O amor em tempo de corona vírus (por Carlos Braz)

Carlos Braz, 15 de Abril, 2020 - Atualizado em 17 de Abril, 2020

 O AMOR EM TEMPO DE CORONA VÍRUS

Por Carlos Braz

A voz da médica ecoou como uma bomba em meus ouvidos. Ela está morta. O céu caiu como um teto sobre minha cabeça e tudo ficou escuro por um eterno segundo, no qual um flash back desfilou ante meus olhos fechados.

Encontrei-a em uma longa fila às portas do Museu do Louvre, vestida em verde-amarelo, como se estivesse ali somente para me encontrar e juntos convivermos por apenas quatro anos. O batom vermelho na minha boca muda, seus olhos grandes naquela pele negra emoldurada por cabelos naturalmente crespos marcaram aquele fim de tarde. O vestido colado ao corpo não escondia as gordurinhas das costas e o decote lateral deixava entrever parte dos seios. Amor à primeira vista sob o céu de Paris.

Dois meses depois estávamos morando juntos em um pequeno estúdio em Montmartre, onde minha deusa de ébano imprimia na tela paisagens impressionistas mostrando os cantos mais remotos de Paris, aqueles que não estavam nos cartões postais, mas que encantavam a todos justamente por isso.

Vez ou outra escolhia seus modelos nos arredores do bairro. As prostitutas nas janelas dos seus pontos, os boêmios que amanheciam nas ruas, os músicos que saiam ao amanhecer do Moulin Rouge, ou simplesmente as flores, as árvores ou um chafariz ao entardecer.

E assim passaram-se as quatro estações, uma fome uma agonia, a noite era ela, ela era o dia. Eu a tocar violão nos pontos turísticos da cidade, exaltando a garota de Ipanema e passando o chapéu para ganhar o pão de cada dia. Conseguia o suficiente para beber todas as noites uma boa garrafa de vinho, degustar meu queijo favorito acompanhado por um crepe de salmão magnífico, preparado na taberna em frente. No leito nupcial o jardim das delícias se entreabria à minhas frente, emanando promessas que seriam cumpridas religiosamente.

Desde então, não comprei mais roupas, não fiz regimes, não me formei como pretendia, e me achava completamente feliz. Bastava-me o amor que movia aquela mão fina e comprida que me acariciava  sem pudores, aquela pelve completamente depilada a roçar os pontos cardeais do meu corpo, aquela voz macia em meus ouvidos sussurrando palavras que me levavam à loucura em noites insones, onde sensibilidades guardadas a sete chaves quebravam as correntes, devagar, sem fazer barulho, se deliciando a cada gemido, a cada faísca, sentindo a sensação de liberdade, onde a morte , a dor e o adeus não faziam  parte do roteiro.

O corona vírus, que na ótica de minha Gioconda parecia uma novo planeta onde só existiam rosas e espinhos, levou-a em rápidos 10 dias.

 Saí do hospital tranquilamente. Não chamei a Deus, nem a santos, não clamei por ninguém. Por um minuto carreguei minha cruz, por um minuto desejei a minha vida de volta para fazer tudo outra vez.

As pernas levaram-me pela última vez onde outrora fora nosso éden. Atrás da vidraça um colibri triste me parecia estar chorando. O nó de lágrima já não coube na minha garganta.

A mesma lua redonda e brilhante que testemunhou nossa efêmera apoteose já invadira a nossa cama. As flores no criado mudo estavam murchas e sem perfume. Amanhã não estarei mais aqui, e o seu corpo inerte será pasto de vermes e podridão.

Nunca mais o furor dentro do peito, o alimento tragado das suas bocas, a alma voraz a lançar um grito que atravessava as paredes e se perdia na noite fria.

Declarei naquela hora que te amaria para sempre. Declarei ter conhecido a força do amor e que a ela me submeti voluntariamente. Declarei que teria forças para emergir do fundo do poço, e que sonharia com filhos que seriam nossos. Declarei que gostaria que fossem meus os versos que dizem: eu sei que vou te amar por toda minha vida, por toda minha vida eu vou te amar.

No cavalete,  sua última obra ainda inacabada: a rosa e os espinhos. Na mesa, um bilhete escrito no guardanapo dias atrás, em nossa última noite de amor, com a marca dos seus lábios e estas palavras: te amaria, mesmo que fosses um pássaro feio e de canto triste, um bêbado pobre e feliz, um rei de um reino se m bens, um historiador que não soubesse contar estórias, ou um simples admirador das estrelas.

 

 

 

 

 

    

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