Lambe-sujos X caboclinhos: tradição que desafia o tempo

Por Carlos Braz

Carlos Braz, 30 de Setembro, 2019 - Atualizado em 30 de Setembro, 2019

 

LAMBE-SUJOS VERSUS CABOCLINHOS: UMA TRADIÇÃO QUE RESISTE AO TEMPO 

Por Carlos Braz 

Realizado no último fim de semana na cidade de Laranjeiras, o centenário e tradicional embate entre  Lambe-Sujos e Caboclinhos transformou as ruas da cidade em um grande teatro ao ar livre, onde a espontaneidade popular e o engajamento de toda população local mais uma vez se fez presente, confirmando a manifestação cultural como uma das mais tradicionais do Estado de Sergipe.

É a memória coletiva em ação, contribuindo efetivamente para a construção de um sentimento de pertencimento a um grupo social de passado comum, que compartilha memórias, o que explica a secularização do evento.

Considerada berço e capital da cultura popular de nosso estado, Laranjeiras está localizada a 20 km de Aracaju, no Vale do Rio Cotinguiba, zona onde se desenvolveu a monocultura da cana de açúcar, sustentada pelo trabalho escravo, o que explica a predominância de afrodescendentes em sua população. O cultivo da cana continua até os dias atuais como atividade econômica vital da região.

A cidade histórica tem ainda como peculiaridade a arquitetura colonial presente no centro histórico, bem como nos engenhos e igrejas localizadas na zona rural, o cenário perfeito para o desenvolvimento de uma performance centrada em épocas passadas.

Muito comum em nosso estado nos séculos anteriores, as formas de expressão genuinamente populares estão cada vez mais difíceis de encontrar, ocupando espaços apenas em eventos comemorativos de datas tradicionais ou festivais e feiras esporádicas.

Muito desse processo de desvalorização deve-se à modernidade e suas inovadoras tecnologias, que propagam modismos impostos pela indústria cultural, ocupando cada vez mais espaços na mídia, proporcionando o alheamento e desconhecimento da cultura local, em prol de uma “cultura” de massa globalizante, que atende principalmente a interesses econômicos.

Dessa forma, a festança laranjeirense assume papel preponderante como manifestação cultural, patrimônio intangível da gente sergipana e soberano como referência cultural formadora de identidades, um legado a ser preservado.

Sob o comando do Mestre Zé Rolinha, apelido do Sr. José Ronaldo de Meneses a folia está repleta de conteúdo, signos e representações que remetem à resistência do negro africano à escravidão.

Os caboclinhos se vestem como seus ancestrais nativos, com saiotes e cocares de penas coloridas, portam arcos, flechas e facões e tem o corpo pintado com tinta vermelha, sendo, sob a ótica militar, um grupo mais organizado, simbolizando a submissão do índio ao homem branco.

Já os lambe-sujos representam os negros fugidos dos engenhos, e usam o cabaú, subproduto da cana de açúcar, para escurecer a pele, sendo esse grupo o que mais consegue adeptos entre os moradores da cidade, o que evidencia a identificação racial dos participantes. Suas armas são foices de madeira que simbolizam a luta pela liberdade, e como indumentária usam calções e gorros vermelhos.

Tradicionalmente os lambe-sujos saem as ruas pedindo contribuições aos passantes, sob a ameaça de lambuzá-los com o cabaú. Tudo arrecadado é levado ao mocambo e as contribuições em dinheiro são usadas para comprar bebidas alcoólicas que serão consumidas durante todo o dia.

Também fazem parte do folguedo o rei, a rainha, o pai véio e a mãe Suzana, representando uma escrava negra que carrega na cabeça uma bacia repleta de utensílios domésticos. A algazarra se completa com uso de instrumentos musicais, como a cuíca, o reco-reco, tambores e pandeiros que acompanham os lambe-sujos em seus cânticos religiosos e de guerra, arrastando uma multidão pelas ruas da cidade.

Durante o enredo da festa a princesa dos caboclinhos é aprisionada, sendo o combate final pela sua libertação a conclusão da ópera popular. Historicamente, os lambe-sujos são sempre derrotados, representando dessa forma a construção da história, onde as lutas pela abolição da escravatura demandaram décadas de luta ante o poderio da elite latifundiária, possuidora de força política durante o regime imperial.

Oxalá o povo de Laranjeiras, principal artífice de uma manifestação repleta de particularidades, mantenha viva esta e outras tradições populares, que abordam suas relações com o passado e nos leva a refletir, sobre memória coletiva, valorização e preservação patrimonial pertencimento e sergipanidade.

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