Pelos caminhos da História: Cabo Anselmo, um sergipano à serviço da ditadura militar.

Carlos Braz, 14 de Otubro, 2019 - Atualizado em 15 de Otubro, 2019


PELOS CAMINHOS DA HISTÓRIA

CABO ANSELMO: UM SERGIPANO A SERVIÇO DA DITADURA MILITAR

 Por Calos Braz 

No dia 15 de janeiro de 1985 as ruas de todo o Brasil foram tomadas por multidões que em verdadeiro frenesi patriótico festejavam a eleição de Tancredo de Almeida Neves como presidente da República, derrotando no colégio eleitoral o candidato oficial do governo, Paulo Maluf, por 480 votos contra 180.

Encerrava-se um ciclo que durou vinte anos, durante os quais todo o tipo de violência foi usada pelo Exército Brasileiro no seu combate aos militantes de esquerda que optaram pela luta armada como forma de implantar no Brasil um regime comunista. Nos porões da ditadura não havia limite para as torturas à granel e assassinatos, que se tornaram atos corriqueiros ante a impunidade e indiferença dos chefes militares, sem exceção.

Com a redemocratização e a anistia, que não puniu nenhum militar envolvido na barbárie, abriu-se a tampa de um baú repleto de personagens dignos dos mais aterradores filmes de terror já exibidos. Os testemunhos oferecidos à comissão da verdade implantada anos atrás quebraram o silêncio, em busca da verdade.

De ambos os lados alguns se tornaram lendas, entre estes o sergipano José Anselmo dos Santos.

Natural de Itaporanga d’Ajuda, onde nasceu em 28/03/1942, é mais conhecido como cabo Anselmo, apesar de nunca ter recebido essa patente. Participou efetivamente de momentos importantes no contexto político de 1964, que redundaram na destituição do Presidente João Goulart, o Jango, e tomada do poder pelos militares.

Anselmo era o presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais em   março de 1964, quando ocorreu a histórica manifestação comemorando o aniversario da instituição, a época considerada ilegal. Sob sua liderança o clube dos marinheiros se  transformou em organização sindical.

Com a implantação da ditadura foi preso e condenado por motim e insubordinação, mas consegue escapar e  refugiar-se em Cuba, de onde retorna em meados do final do ano de 1970, ingressando nas fileiras dos movimentos considerados terroristas pelas forças de segurança. 

Preso mais uma vez, Anselmo concorda em atuar como “cachorro”, agente duplo infiltrado nas organizações de esquerda, subordinado ao temido delegado Sergio Fleury. Até hoje existem controvérsias sobre o momento de sua conversão.  Para alguns sobreviventes da guerrilha, ao voltar de Cuba o “cabo” já atuava como traidor.

O fato é que suas ações como delator provocaram a morte de vários militantes. O massacre da Granja São Bento em Recife onde seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)  foram assassinados é a mais relevante delas. Uma das vítimas foi sua companheira Soledad Barrett Viedma, grávida de 4 meses, o que adicionou  à sua reputação a fama de um indivíduo de frio, calculista e  insensível. 

Anselmo desapareceu em 1973, sendo declarado morto pelo regime militar. Surpreendentemente ressurgiu em 1984, e a partir daí concedeu várias entrevistas confirmando e justificando suas escolhas.

Requereu, sem sucesso, uma indenização à Comissão de Anistia, como vítima da ditadura. Em 2015, aos 74 anos, publicou o livro “Cabo Anselmo – Minha verdade”, onde narra fatos de sua vida e esclarece o porque das suas decisões.

Considera-se um traidor da pátria por ter quebrado seu juramento como militar.

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