Racistas: não passarão.......

Carlos Braz, 08 de Julho, 2018 - Atualizado em 08 de Julho, 2018

 

RACISMO À BRASILEIRA

 

Por Carlos Braz

 

O Brasil é um país reconhecidamente miscigenado. As contribuições africanas e indígenas à nossa formação cultural são inegáveis e reconhecidas pelos grandes nomes da Antropologia e Sociologia nacionais.

Teoricamente, as questões étnicas por aqui não deveriam existir, já que temos majoritariamente um pé na senzala, marca que muitos não reconhecem. A nossa realidade ainda é adversa aos afrodescendentes e os motivos para tal são bastantes conhecidos.

O regime escravocrata, imposto pelo colonizador português e que durou 400 anos, extinto pela soberana Isabel, deixou marcas indeléveis em nossa sociedade.

O ato régio que concedeu a liberdade a milhares de pessoas, não atentou para a necessidade de projetos sociais, que tornassem os outrora cativos, cidadãos com plenos diretos e oportunidades iguais.

O regime republicano no Brasil tem início em 15 de novembro de 1889, com o golpe de estado aplicado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, que depõe o imperador D. Pedro II.

São decorridos então pouco mais de um ano da abolição da escravatura, sem que nenhuma proposta de transição de trabalhador escravo para trabalhador livre houvesse prosperado.

É esse contexto social, repleto de imensas dificuldades, tais como o subemprego, a falta de assistência médica, de moradia e educação que se apresenta ao homem livre juridicamente e cativo socialmente, ao qual só restou uma única alternativa possível: procurar sobreviver através sua própria iniciativa.

À ausência de cidadania somou-se os paradigmas negativos, os rótulos facilmente assimilados. O preconceito racial, a má índole, a incapacidade para o trabalho intelectual, o determinismo biológico que levava a tendência de afinidades com folguedos.

Dessa forma, a ascensão social dessa massa humana tornou-se um fato extraordinário. Para os negros sempre estavam reservados os piores empregos, na cozinha ou do lado de fora.

O Brasil republicano nada mais era do que a continuação do Brasil Império, de quem herdou milhares de homens entregues ao próprio destino, sem nenhuma política pública focada no social. Os mesmos homens com os mesmos pensamentos, ao longo do tempo articulam projetos de um Brasil novo, moderno e em igualdade com as nações mais desenvolvidas da Europa e da América.

Percebe-se através de documentos e declarações de autoridades e intelectuais da época a intenção de clareamento da população brasileira, uma tentativa vã de ocultar seu passado escravocrata.

O antropólogo e médico carioca João Baptista de Lacerda foi um dos principais expoentes da tese do embranquecimento entre os brasileiros, tendo participado, em 1911, do Congresso Universal das Raças, em Paris. Esse congresso reuniu intelectuais do mundo todo para debater o tema do racialismo e da relação das raças com o progresso das civilizações (temas de interesse corrente à época). Baptista levou ao evento o artigo “Sur les métis au Brésil” (Sobre os mestiços do Brasil, em português), em que defendia o fator da miscigenação como algo positivo, no caso brasileiro, por conta da sobreposição dos traços da raça branca sobre as outras, a negra e a indígena.

Era senso comum na sociedade da época a certeza da incapacidade do negro para aprender novas funções e organizar-se como grupo familiar, sendo, portanto, um trabalhador apto apenas a realizar trabalho braçal e outras ocupações consideradas inferiores, principalmente aquelas ligadas à construção civil e limpeza pública, etc., ou no campo do folclore, da música ou do futebol.

Essa dura realidade aparentemente imutável, atravessa as primeiras décadas do século XX sem contestações significativas da parte do Estado Brasileiro. Somente a partir de meados de 1930 surgem as primeiras manifestações contra o racismo em São Paulo, sufocadas com a Revolução de 1930. Surge a Frente Negra Brasileira (1931-1937), movimento pioneiro contra o racismo e intolerância racial. Após sua extinção em 1937, torna-se partido político.

O mito da democracia racial, tese desenvolvida por Gilberto Freyre a partir do clássico Casa Grande & Senzala, publicado em 1933, defende a teoria de que no Brasil não havia conflitos raciais, que todos conviviam em harmonia, sendo a mestiçagem uma confirmação de integração social. A barbárie do sistema escravocrata que aqui vigorou usava métodos violentos e desumanos apenas em casos pontuais.

Na ótica Freyriana, cria da aristocracia latifundiária, o país oferecia oportunidades iguais para todos no processo de desenvolvimento social econômico, o que na verdade nunca ocorreu.

Apesar da incontestável discriminação racial existente no Brasil,  o mito da democracia racial foi aceito sem contestações durante muitos anos, inclusive por muitos negros. Tinha imensa serventia para amenizar a dor de consciência dos escravistas e confundir os críticos do Brasil no exterior.

A prática do racismo atravessa as primeiras décadas do século XX sem contestações significativas da parte do Estado Brasileiro. Somente a partir de meados de 1930 surgem as primeiras manifestações em São Paulo, sufocadas com a Revolução de 1930. Surge a Frente Negra Brasileira (1931-1937), movimento pioneiro contra o racismo e intolerância.

Assim se construiu o racismo à brasileira, engenhosamente tramado pela sociedade aristocrática e política brasileira.

Para se ter uma ideia da intolerância racial encrustada em nosso meio social, citamos a reação da elite conservadora à implementação do sistema de cotas: foi enviado ao Congresso Nacional um manifesto, assinado pelos maiores “intelectuais” brasileiros, solicitando a recusa do Projeto de Lei nº 73/1999, (PL das cotas), bem como do PL nº3/2000 (PL do Estatuto da Igualdade Racial), sob o argumento que eles romperiam com o princípio da igualdade, uma ameaça à República e ao regime democrático.

O acesso do negro às universidades é um divisor de águas no âmbito de novas perspectivas de vida para os afrodescendentes. Esse processo se inicia em meados de 1960, e alimenta a militância intelectualizada.

O crescimento da economia a partir de 1968, abriu novas perspectivas de vida para o universo afrodescendente, contudo, o mercado de trabalho continuou restrito aos cidadãos “de cor”. A pioneira geração de negros esclarecidos e considerados intelectuais, discriminados profissionalmente, cerram fileiras com outros tantos em situação idêntica, e assumem a liderança dos grupos identificados com a causa racial.

Com a redemocratização do país as bandeiras de luta são reerguidas pelos partidos políticos de esquerda e seus militantes, em sua maioria trabalhadores assalariados e estudantes.

As novas leis promulgadas no Brasil consideram o racismo crime inafiançável o que inibiu, em parte, a sanha descriminante das mentes colonialistas, conservadoras e retrógradas, que covardemente adotam como armas o anonimato, os perfis falsos nas redes sociais, ou ainda a dissimulação, o boicote e o deboche.

Não passarão.

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