A Peste da Bexiga em Sergipe - 1911 (por Antonio Samarone)

Carlos Braz, 31 de Março, 2020 - Atualizado em 31 de Março, 2020


Início do século XX

Entre as enfermidades epidêmicas, a varíola foi a que certamente mais dizimou índios, negros e brancos pobres nos três primeiros séculos da colonização sergipana.

Lycurgo Santos Filho, em sua conceituada História Geral da Medicina Brasileira me dá razão quando afirma: “A peste das bexigas matou mais gente no Brasil, nos séculos passados, do que todas as demais doenças reunidas.

A alta letalidade, a facilidade de transmissão e inexistência de tratamento foram fatores decisivos para o terror espalhado por essa Peste. A sequela desse medo permanece até o presente entre as classes populares em nosso Estado. Somente para evidenciar essa afirmativa, a bexiga, como era antigamente chamada à varíola, é entre nós um palavrão e bexiguento, em Sergipe, ainda é um xingamento.

O elevado número de óbitos, as cicatrizes indeléveis e deformantes dos sobreviventes, os isolamentos obrigatórios dos doentes pobres em lazaretos improvisados, onde maus tratos e privações eram freqüentemente denunciados.

Os sepultamentos em valas comuns, dado a proibição de enterros nos cemitérios cristãos, a precariedade e rusticidade das vacinações, e outras mazelas, justificam plenamente o terror espalhado pela doença.

O controle desse mal através da vacinação é conhecido mundialmente, pelo menos, desde o final do século XVIII, quando em 1º de julho de 1796, o médico rural inglês, Edward Jenner, fez o teste final de inoculação no pequeno Phipps, e ele não contraiu mais a doença.

Não estou levando em consideração os relatos da prática de vacinação anti varíola na China e na Índia desde a antiguidade mais remota. A inalação do pó de escaras de varíola pelos chineses e a inoculação do pus ressecado entre os indianos são fatos descritos em qualquer boa história da medicina.

Em Sergipe, entretanto, a irregularidade da vacinação perdurou até a primeira metade do século XX.

Em 02 de julho de 1911, quando Sergipe era governado pelo famoso médico Dr. Rodrigues Dórea, eclodiu uma grave epidemia de varíola em Laranjeiras.

O Dr. Antonio Militão de Bragança, Delegado de higiene do município, tomou as providencias devidas, procurou o Intendente e notificou de imediato ao Inspetor de Higiene, o Dr. Baptista Itajahy.

A morte avançou célere no município. Em pouco mais de nove meses, a epidemia teve fim em marco de 1912, foram vitimados pela varíola mais de 500 pessoas devidamente identificadas.

Entre os 160 bexiguentos isolados no lazareto do povoado Cedro, 75 faleceram. Entre os 227 pacientes do lazareto do Porto do Oiteiro, 93 faleceram. No Lazareto Bemvindo, 331 casos e 140 óbitos e no lazareto Santa Cruz, 28 internamentos e 9 óbitos.

Os lazaretos, originalmente locais para o recolhimento de morféticos (lepra), eram construções improvisadas, casas abandonadas, galpões, onde durante as epidemias eram acomodados os miseráveis, os que não tinham onde cair morto, para não morrerem de fome, que quase sempre acompanhavam as epidemias.

Para agravar a situação, queimavam-se freqüentemente grandes quantidades de enxofre e alcatrão dentro dos lazaretos, gerando-se uma fumaça negra e um cheiro insuportável, pois se acreditava que essa medida evitaria a contaminação do meio-ambiente.

Além da criação dos lazaretos, o Governo do Estado mandou para Laranjeiras dois operosos facultativos para auxiliarem o Dr. Bragança. Os Drs. José Moreira de Magalhães e Josaphat Brandão participaram ativamente do combate a essa epidemia em Laranjeiras.

O tratamento, se é que podemos usar esse termo, era feito a base do ethero/opiada, da câmara vermelha (tratamento de Finsen), para apressar a erupção das pústulas e do cremor de tártaro, para suavizar o sofrimento.

Entre as recomendações sanitárias, foram executadas a vacinação e revacinação jenneriana, o asseio diário das ruas, casas, quintais e latrinas, a desinfecção das residências onde foram registrados casos de varíola, e o mais impressionante, a desinfecção das pessoas que entrassem em contato com doentes.

Foram construídas estufas, para efetuarem a desinfecção dessas pessoas. Quanto aos sepultamentos, a orientação era afastá-los dos cemitérios comuns, e leva-os para valas distantes que nunca mais deveriam ser abertas.

A vacinação foi efetuada pelo método da escarificação e da picada. Houve uma grande polemica quanto ao uso desse método durante essa epidemia, pois se alegava que a ocorrência da neutralização da linfa jeneriana era muito elevada, superior a 20%, devido a ação dos desinfetantes empregados e do próprio sangue do vacinado, resultante da picada.

Já era de uso corrente no resto do País a vacinação pelo termo/cautério, considerado totalmente asséptico, mas não tinha chegado a Laranjeiras.

É importante lembrar que a vacinação jenneriana começou em Sergipe pelo método do braço a braço, uma vez que não tínhamos recursos para conservar a linfa por muito tempo. Quase sempre um escravo era mandado para a Bahia, era vacinado, e retornava com a pústula do braço resultante da vacinação aberta.

O responsável pela vacinação naquela localidade, geralmente um vereador, pegava aquele cristão e começava a circular de fazenda em fazenda, de engenho em engenho, de vila em vila, a procura de um corajoso para que a vacinação fosse transmitida.

Essa epidemia, que não foi a última, teve fim em marco de 1912, onde o governador já era o General José Siqueira de Menezes, e o Inspetor de Higiene, o equivalente ao atual Secretário da Saúde, o Dr. Pimentel Franco.

Antonio Samarone.

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