Violência contra a mulher: uma questão cultural?

Carlos Braz, 06 de Abril, 2019 - Atualizado em 08 de Abril, 2019

 

 

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: UMA QUESTÃO CULTURAL?

Por Carlos Braz

 

Nos últimos tempos tornou-se corriqueiro nos noticiários nacionais os relatos de  feminicídios, ou seja, assassinato de mulheres, e outros tipos de violência previstos no código penal brasileiro,  que tem como vítimas àquelas, que em um universo predominantemente masculino, foram alcunhadas de “sexo frágil”.

Essas ações brutais, muitas delas praticadas com requintes de selvageria e irracionalismo, ocorrem em todas as regiões do Brasil, praticadas por homens e mulheres de todas as classes sociais, o que demonstra que a violência contra a mulher é uma questão cultural, que independe da condição intelectual ou social do indivíduo.

Nesse convívio de coação, constrangimentos, assédios e abusos, que ocorrem tanto no âmbito familiar como laboral, estão envolvidos empresários ricos e famosos, artistas de variadas vertentes, políticos, jogadores de futebol e até embaixadores, denunciados à justiça, por aquelas que corajosamente rompem o círculo do medo e vergonha.

O uso de violência física e moral contra a mulher é uma prática histórica, presente em grande parte das culturas ocidentais e orientais. Ser mulher, salvo as exceções, desde o florescer da civilização é sinônimo de submissão e incapacidade, sendo esses argumentos utilizados para que ocupem sempre posições inferiores na hierarquia social e profissional.

Esse status quo da mulher atravessa os séculos e sobrevive veladamente ou explicitamente na contemporaneidade, mesmo com a institucionalização dos direitos humanos e a militância de grupos a favor da igualdade de gênero, que lutam em diversas frentes contra a milenar discriminação e opressão masculina.

Na construção da sociedade brasileira essa realidade tem início desde o processo de colonização, já que o português trouxe com ele sua cultura europeia, secularmente associada à submissão feminina desde os tempos medievais. A esses costumes, somou-se os hábitos africanos trazidos pelos milhares de escravos aqui inseridos pelo processo escravocrata, bem como os costumes do nativo indígena.

Tal mosaico étnico acomodou-se ante o braço forte do dominador branco que implantou o patriarcado como sistema social, edificando um círculo fechado repleto de códigos e tabus que permanecem até os dias de hoje. Nesse contexto, a divisão de tarefas entre homens e mulheres, bem como a diferença de proventos ainda é uma realidade, que gradativamente vai sendo minada em suas bases.

Enfim, a sujeição da mulher ao homem, em seus variados aspectos, permanece ainda  em pleno III milênio, por mais que digamos que os tempos são outros. A força da tradição ainda habita as mentalidades bem mais do que supomos, e marcam os papéis que elas devem exercer na sociedade.

A Lei Maria da Penha, que este ano completa 13 anos de editada, não é  resultado de uma iniciativa da sociedade brasileira, e sim fruto de um litígio internacional, que evidenciou a negligência do Brasil no enfrentamento da violência contra as mulheres, e não inibiu, como se esperava, a rotina de agressões contra as mulheres, que continua encoberta no âmbito familiar por um manto de medo e ameaças de morte em caso de denúncia, o que acabam se concretizando ante a morosidade, e, algumas vezes, descaso da justiça.

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