Carnaval: a mais profana das festas

Carlos Braz, 12 de Fevereiro, 2019 - Atualizado em 17 de Fevereiro, 2019

CARNAVAL, A MAIS PROFANA DAS FESTAS

 

Por Carlos Braz

 

Soam os clarins, rufam os tambores. Os demônios enclausurados nos recantos mais remotos das consciências preparam-se para emergirem, sepultando a vergonha dos púdicos, que já sonham com a fuzarca, ansiosos pelo momento da metamorfose inversora de papéis. Os respeitosos senhores preparam suas máscaras, um dos símbolos dessa parafernália anual, atrás das quais violarão os códigos sociais vigentes. enquanto os libertinos anseiam pela queda das fronteiras entre o respeito e o pecado do beijo roubado.

Abram alas, abram alas, vampiros e impenitentes sedutores: assim alardeiam pedindo passagem os arautos do faustoso Rei Momo, senhor de um território dominado pela volúpia e luxúria . Já é carnaval, a mais profana das festas.

É unanimidade entre os historiadores a origem dos festejos momescos. Surgiram na antiguidade, já investidos do seu caráter transgressor e libidinoso. É uma miscelânea de eventos pagãos, organizados por diversos povos, egípcios, gregos e romanos, entre outros, com o intuito de celebrar uma boa colheita.

Contudo, o protagonismo cultural romano aproxima o carnaval das saturnais, efemérides dedicadas ao deus da agricultura, Saturno. Com a supremacia do cristianismo durante a Idade Média a igreja católica mobilizou-se impedir sua realização, ou na pior das hipóteses, interferir no período de sua realização.

 Dessa forma ficou estabelecido oficialmente uma data, em conformidade com o calendário católico: quarenta dias antes da páscoa; antecedendo o período denominado quaresma, durante o qual os homens refletiriam sobre os pecados cometidos e sobre o perdão, necessário  para renascer para uma nova vida.

 Nos dias atuais o carnaval  acontece em diversos países do mundo, contudo, é no Brasil que ele assume ares de grandiosidade, quando a arte, em puro êxtase, une-se a sensualidade natural da mulher brasileira. Com a grande extensão territorial do nosso país e culturas diferenciadas entre as regiões a festa assume diversas facetas. o que a torna ainda mais surpreendente.

Entrudo. É com essa denominação que nasce o carnaval brasileiro, introduzido pelas mãos dos colonizadores portugueses. Encontram-se relatos sobre o folguedo em um documento produzido em Portugal, no ano de 1252, no reinado de D. Afonso III. E sua prática também é encontrada com certa regularidade em outros escritos lusitanos, o que comprova sua existência como elemento da cultural  dos patrícios desde a Idade Média.

No Brasil, o entrudo consistia em sair às ruas e participar de um combate com bexigas cheias de líquidos, farinha, limão de cheiro, pó ovos, enfim, tudo que promovesse um mela-mela generalizado. Tal costume se espalhou por toda a colônia e persiste até hoje em alguns lugares, e dele participavam todas as classes sociais.

Com o decorrer do tempo a brincadeira passou a ser considerada coisa de incivilizados e deu lugar aos cordões e blocos, sendo a marchinha o ritmo soberano entre os anos 1920 e 1960. A nossa herança africana e indígena não tardou a se manifestar pelos quatro cantos do país. Na Bahia o trio elétrico, os afoxés, o samba de roda e a revolucionária axé music. O frevo e o maracatu se consolidaram em Recife, e no Rio de Janeiro surgem as escolas de samba.

São nelas que ingredientes inéditos são adicionados à folia: a nudez de homens e mulheres em enormes carros alegóricos, e o luxo das fantasias usadas durante o desfile. Mulatas, passistas e percussão envolvente tem suas imagens transmitidas para todo o mundo através da televisão.Em pouco tempo o carnaval se transformou em uma indústria que movimenta bilhões de reais gerando emprego e renda, consolidando-se como a maior festa popular do planeta. 

 Em Aracaju o carnaval ganha as ruas com o prestígio de festa popular e democrática no ano de 1894, com a iniciativa do tenente Henrique Silva, militar à serviço do Batalhão 33, futuro 28º Batalhão de Caçadores.

Reunindo sob seu comando músicos de várias origens, saiu às ruas arenosas de então com um pequeno grupo de brincantes. Desde então a festa evoluiu, e ano após anos foram criadas diversas agremiações exclusivamente carnavalescas, e oficializado o desfile de blocos e carros alegóricos que ocorriam em frente ao Palácio do Governo, enquanto nas ruas adjacentes decoradas em tons coloridos, uma multidão de fantasiados faziam dos confetes, serpentinas e lanças perfume armas de sedução, em cortejos que só acabavam nas  primeiras horas da manhã.

Nesse contexto surge o primeiro cronista social dedicado a cobrir os bailes nos clubes da cidade, à serviço do Sergipe Jornal: José Eugenio de Jesus, o mesmo que posteriormente se destacaria como comentarista esportivo, função que exerceu até os 94 anos de idade.

O inocente entrudo ficou no passado. O mundo mudou e as mentalidades também. Contudo, o carnaval continua com a mesma essência de séculos atrás: a permissividade, a inversão de valores e posição social é a tônica durante os cinco dedicados ao frenesi, quando todos podem usar suas fantasias. O excluído e o fraco podem se tornar reis, um desempregado pode se transformar em um empresário de sucesso e chefe de família, machista inveterado, pode ser um conquistador de ninfetas, uma bailarina tresloucada ou que mais desejar.

É, efetivamente, o reino da ilusão, onde os sonhos sonhados se tornam efêmera realidade. E por isso, atrai multidões.

 

 

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