O Brasil no charco das nações: museus e patrimônio em desencanto

Carlos Braz, 05 de Setembro, 2018 - Atualizado em 05 de Setembro, 2018

O Brasil no charco das nações: museus e patrimônio em desencanto.

 

Por Carlos Braz

 

Assistimos desde o último domingo ao mais sinistro capítulo do histórico descaso das autoridades brasileiras para com a nossa cultura, patrimônio, e em especial para com os museus públicos que estão sob sua guarda.

O incêndio que destruiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro teve repercussão mundial, expondo, no âmbito institucional, nossas entranhas repletas de incompetência e falta de compromisso com bens culturais de valor histórico incalculável, que em poucas horas transformou-se em cinzas.

Foi mais uma perda, talvez a mais significativa de todas, que poderia muito bem ser evitada, visto que, há anos se tem conhecimento através de laudos emitidos pelos órgãos competentes, da situação de risco e insolvência financeira dessa que foi a instituição museal brasileira mais reconhecida no exterior pela excelência do seu acervo.

Culpados existem, e cabe aos investigadores aponta-los. Mas, em um país conhecido internacionalmente pela impunibilidade daqueles que infringem as leis e cometem os mais variados crimes, não será surpresa se nada acontecer com os gestores responsáveis pela salvaguarda de tão valiosos bens históricos dizimados pelas chamas.

Certamente essa não foi a primeira e nem será a derradeira perda que teremos. Porém, que definitivamente sirva de lição, para que no futuro medidas emergenciais que visem a manutenção de nossos espaços culturais, a maioria deles entregues à própria sorte há décadas, não sejam proteladas e fiquem trancadas nas gavetas de um ministro ou secretário qualquer.

Aqui em Sergipe a situação não é diferente do resto do país. Cultura não dá voto, como dizem certos políticos inescrupulosos. E assim sendo, só restam muitas promessas e pouco investimentos.

Com as mais recentes aberturas do Museu da Gente Sergipana e do Palácio-Museu Olímpio Campos, o hábito de visitar museus ganhou novo impulso em Aracaju. Contudo, espaços de memória historicamente importantes, continuam negligenciados, operando com recursos mínimos, candidatos a mais uma tragédia anunciada. Alguns já fecharam suas portas, como o Museu do Homem Sergipano e o Museu Arqueológico de Xingó, ambos administrados pela Universidade Federal de Sergipe.

Localizado na cidade de São Cristóvão, na Praça São Francisco, chancelada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, o Museu Histórico de Sergipe está abrigado em um casarão colonial carente há anos, de reparos estruturais.

Possui um acervo onde constam obras de arte de artistas consagrados nacionalmente, tais como o sergipano Jenner Augusto e Horácio Hora e o argentino/baiano Caribé, entre outros, que estão a necessitar urgentemente de restauro e manutenção.

Da mesma forma amontoa-se em sua reserva técnica objetos significativos, de grande valor para a construção sociocultural da gente sergipana, bem como armas e utensílios usados pelos bandos cangaceiros que assolaram o nordeste no século passado. 

O Museu de Arte Sacra, no lado oposto, administrado pela diocese, possui um acervo magnífico, peças sacras de grande importância. O prédio, antigo convento franciscano, evidentemente necessita um sistema de segurança mais avançado, que o proteja de visitantes indesejados.   

Já na cidade de Laranjeiras, mãe cultural de Sergipe, temos dois museus, e uma biblioteca dedicada ao eminente conterrâneo João Ribeiro. Todos em situação de risco.

O Museu Afro Brasileiro de Sergipe funciona em um casarão que já desabou décadas atrás, precisa urgentemente de um novo prédio. O mesmo acontece com o Museu de arte Sacra de Laranjeiras, também possuidor de artefatos religiosos de grande valor histórico e cultural.

Ao lado de um patrimônio material e imaterial incalculável, compõem um verdadeiro museu a céu aberto, emoldurado por extensos canaviais e uma população majoritariamente afrodescendente, que propicia ao visitante o convívio salutar com a pluralidade, em todos os seus sentidos.

Oxalá os ventos de mudança almejados pela sociedade sergipana tragam-nos novos administradores, com um novo olhar sobre a importância de mantermos em evidencia nossos bem culturais, alicerces legítimos da nossa identidade e testemunhos de um tempo que não volta mais.

 

 

O que você está buscando?