Histórias da minha avó: a maldição de Omolu

Carlos Braz, 10 de Agosto, 2018 - Atualizado em 25 de Agosto, 2018

 

 

 

Histórias da minha avó: a maldição de Omolu

 

Por Carlos Braz

 

Minha avó chamava-se Rachel Paranhos de Jesus e morreu com 100 anos de idade, totalmente lúcida. Mesmo perdendo a visão devido o contato com vapores quentes provenientes da torragem de café, optou por morar sozinha até o fim de seus dias, “sem dar trabalho a ninguém”, nas suas próprias palavras.

Contou-nos que nascera na noite de São João, após a Lei do Ventre Livre, mas foi obrigada a viver em uma fazenda de cana de açúcar junto com sua mãe escrava, na cidade de Laranjeiras.

Com a abolição de 13 de maio de 1888 foi largada no mundo, entregue à própria sorte. Veio para Aracaju, morando nas redondezas do morro do Bonfim, zona boêmia da nova capital, frequentada pelos seres da noite, palco de brigas e bebedeiras.

Negra de corpo avantajado e calejado pelo trabalho, adepta do candomblé, criou o único filho de sangue na companhia de mais dois adotivos até quando pode, vendendo cachaça de casca de pau, café, cocada e outras guloseimas pelas ruas da cidade. Quando podia, ainda lavava e engomava para os mais afortunados.

Já na velhice, gostava de contar histórias aos netos, todas elas reais, sobre pessoas com as quais conviveu, ou fatos acontecidos no decorrer da sua longa vida. Dos escaninhos da memória, escolhi para relatar-lhes “A maldição de Omolu”, já que foi a que mais nos impressionou, e por envolver questões religiosas que aprendemos a respeitar desde então.

Disse ela que em uma tarde do mês de janeiro, não lembra de que ano, estava a moer milho no pilão quando o céu bordado com nuvens rosadas repentinamente encheu-se de flocos cor de chumbo, carregados de água, acompanhados de rajadas de um vento forte e frio, que assobiava por entre as torres das igrejas e levantava redemoinhos de folhas secas nas praças e quintais.

Um reboliço de mães a correr aflitas aqui e acolá em busca de seus rebentos que brincavam pelas redondezas tomou conta do lugar. Os grossos pingos d’água não tardaram a cair, a noite chegou a galope, encontrando ruas e vielas completamente desertas.

Surpreendentemente, o aguardado dilúvio não aconteceu, e quando o sino da matriz ecoou marcando a hora da Ave Maria, só as pedras enlameadas eram as marcas visíveis do que ocorrera. As pessoas ainda assustadas colocavam aos poucos os rostos para fora das portas, averiguando o ar, certas de que algo sobrenatural acontecera.

A notícia funesta logo correu por toda a cidade: mãe Aninha, a mais respeitada Yalorixá da nação Nagô, exalou seu último suspiro de vida, aos 98 anos de idade, lá pelas bandas da Mussuca, e a natureza, domínio absoluto dos orixás revelou o ocorrido naqueles breves momentos de tormenta.

Uma tristeza profunda transpareceu de imediato nos semblantes das pessoas do lugar, gente humilde que durante décadas foram acolhidas pelo manto branco da matriarca, que em seu terreiro não fazia distinção de cor, condição social ou credo religioso.

Atendia a todos, seus filhos ou não, com cordialidade e compreendia perfeitamente que muitas daquelas pessoas também frequentavam com o mesmo fervor a missa do padre italiano, inimigo declarado do povo de santo.

O povo do lugar vivia confortavelmente entre o profano e o sagrado e Rio Cotinguiba, era caminho de água para procissões e “trabalhos”, mesmo diante das inúmeras manifestações contrárias emanadas da parte do clero, que não hesitava em apontar os anjos decaídos e prometer o fogo do inferno às ovelhas que porventura desviassem do bom caminho.

O funeral da mãe de santo foi algo que jamais será esquecido naquele pedaço de mundo. O cortejo percorreu as vielas estreitas que levavam ao campo santo, acompanhado por centenas de pessoas, imaculadamente vestidas de branco, entoando cânticos sagrados no dialeto iorubá.

Por detrás das janelas e portas cerradas outros tantos espreitavam o féretro e derramavam as mesmas lágrimas, declamando Padre-nossos e Salve-rainhas, livres do olhar condenatório do guardião das almas, que recolhido aos seus aposentos no fundo da matriz, escolhia cuidadosamente as leituras que seriam usadas no sermão dominical.

Lá fora, as lágrimas corriam livremente daqueles rostos crispados pela dor da perda.Muitos seguiam com os pés descalços empretecidos pela areia molhada do caminho, e ao fim da tarde cobriram com centenas de lírios, rosas e margaridas o túmulo daquela que saía da vida e entrava para a história das religiões de matriz africana no Estado de Sergipe.

Enfim o domingo chegou. O dobrar dos sinos anunciando a hora da missa tão aguardada por todos. No sermão prolongado, o ódio mal disfarçado a emanar daqueles olhos azuis. E da voz que cortava feito faca a afirmativa da onipresença divina. Deus estava em todos os lugares e sua ira para com os pecadores era infinita.

A fila da comunhão na igreja lotada superou as expectativas. Os fiéis cabisbaixos mal se falavam. Ao final do culto, o delegado e o prefeito foram discretamente convidados à sala paroquial.

Nos meses que se seguiram, as perseguições aos cultos africanos ocorreram constantemente, com invasões, agressões e ameaças. Os terreiros foram obrigados a se estabelecerem nas cercanias da cidade, a pretexto de não respeitarem a lei do silêncio.

Aproximava-se a época do olubajé, o banquete do Rei oferecido a Omulu, orixá temido e misterioso em suas vestes feitas com palha da costa, que esconde quase todo o seu corpo, soberano dos males e das curas.

Pelas ruas de Aracaju devotos carregavam cestos com pipocas, que ofereciam aos passantes em troca de donativos que seriam usados na organização da festa. Tonho de Omolú era um deles, remanescente da casa de Mãe Aninha.

Cumpria sua obrigação humildemente, com a carapinha branca impondo respeito na comunidade conhecida como Porto D’Antas, quando à sua frente um sussurro suave se fez ouvir, perguntando-lhe onde ficava a Igreja de São Pedro Pescador.

Aquela voz ele jamais esqueceu: era do padre estrangeiro, o algoz do seu povo.

Levantou a cabeça e deu de frente com uma figura esquelética e carcomida, envolta em uma batina negra, com capuz que realçava aqueles olhos frios que causavam pavor aos pecadores. Agora eles apenas transmitiam tristeza e uma fragilidade interior imensa, encovada no rosto excessivamente enrugado e com marcas de varíola. Era um morto a perambular pelo mundo dos vivos.

Apontou a direção do templo e em seguida ofereceu-lhe o último saco de pipoca que lhe restava, porém o moribundo virou as costas sem nada dizer e ambos seguiram em direções opostas.

Ano de 2018. Laranjeiras tem uma população majoritariamente afrodescendente e o culto aos orixás é amplamente aceito. Muitos terreiros foram matrizes de outros, que espalharam pelo Vale do Cotinguiba a força do axé.

Suas tradições católicas continuam intactas. Seu patrimônio barroco bem representado pelas suas igrejas. A diversidade cultural desfila embalada pelas dezenas de manifestações culturais preservadas, geração a geração, que proporcionam divisas através do turismo cultural. E a cana de açúcar ainda é a principal atividade econômica do município.

 

 

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