Luiz Gonzaga, o incomparável

Carlos Braz, 25 de Junho, 2018 - Atualizado em 25 de Junho, 2018

 

LUIZ GONZAGA, O INCOMPARÁVEL

 

                                                                                          Por Carlos Braz

 

 

Olha para o céu meu amor, veja como ele está lindo!

Mês de junho.O Nordeste é uma festa só, do litoral ao sertão. Nas ruas, fogueiras esquentam a friagem noturna, bandeirolas tremulam ao vento, crianças, adolescentes e adultos “soltam” fogos animadamente, tabaréus com chapéus de palha, mocinhas de vestidos de chita, onde a profusão de cores rendas e babados encantam o olhar.

É tempo de festejar e homenagear o mais extraordinário fenômeno no campo da música e da cultura popular que nasceu nessas bandas: o incomparável Luiz Gonzaga, o rei do baião.

Qualquer elogio que se faça, mesmo usando superlativos, ainda é pouco para expressar a sua importância no cenário artístico e cultural brasileiro.

Sua história é carregada de tudo aquilo que representa e expressa a alma do povo nordestino. É uma odisseia cantada, de forma singela, em poesia simplificada, genuína, que narra ao som do triangulo da zabumba e da sanfona, o cotidiano de cada um de nós, habitantes do lado de cá do Brasil.

Gonzaga é o melhor intérprete da gente sofrida, castigada pelas intempéries do tempo, e pelos interesses de homens comprometidos somente com seus projetos individuais de riqueza e poder.

A certeza de que não surgirá outro igual a ele, é unânime.

Na sua extensa obra, paradoxalmente, tanto se faz presente o martírio da seca como o amor à natureza bravia, que faz do sertanejo um retirante, longe de seu tão amado torrão natal, à procura de dias melhores para sua prole. A religiosidade extremada desse povo permeia sua melodia do início ao fim da sua carreira, exposta no culto aos santos católicos e a homens tidos como tal: o “padinho”  pade Ciço Romão Batista e  Frei Damião.

É o universo caboclo passeando entre as notas musicais. São as paixões e as “coisas da vida” em desfile. São os  desatinos impostos pelo destino, narrados de um jeito que só Gonzaga sabia fazer, a perfeita união da execução com a interpretação, a sanfona choradeira, o timbre e a entonação da voz, que tanto chamava para um chamego bom, quanto para a nostalgia carregada de saudade do cheiro da terra, do cantar dos pássaros, do zunir do jumento, e do badalar do sino.

Nos seus versos cantou também a crítica social, a violência das disputas por terra, o cangaço, o poder sobre a vida e a morte depositado nas mãos dos coronéis, a tristeza do homem afastado do seu meio, a chegada do progresso e os novos hábitos sociais. Nessa temática cantou a Triste partida, Vozes da Seca, Xote ecológico, Baião da garoa, entre outras.

Enfim, ninguém como o eterno Luiz Gonzaga, para entoar as coisas do sertão. Sua música tem seu cheiro e seu sabor, e acima de tudo tem história. E história não se apaga.

Eis o que escreveu sobre o cantador, o folclorista e historiador Luiz da Câmara Cascudo:

“Luiz Gonzaga é uma legitimidade do Sertão tradicional. Não imita. Não repete. Não pisa rastro de nome aclamado. É ele mesmo, sozinho, inteiro, solitário. Fui no sertão. Tenho na memória o timbre das grandes vozes infatigáveis. Vaqueiros, aboiadores, romeiros. Poeira histórica das feiras e vaquejadas. Luiz Gonzaga é a paisagem pernambucana, água, matos, caminhos, silêncios, gente viva e morta. É a fonte, a cabeceira e nascente de suas criações. Sertão é ele, sanfoneiro do Sertão, brasileiro do Brasil”

A dimensão da discografia de Luiz é algo surpreendente. Ouvi-la, aos poucos, decifrando cada mensagem ali inserida, é um prazer imensurável para aqueles que amam as tradições de sua terra. É quase uma obrigação. Nela encontramos o baião, o xaxado, a toada, o aboio, o coco, a polca, a marcha, a mazurca, tudo interpretado com a alma, marca registrada desse astro inigualável.

Os números da produção gonzaguiana e seus títulos, comprovam o seu compromisso espiritual com o povo. Suas músicas foram gravadas pelos grandes nomes da música popular brasileira, e até hoje são alvo de surpreendentes e inovadores arranjos, executados por novos talentos que surgem na cena artística nacional.  As noites juninas brasileiras, indiscutivelmente, são noites de tributo ao mestre Lua.

São 125 discos gravado no sistema 78 rpm, 41 compactos 33/45 rpm, 6LPs de 10 polegadas/33 rpm, 79 LPs 33 rpm/12 polegadas, originais, 15 LPs 33 rpm de 12 polegadas-compilações, o que totaliza 266 discos, com 1617 músicas, sendo 625 sem regravações.

Destas, 53 são composições de sua autoria, 243 criadas em parceria, e 329 de outros compositores.

Seu primeiro disco como instrumentista foi gravado em março de 1941, com as músicas “Véspera de São João” de autoria do próprio e Francisco Reis e “Numa Serenata”, composição só sua. Já como cantor estreou em fevereiro de 1945, com o registro de “Dansa Mariquinha” em parceria com Miguel Lima.

Em abril de 1942 gravou “Pé de serra”, de sua lavra, título que acabou designando um gênero musical e os “regionais” formados por triangulo sanfona e zabumba.

Em abril de 1947 grava “Asa Branca” em parceria com Humberto Teixeira, seu maior sucesso, considerado por muitos como hino do Nordeste.

As mulheres sempre estiveram presentes nas canções de Luiz, algumas, inclusive aparecem como título da música. São elas: Veronica, gravada em abril de 1942, Lygia, gravada no mesmo ano, Yvone, autoria de Henrique Xavier Pinheiro, Wanda, 1944, Mara, 1945, Zinha, de autoria de Carneiro Filho, Marieta, 1946, Manolita, 1943, autoria de Léo Daniferff, e Mariá, 1951 em parceria com Zé Dantas.

Como definiu Leon Tolstoi, “se queres ser universal, pinta bem tua aldeia”.

Luiz Gonzaga o fez de forma única.

Fonte: Silva, Uéliton Mendes da. Luiz Gonzaga: discografia do rei do baião. Salvador: BDA,1997.

 

 

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