Histórias que os livros não contam: os povos indígenas e a ditadura militar

Carlos Braz, 30 de Janeiro, 2019 - Atualizado em 31 de Janeiro, 2019

HISTÓRIAS QUE OS LIVROS NÃO CONTAM:

OS POVOS INDÍGENAS E A DITADURA MILITAR 

 

Por Carlos Braz

 

Quando se fala em ditadura militar no Brasil somos imediatamente remetidos ao combate entre as forças democráticas e os comunistas, infiltrados nos sindicatos, nas universidades, nos partidos políticos, na igreja, no meio artístico e outras instituições da sociedade civil, que pretendiam transformar o país em uma Cuba meridional.

Muitas foram as obras literárias escritas sobre essa “página infeliz da nossa história”. Memórias do cárcere relatadas por aqueles que sobreviveram ao martírio implantado sem piedade a qualquer um cidadão suspeito de conluio com os subversivos.

A produção cultural desse período é rica e diversificada, mesmo com as mordaças impostas aos meios de comunicação: filmes e músicas aclamadas pela crítica e pelo povo, arte em todas as suas dimensões, documentos e monumentos erguidos para lembrar às gerações futuras os perigos da radicalização ideológica.

Também são numerosos os nomes consagrados até hoje, rotulados como heróis por alguns, e de terroristas assassinos por outros., 

Contudo, nessa imensa galeria estão ausentes milhares de brasileiros descartados pela história, relevados ao limbo do esquecimento, mesmo perdendo suas vidas, sua dignidade, suas terras e sua cultura.

Nesse imenso grupo encontram-se as centenárias etnias indígenas existentes no Brasil naquele tempo, possuidores de terras reconhecidas ou não, que nada tinham a ver com a luta entre o bem e o mal, mas que foram tragados pelo desenrolar dos acontecimentos.

A necessidade de um país desenvolvido e industrializado, impôs as autoridades a adoção em todo o país de projetos gigantescos na área da indústria,  transportes e energia, e nos caminhos do futuro estavam nossos  desconhecidos irmãos ,  filhos da mesma pátria, que nesse contexto, passaram a ser  simples pedras no meio do caminho que tinham que ser removidas.

Grande parte das terras ocupadas pelos nativos possuíam em seu subsolo valiosos recursos minerais, objetos de desejo de grupos oligárquicos que até hoje estão presentes no cenário econômico nacional. A prática de grilagem, assassinatos e perseguições contra uma minoria desprotegida tornou-se corriqueira, sob vistas grossas do aparato governamental e seus órgãos fiscalizadores.

Acossados por todos os lados, os silvícolas foram obrigados a deslocar-se para locais seguros no interior da floresta, ou aceitar as propostas de demarcação de territórios oferecidas pelo governo central, sem direito a objeções.

 Enquanto isso, os generais equipavam os porões, povoados por inimigos do regime, com instrumentos de tortura, utilizados regularmente pelos meganhas  até contra mulheres grávidas e crianças, sem o menor pudor.

O tratamento desumano que os governos militares proporcionaram aos povos indígenas, iam de  encontro às normas mais básicas de civilidade, e dos direitos humanos, afrontando as leis internacionais tuteladas pelos países membros da Organização das Nações Unidas.

O vocábulo Krenak, desconhecido pela maioria dos brasileiros, é uma das denominações pela qual conhecemos os índios botocudos, que se diferenciavam de outros nativos devido ao costume de distender com adornos lábios e orelhas. Na atualidade se autodenominam Grén ou Krén e fazem parte de um grupo étnico macro-jê, que originalmente habitavam parte do vale do Rio Doce, onde hoje se localizam os estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Foram expulsos do seu habitat natural ainda no início do século XX, para a construção da Ferrovia que liga Vitória à Belo horizonte, que atendia aos interesses das grandes empresas mineradoras, ligadas ao capital inglês e norte americano. Longe de suas origens, repouso dos seus ancestrais, e impossibilitados de praticarem seus costumes carregaram até a morte a esperança de voltarem para suas terras.

A palavra Krenak também nomeia o símbolo maior do desrespeito e crimes hediondos cometidos pela ditadura militar contra o povo indígena, o Reformatório Agrícola Indígena Krenak, instalado no município de Resplendor, cuja missão era manter prisioneiros índios de diversas regiões do Brasil,  que não se enquadravam nos padrões almejados pelo regime, ou se recusavam a abandonarem suas moradias nas florestas.

Sob a administração do Capitão Manoel Pinheiro, da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, o local funcionava como uma colônia penal, onde os cativos tinham que realizar tarefas ligadas à agricultura, eram açoitados e atingidos em sua honra, sob severa vigilância de milícias, denominadas Guardas Rurais Indígenas (GRINs), formadas também por índios que aprenderam técnicas de tortura, e as usavam quando solicitados.

Era a barbárie praticada impunemente, já que não se tem notícia de algum condenado por mais esse crime hediondo praticados contra inocentes, e mais um ato infame a ser adicionado ao baú de maldades da caserna já repleto de atrocidades.

Essa  região ,na ocasião, já estava colonizada por descendentes de botocudos oriundos das margens do Rio Doce, que mais uma vez se viram em situação desesperadora, e foram obrigados a participarem dessa trama sinistra. Os relatos orais dos que sobreviveram a esse infortúnio são por demais comoventes, e nos levam a refletir sobre até que ponto pode chegar a bestialidade humana. Os testemunhos materiais em ruínas são a prova inequívoca de um tempo de sombras que teimam em não dar lugar à luz.

A história sempre foi escrita pelos vencedores, mas na contemporaneidade essa regra começa a ser quebrada quando minorias étnicas e sociais reivindicam cidadania e tratamento igual a qualquer outro brasileiro. Em 1986 o cidadão brasileiro Ailton Krenak, de etnia botocuda, foi eleito deputado federal, tendo participação efetiva na elaboração da Constituição Cidadã.

O resultado de sua ação política foi importantíssimo para os povos indígenas de todo o Brasil: foi incluído na Constituição um capítulo sobre a proteção dos direitos dos indígenas, uma conquista inédita até então. O avanço permite, entre outras benesses, o questionamento de violações a direitos em cortes internacionais, o que era impossível de ser feito até 1988. E isso ocorre no ano de 2018, quando o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana por violar direitos indígenas.

A comunidade Krenak resume-se hoje a aproximadamente 350 pessoas, residentes  no entorno da cidade de Resplendor, que cobram da Companhia Vale do Rio Doce o valor de três milhões de reais, referentes a um acordo firmado em 2006 sobre o uso de suas terras pela mineradora.

A foto no início do texto é do Ailton Krenak, militante das causas indígenas.

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