estática e de olhos arregalados em cima do corpo franzino do amante, preso pelas tenazes das suas robustas pernas..

Na TV em frente, reprisavam  os contra ataques ferinos da equipe germânica, contribuindo ainda mais para o ódio violento que se instalara na cabeça de Furacão. Sobre o criado mudo, uma garrafa de cerveja pela metade, parecia ainda estar ali com um único propósito: ser quebrada e virar um pontiagudo estilete, capaz de rasgar de imediato as vísceras de um adversário..

Ainda preso sob o peso do corpanzil da crioula, Salário Mínimo sentiu o vidro rasgar-lhe as entranhas, o sangue quente a escorrer-lhe pelas nádegas empapando o lençol, misturando-se ao suor e sêmen ali depositados. Sete golpes aplicados com esmero, deu-lhe a certeza que o jogo estava perdido.

O assassino desligou a TV, comprada recentemente para assistir os jogos da disputa mundial, deixando o minúsculo quarto em envolto em uma cúmplice penumbra. Procurou os olhos de Rosa e os encontrou fixos nos seus. Lá fora, o silencio dos derrotados tomava conta de tudo.  Não disseram uma palavra sequer. Ela levantou-se e seguiu em direção ao banheiro. Ele jogou a camisa verde-amarela sobre um cesto de roupas sujas.

Em seguida, lavou-se cuidadosamente no tonel com água colhida da biqueira do quintal, vestiu o manto sagrado do seu time de coração, e saiu sem olhar para trás. No Boteco da Marly o pagode rolava para afogar as lembranças de uma goleada histórica. Arrebatou o pandeiro abandonado em um canto e entoou sem vacilar o seu samba preferido.

No dia seguinte, as manchetes dos jornais e revistas, enalteciam a seleção alemã, enquanto defenestravam a imagem patética de Felipão, unanime vilão daquela tarde macabra.

 

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