ECONTRO CULTURAL DE LARANJEIRAS: TRADIÇÃO E RESISTENCIA

Carlos Braz, 01 de Janeiro, 2019 - Atualizado em 07 de Janeiro, 2019

ENCONTRO CULTURAL DE LARANJEIRAS: TRADIÇÃO E RESISTENCIA

 

Por Carlos Braz

 

O Estado de Sergipe protagoniza de 5 a 11 de janeiro de 2019, um dos mais importantes eventos culturais do Brasil, o Encontro Cultural de Laranjeiras, que chega este ano a sua 44ª edição,enfrentando desafios persistentes na sua missão de preservar e valorizar as diversas manifestações culturais sergipanas, ameaçadas de extinção pela modernidade, bem como pela apelo midiático da indústria cultural.

Criado por iniciativa do intelectual e historiador sergipano Luiz Antônio Barreto, o festival fazia parte de um conjunto de ações chanceladas pelo governo estadual, cujo objetivo era fortalecer nossa identidade cultural, resgatar e valorizar nossas tradições seculares, patrimônio imaterial da nossa gente, recriando um vínculo de pertencimento visivelmente enfraquecido.

Outros eventos, como festas religiosas, feiras focadas na cultura de cada região, fóruns de discussão e colóquios anuais, a  criação de memoriais, bibliotecas, e o uso do teatro como ferramenta de difusão e conscientização popular, também estavam inclusos no projeto, que não se concretizou efetivamente por conta de manobras no âmbito dos órgãos responsáveis pela educação e cultura em nosso estado .

Do amplo leque de propostas idealizadas por Luiz Antônio apenas duas prosperaram, ambas na cidade de Laranjeiras: o Museu Afro Brasileiro de Sergipe, que hoje funciona precariamente, e o Encontro Cultural de Laranjeiras.

Produzidos e transmitidos de geração a geração desde tempos imemoriais, os folguedos populares surgiram no âmbito das irmandades, instituições coloniais dirigidas por negros, voltadas para prestar apoio material e espiritual à população escrava. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi uma das mais atuantes, incentivando festividades com o intuito de amenizar o sofrimento dos cativos, bem como manter vivas as tradições africanas, sempre sob o olhar vigilante das autoridades portuguesas.

A congada, uma das mais importantes, funcionava como uma forma de resistência cultural, já que remetia os participantes ao universo do reino do Congo, na África. Consistia na coroação do rei e rainha do Congo e iniciava-se com uma cerimônia religiosa dirigida por um padre católico, que coroava as pessoas escolhidas para serem os monarcas de um reino simbólico.

Em seguida, começava o cortejo pelas ruas com danças e cantos e instrumentos de percussão, e personagens devidamente caracterizados.

Ao logo dos séculos muitas outras manifestações surgiram em todo o território nacional, oriundas não só de costumes africanos, com também indígenas e europeus, produzindo, um imenso mosaico cultural onde a pluralidade, aliada a criatividade e alegria genuína dos brincantes sempre foi o fio condutor da festança.

O Encontro cultural de Laranjeiras sintetiza em suas ruas toda essa gama de tradições ancestrais não apenas do Estado de Sergipe. São reisados, cheganças cacumbis, bacamarteiros, samba de coco, cangaceiros, guerreiros, taieiras e muitas outras manifestações, enfim uma coletânea da mais legítima tradição popular A presença de grupos convidados enriquece ainda mais o evento, atraindo durante a sua realização, a atenção de pesquisadores de todo o Brasil. Durante o encontro são realizados fóruns, mesas redondas, oficinas de fabricação de objetos usados nos folguedos e apresentações de grupos de teatro e dança, 

Os ideais de Luiz Antônio Barreto continuam vivos, e já podemos perceber uma reação por parte da iniciativa privada bem como do aparato estatal no sentido de revitalizar e promover o reconhecimento dos nossos valores culturais. Alguns municípios sergipanos já atuam como apoiadores dos seus grupos folclóricos, fornecendo recursos, roupas e equipamentos necessários para sua manutenção.

 

 

.

 

O que você está buscando?