O LEGADO CULTURAL DO CANGAÇO

Por Carlos Braz

Carlos Braz, 29 de Julho, 2019 - Atualizado em 29 de Julho, 2019

O LEGADO CULTURAL DO CANGAÇO

Por Carlos Braz

 

O período histórico compreendido entre 1889 e 1930, designado por alguns historiadores como a Primeira República, teve como  principal característica a política liberal oligárquica , com ênfase nas alianças entre o governo federal e as elites agrárias, representadas pelos cafeicultores e fazendeiros de gado leiteiro da região sudeste e pelos grandes  latifundiários, chefes políticos da região nordeste conhecidos como “coronéis”.

Donos da vida e da morte, os "coronéis", com o poder político nas mãos, exploravam a mão de obra sertaneja em uma região historicamente castigada pelo flagelo da seca e com um histórico de violência, fruto do processo de colonização, que dizimou os indígenas e violentou com a escravidão o negro africano. A miséria, o subdesenvolvimento e o autoritarismo das classes dominantes, sempre estiveram presentes nos  sertão   brasileiro, privando de cidadania a maioria dos viventes desses rincões.

É nesse contexto que floresce o banditismo e sua representação maior, o cangaceiro, que age menos como um revolucionário que pretende mudar o sistema político vigente, e mais como vítima das injustiças e desigualdades sociais.

 O cangaceiro é o valentão que não leva desaforo para casa, mestre no manejo da espingarda e da afiada peixeira. É também o capanga à serviço dos “coronéis” útil para os mais variados serviços, inclusive matar desafetos. É também o faminto sem esperança de dias melhores, os que tem suas terras tomadas à força. Desgarrados e autônomos formaram os primeiros bandos que adotaram o crime como meio de vida.

 Desde meados de 1871 já corria pelos sertões as histórias sobre Jesuíno Brilhante, considerado o precursor do cangaço, que assombrava as regiões da Paraíba e Rio Grande do Norte, assaltando os ricos para abastecer os pobres, segundo relatos, durante a grande seca que devastou todos os estados da região.

Outro chefe de bando afamado foi o Sinhô Pereira, cuja valentia e arruaças com os destacamentos policiais fizeram história, espalhada de boca em boca, em terras pernambucanas. Com o passar dos anos e o desejo de levar uma vida pacata, longe das correrias e tiroteios, o celerado se afasta da vida bandida e toma destino ignorado. 

É nesse contexto, em data incerta que gira em torno de 1918, que surge a figura lendária do rei do cangaço, obrigado a entrar na vida bandida após sofrer perseguições provenientes de uma rixa entre vizinhos. Virgulino Ferreira da Silva, pequeno agricultor e comerciante, substituiu Sinhô Pereira como líder de grupo e supera seus antecessores em ferocidade e astúcia.

Durante quase 20 anos o celerado desafiou a lei, e chamou a atenção do governo federal para os problemas da região nordeste e o conflito armado tornou-se objeto de estudo de cientistas sociais brasileiros e estrangeiros.

Com a morte de Virgulino em 28 de julho de 1938, na grota de Angicos, território sergipano, a história do cangaço terminou como combate armado. É aí que surge o ser mitológico, herói para uns e bandido para outros, construído no imaginário popular através das lendas, das cantorias, dos cordéis vendidos nas feiras, que se misturam com a utilização de elementos da vida cangaceira na literatura, na música, nas artes visuais como um todo, e, sobretudo nas manifestações culturais genuinamente regionais, que através dos festejos juninos se propagam por todo o país.

A saga  lampionica  passa então a ser explorada comercialmente, gerando um ciclo econômico que gera renda para milhares de pessoas através da indústria do turismo e do artesanato popular que abarrota os mercados  nordestinos com produtos que remetem àquela época de violências, praticadas tanto pelos facínoras, quanto pelas forças institucionais, alcunhada de “macacos”.

 O cangaço foi rico em expressões visuais. A figura do cangaceiro chamava a atenção pela profusão de cores e brilhos, presentes nos embornais nas joias e nas armas.

 Entre todos esses elementos, a meia lua e estrela é o que mais se destaca como um legitima herança cultural da saga sertaneja , ante sua força simbólica. O chapéu de aba virada com estrelas, esteticamente desenvolvido pelo bando de Lampião, tornou-se o símbolo maior da gente nordestina, que nos identifica de imediato.

O entendimento do pesquisador brasileiro Frederico Pernambucano de Melo a esse respeito é  preciso: “Como a caveira sobre tíbias, a conjunção foice-martelo, a suástica ou o crescente, pelo mesmo processo inefável, ainda que em ponto menor de abrangência espacial, aquela meia lua e estrela, a que Lampião chegou em 1936, depois de alinhavar o signo sobre a aba do chapéu, lograria atravessar toda a repressão, e mesmo a provação extrema da derrota militar do cangaço em torno de 1940, para sair ao largo da limitação histórica e se oferecer como símbolo da região. A marca do Nordeste. Concisa. Instantânea. Sem detalhes, como toda marca”.

Ainda na sua ótica Melo observa que “habitando um meio cinzento e pobre, o cangaceiro vestiu-se de cor e riqueza. Satisfez seu anseio de arte – aum tempo, de conforto místico – dando vazão aos motivos mais profundos do arcaico brasileiro. E viveu sem lei nem rei, em nossos dias, depois de varar cinco séculos de história. Foi o último a fazê-lo com orgulho. Com tanta cor. Com tanta festa. E com herança visual tão expressiva”. 

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