Virgulino e Maria Déa: uma história de amor e sangue no cangaço

Carlos Braz, 20 de Julho, 2018 - Atualizado em 21 de Julho, 2018

 

 

 

                               Virgulino e Maria Déa: uma história de amor e sangue na cangaço

 

Por Carlos Braz

 

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor,

seria como o metal que soa ou como o sino que tine".

Corintios 13:1

 

Dia 28 de Julho próximo completam-se 80 anos da chacina de Angicos, que resultou na morte do afamado bandoleiro Virgulino Ferreira da Silva, alcunhado Lampião, e sua companheira Maria Déa, transformada pela historiografia cabocla em Maria Bonita.

O combate final entre cangaceiros e “macacos”, acontecido no município de Poço Redondo, no estado de Sergipe, foi o desfecho de um ciclo de 20 anos, que aclamou o Capitão como o senhor das caatingas nordestinas, o mais sagaz líder de todos os grupos de malfeitores que assolou os sertões desde o alvorecer do século XX.

O histórico de violência na região norte/nordeste não se inicia com a saga cangaceira, como muitos imaginam. Origina-se no processo colonizador imposto pelo português, que vitimou índios e negros e se instalou com a posse das terras, por necessidade ante a insegurança reinante.

O cangaceiro é o valentão, o capanga e o jagunço indomável, pago pelas elites latifundiárias e políticas para proteger terras e gente e eliminar inimigos. Mesmo ocorrendo em rincões desprezados pelos poderes federais, a epopéia de sangue e lágrimas alcançou tamanha dimensão, que sua extinção se tornou uma questão de honra para autoridades da época, à frente o Presidente da República, Getúlio Vargas.

Os relatos sobre essa trágica passagem da caatinga nordestina são inúmeros e oriundos das mais variadas fontes, sendo publicados em centenas de livros, artigos e trabalhos acadêmicos. O fenômeno cangaço também movimenta uma lucrativa atividade turística, e serve de inspiração para músicos, cineastas e artistas das artes plásticas e visuais de variadas tendências.

Na grande maioria dessas obras sobressaem o contexto de violência, inibindo um olhar mais atento sobre o âmago daquelas feras que também eram homens, possuidores de códigos sociais ressignificados diante das circunstancias, sentimentos e costumes sufocados pela aridez do cotidiano.

Em Lampião, o guerreiro violento e cruel, também pairava forte religiosidade e a capacidade de amar plenamente, com a mesma intensidade presente nas grandes paixões que se eternizaram através dos tempos. O sentimento avassalador que brota naturalmente, desprezando as regras sociais, o perigo e risco de vida, e que atua como um elixir estimulante.

A paixão que vence a razão é a tônica do romance entre Virgulino e Maria Déa´.

Em sua essência, é o mesmo arrebatamento que envolveu tantos outros, amantes anônimos, que abriram suas defesas ante um gesto, um olhar ou uma palavra e deixaram-se levar em um turbilhão de emoções. Relatos semelhantes são encontradas na mitologia grega, nos livros sagrados e profanos. É a força do amor e sua subjetividade, que brota até nos mais duros dos corações.

Exaltar esse idílio foi uma constante durante os anos  em que viveram juntos. Maria acompanha seu homem por livre e espontânea vontade, e ao lado dele tomba em Angicos. Os que com eles conviveram narram uma afeição genuína, uma relação de respeito mútuo, explícita em mimos e afagos. Quem podia usar o punhal preferiu a sedução, e dessa existência atribulada entre correrias e tiroteios veio ao mundo uma sobrevivente, criada por pais adotivos e batizada como Expedita Ferreira Nunes.

Lampião chamava a esposa de Santinha. Já seus comandados a ela se referiam como D. Maria do Capitão, o que indica regras de conduta e forte da hierarquia dentro do grupo. A presença da mulher no bando, na posição de companheira, e não de serviçal ou escrava sexual, é, sem dúvida, um divisor de águas, entre tantas manifestações de furor, vivencias e experiencias aterradoras.

Com a entrada de outras mulheres no bando, foram necessárias a adoção de medidas que as protegessem: durante os combates permaneciam fora da linha de tiro. No campo da estética, foi confeccionada uma veste específica para elas e os embornais receberam uma estética colorida e criativa, e ficou estabelecido o direito de privacidade entre os casais. A presença feminina também amenizou as relações dos cangaceiros com os sertanejos, quando ocorriam as  invasões em fazendas e povoados.

 Verdades e lendas se misturaram no decorrer do tempo, alimentando o imaginário popular, através dos cordéis e da cantiga dos violeiros tanto nos centros urbanos quanto na zona rural, eternizando a figura do mito. A grota de Angico, mesmo com seu ar funesto e arrepiante, virou ponto turístico, e bonecos de barro que personificam o famoso casal são vendidos aos montes por todo o Brasil.

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