Uma tarde com Jorge Amado e Zelia Gattai

Carlos Braz, 15 de Setembro, 2018 - Atualizado em 15 de Setembro, 2018

UMA TARDE COM JORGE AMADO E ZELIA GATTAI

 

Por Carlos Braz

 

O colorido das ruas e da gente de Salvador parecia mais vivo e brilhante naquela manhã de sábado tão especial, ansiosamente esperada desde que fui encarregado da tarefa de entregar em mãos, na Rua Alagoinhas 33, bairro de Rio Vermelho, uma encomenda contendo queijadas e outros acepipes da mais fina procedência, aos donos da casa, Jorge Amado e Zelia Gattai.

As guloseimas tão delicadamente preparadas por Dona Nazaré, doceira sergipana da cidade de São Cristóvão, sempre foram apreciadas pelo nobre casal, desde que lá estiveram há muitas décadas atrás. E as encomendas foram constantes, enviadas pelos correios ou entregues pessoalmente, por mensageiros de passagem pela boa terra.

Ao subir a célebre ladeira rumo ao meu destino, voltei aos anos passados nos bancos do ensino médio, as tardes ganhas na biblioteca repleta de clássicos da literatura nacional, onde o mestre das letras baianas tinha lugar de destaque, com todas as suas obras ao alcance da mão.

O privilégio de acesso ao mundo real travestido de ficção, especialidade amadiana, foi uma experiência inesquecível. Nos meus devaneios de rapazote encarnei-me na pele de diversos dos seus personagens, geralmente os mais audaciosos, galantes ou aventureiros.

Agora, todos eles subiam comigo rumo à casa daquele que os tornou conhecidos nos mais diferentes lugares do mundo, através de seus romances: os capoeiras com seu gingado harmonioso, os pescadores com suas redes repletas de peixes, as prostitutas com seios abundantes de mãos dadas com as beatas com seus terços enrolados ao pulso, os operários explorados e suas calosas mãos vazias, e os capitães de areia corridos do cais do porto com a polícia em seu encalço.

 Um pouco adiante, os coronéis e seus capangas mal-encarados marchavam ao lado de políticos de alta patente e clérigos coroados, com suas volumosas barrigas bem supridas de carne e vinho.

E a frente de todos, cercado por uma guarda de negros contritos, um cortejo com todos os orixás nativos da mãe África, iluminados por um halo de sol: a proteção e a segurança de um ser amado por todos. 

Enfim enxerguei a casa encravada em uma elevação natural do terreno, e meu coração começou a bater mais forte. O cortejo fulgurante dissolveu-se por encanto, abandonando-me no limiar de um portão de ferro pintado em azul, tendo no seu topo a figura mítica do santo da casa. O muro branco emoldurado por plantas nativas fornecia uma generosa sombra que se alongava até o meio da rua, um bálsamo de frescor para suavizar o esforço da chegada, uma dádiva para qualquer visitante.

Respirei fundo o toquei a sineta pendurada ao lado do portão.

A minha frente, o homem de cabelos brancos, pés descalços, vestido em uma calça de linho perfeitamente engomada e uma camisa multicor abriu o portão lentamente sem deixar dúvidas em minha mente: a mão que apertava a minha com segurança e calor amigo era a mesma que apresentara ao mundo o legítimo homem brasileiro em plenitude.

Disse-lhe quem era e o que trouxera, e um sorriso de quase menino brotou daqueles lábios sombreados por um bigode bem aparado, onde o cheiro de tabaco fluía fortemente.

Com a mão no meu ombro andamos em direção à porta de entrada, enquanto gritava por Zélia, anunciando que a encomenda tão aguardada havia chegado. O rumor de vozes vindo da varanda aos fundos indicava a presença de outras pessoas no local. E um bom cheiro gostoso de uma moqueca de peixe inundava o ambiente festivo.

Dona Zélia também foi toda gentileza. Recebeu o pacote e partiu em direção à cozinha em busca de uma travessa onde colocou as deliciosas cocadas, junto com quindins e outras guloseimas. Ofereceu-me um suco de manga e docemente pediu que eu ficasse à vontade, como um visitante igual a todos os outros.

Lentamente bebi todo o suco, saboreando aquele momento único que sabia jamais voltaria a acontecer. E saí para o imenso jardim, com seus bancos em azulejo azul, o lago rodeado de sapos em argila, exemplares da mata nativa em perfeita comunhão com a construção, bem como com as pessoas que ali se encontravam.

Na varanda, cravo e canela em pequenos vasilhames ao alcance dos convivas, e risos libertos das regras rígidas impostas pela etiqueta. Uma mucama atarefada, com os cabelos soltos no meio das costas, servia as delícias da culinária regional. Os copos permaneciam sempre completos de licores, cervejas, casca de pau ou sucos. A garantia de que eu não estava sonhando se concretizava nas mãos a me oferecer um caldo fumegante:  frutos do mar com pitadas de uma boa pimenta.

Pedi aos deuses que o tempo parasse naquela hora. A voz doce de Caymmi em loas à Marina, o olhar límpido do conterrâneo Jenner Augusto, a paleta de cores que Caribé abandonara ao sol, o odor de um charuto cubano tragado por Mario Cravo, que levemente embriagado, pedia canções de conquista, enquanto não tirava os olhos da serviçal de olhos amendoados e sorriso cativante.

Vaguei pelas dependências da mansão, avistando em todas elas rostos tão conhecidos quanto meus melhores amigos de infância, enquanto os ilustres convivas degustavam os acepipes sem pressa, indolentes, gozando antecipadamente o que ainda estava por vir como sobremesa: a punheta, receita preferida de Jorge, preparada com tapioca, leite de coco e canela, ao gosto do anfitrião, e por fim , a queijada de São Cristóvão.

Os ventos do litoral inflaram as velas do tempo. Os olhos dolentes dos alegres companheiros nem perceberam quando peguei o rumo do portão, e segui na direção do mar. O sino da igrejinha do Largo de Santana anunciou a hora da Ave Maria. Debruçado na amurada ouço o canto suave de Yemanjá. Fecho os olhos, enquanto no horizonte um fiapo de lua cheia emerge das ondas suaves que se desmancham nas areias como açúcar de baba de moça.

 

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