Rede Globo: o bode expiatório da esquerda corrupta e da direita neofascista.

Carlos Braz, 22 de Maio, 2020 - Atualizado em 25 de Maio, 2020

 

 

REDE GLOBO: BODE EXPIATÓRIO DA ESQUERDA CORRUPTA E DA DIREITA FASCISTA. 

Por Carlos Braz 

Ao meu pai, jornalista José Eugênio de Jesus (1918-2017) 

Dia 1º de junho de 2020, comemoraremos mais uma vez o “Dia da Imprensa”, instituição que ao longo do tempo, mediante os avanços tecnológicos, assumiu novos formatos e adquiriu tal importância entre as nações democráticas que passou a ser denominada de 4º poder, pela sua capacidade inconteste de  influenciar a opinião pública através das informações e mensagens que veiculam ou não.

Os sistemas de comunicação hoje alcançam os mais remotos pontos do globo terrestre, o que lhes concede um poderio inigualável, capaz de alterar o rumo de setores tão diversos como a economia e a cultura, entre outros. Sua finalidade principal, regulada pelos órgãos institucionais, é emitir conteúdos para um público receptor, e fazê-lo dentro de códigos éticos e morais, que se alinhem com os princípios de igualdade inerentes às democracias. Contudo, a distância entre a teoria e a prática evidencia-se quando entra em jogo os interesses corporativos e ideológicos que levam à manipulação da notícia, que deveria ter sempre um caráter de neutralidade.

A história nos mostra que desde os primórdios do jornal impresso, mídia e política se completam. Ambas trabalham com um elemento que é fundamental: a credibilidade, que traz audiência e capacidade de formar opinião e consequentemente recursos financeiros. Para os políticos rende votos preciosos e mandatos sucessivos que os perpetuam em cargos públicos. Assim, se entrelaçam em seus interesses, trilhando muitas vezes caminhos tortuosos, onde a ética e o compromisso com a equidade nem sempre são prioridades. Essa práxis, que independe de ideologias, se tornou corriqueira.

A televisão, sem dúvida, é o braço corporativo das agências de informações que alcança o maior número de usuários ao mesmo tempo superando com facilidade o rádio, as revistas semanais e o jornal impresso. Contudo todos eles, trafegam em uma via de mão dupla. Exercem fundamental importância na construção de um mundo melhor através de matérias que evidenciam a importância da educação, da saúde, da cidadania, da ecologia e do jornalismo investigativo, que nas últimas décadas vem ocupando cada vez mais espaços.

 Por outro lado, também oferecem programas que apresentados nos horários considerados nobres por atraírem mais espectadores e consequentemente mais publicidade, incentivam novos padrões culturais que são assimilados facilmente por crianças, adolescentes e adultos através da repetição, e que muitas vezes vão de encontro aos valores arraigados no seio da sociedade brasileira.

No âmbito das relações entre o Estado e o cidadão interfere na igualdade em que se baseia o conceito de democracia, com sua prática de selecionar o que vai ser apresentado, .   

Esse modus operandi se fortalece após o golpe militar de 1889 que nos introduziu no regime republicano. Seu uso como arma política, foi plenamente efetivado pelos poderosos latifundiários da região sul e sudeste, bem como pelos coronéis nordestinos, que fundaram jornais com o intuito menos de informar e mais de defender seu poder político. Em 1922, o governo federal coloca em funcionamento a nossa primeira emissora de rádio, e logo a iniciativa privada assume a vanguarda na expansão da radiodifusão.

São os homens de pensamento e ação que alavancam a humanidade rumo ao progresso e ao desenvolvimento. Em se tratando de sistemas de comunicação no Brasil e o poder que deles emana, dois personagens extraordinários deixaram seus nomes gravados na história: Assis Chateaubriand e Roberto Marinho, cada um ao seu tempo e de formas distintas construíram impérios midiáticos e tornaram-se magnatas respeitados e temidos.

Em 1950 Assis Chateaubriand, proprietário de jornais e revistas, insere a televisão no país com a inauguração da TV Tupi, canal 3, em São Paulo, alicerçado em sua experiência à frente do empreendimento “Emissoras e Diários Associados”, cujo ápice perdurou até as primeiras décadas dos anos 60. Se destacou pelo pioneirismo e pelo uso de métodos nada ortodoxos para atingir seus objetivos.

Roberto Marinho optou pela sobriedade e acordos nos gabinetes, organização empresarial esmerada, com olhos bem abertos para o futuro e, sobretudo, muita cautela nos momentos decisivos da nossa história contemporânea. A Rede Globo continua até os dias atuais à frente dos concorrentes e mantem sua influência na sociedade brasileira.

A história da Rede Globo tem início com o jornal “O Globo” fundado em 29 de julho de 1925 por Irineu Marinho, que veio a falecer no dia 21 de agosto do mesmo ano, menos de um mês após funda-lo, vítima de um infarto fulminante em sua casa no Rio de Janeiro. Com seu desaparecimento aos 49 anos, e ante a imaturidade do seu filho Roberto Marinho, assumiu a direção do órgão o jornalista Eurycles de Matos.

Esse foi o primeiro passo que deu início à formação de um conglomerado que se tornaria líder absoluto do mercado da comunicação no Brasil. Em dezembro de 1944 é inaugurada a Rádio Globo e em julho de 1957, o presidente Juscelino Kubitschek deu sua aprovação ao pedido da Rádio Globo para a abertura de um canal de televisão. Em 30 de dezembro de 1957, o Conselho Nacional de Telecomunicações autorizou a cessão de um canal de frequência para funcionamento no Rio de Janeiro. A TV Globo, canal 4, que foi ao ar no dia 26 de abril de 1965.

Com sua entrada no ramo televisivo surge a primeira controvérsia, dentre as muitas que ocorrerão no decorrer do tempo: a associação com o grupo americano Time Life, que injetou milhões de dólares no empreendimento brasileiro permitindo sua modernização tecnológica e, consequentemente domínio popular. Denunciado como ilegal pelas leis brasileiras, o acordo foi posteriormente legalizado pelo autoridades competentes. 

O golpe militar de 1964 rendeu mais polêmicas em relação à rede. Assim como a grande maioria dos órgãos de imprensa da época, o grupo globo apoiou a derrubada do governo legítimo de João Goulart. Contudo, com derrocada democrática ante a ditadura militar, que perdurou por 20 anos, optou pela prudência, evitando o risco de confrontar um regime que não hesitava em sequestrar, matar e cassar mandatos e licenças de funcionamento. Já no regime democrático reconheceu seu posicionamento.

Com a redemocratização do Brasil em 1984 a mordaça da censura foi substituída pelo estado democrático de direito, que garantiu o direito à livre expressão de ideias e o pluripartidarismo. Todavia, o controle dos meios de comunicação continuou nas mãos das lideranças políticas, que persistiram com suas com suas práticas corporativas.

A Rede Globo se consolidou como a segunda maior corporação de informação do mundo capitalista, atrás apenas da ABC estadunidense. Campeã de audiência muitos pontos à frente dos rivais, permaneceu cortejada por todos que almejassem cargos públicos. Surgiu o mito de que para ser presidente do Brasil o postulante ao cargo tinha que passar pelo crivo de Roberto Marinho.

A chegada ao poder da esquerda socialista em 2004 com o Partido dos Trabalhadores capitaneado por Lula da Silva, ocasionou uma mudança radical nas relações entre o governo federal e a mídia platinada. O embate ideológico capitalismo x socialismo, livre das amarras dos anos de chumbo se intensificou cada vez mais.

Foi no âmbito do governo petista e seus aliados, com suas demandas sociais e o apoio dos sindicatos trabalhistas e do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que se inicia o processo de polarização ideológica. Nesse contexto, a Rede Globo representava o capitalismo selvagem para o qual só importa o lucro e seus interesses contrários à classe trabalhadora. Pela sua magnitude, foi escolhida como bode expiatório da problemática social brasileira. Restrito à militância de esquerda, o movimento difundiu bordões atacando seu alvo, e, paradoxalmente, usou de violência contra seus profissionais de imprensa, também trabalhadores que cumpriam suas obrigações laborais.

No momento em que um projeto de perpetuação no poder arquitetado por Lula e seus aliados bolivarianos estava em pleno andamento, discutido abertamente no Fórum de São Paulo, surgem as primeiras denúncias de corrupção e cooptação ilegal de parlamentares da oposição, episódio que ficou conhecido como o mensalão do PT, que passou a ser denunciado quase que diariamente mídia, o que acirrou ainda mais o embate.

Com a derrota da esquerda socialista nas eleições de 2018, assume o poder o ex-capitão do exército Jair Bolsonaro, com um discurso de moralização, combate a corrupção e valorização da família. Ao mesmo tempo declarava-se a favor do uso de armas pela população, elogiava torturadores, atacava as minorias étnicas e sociais, desprezava os princípios básicos dos direitos humanos, e atacava os poderes legislativo e judiciário.

Não tardou a colocar em prática seu projeto neofascista, atuando para transformar o Estado em rede protetora dos crimes cometidos pelos seus familiares, amigos e milicianos, promovendo seu aparelhamento tal e qual aconteceu no governo anterior. No campo da economia sua política ultraliberal propõe reformas dos direitos  trabalhistas, privatização de estatais e ocupação da floresta amazônica e terras indígenas pelo agronegócio.E completou seu circo dos horrores com o negacionismo e espírito piadista que chocou o mundo ao debochar da praga do coronavirús, e da dor dos milhares que perderam seus entes queridos.

Em seu visível desequilibro e inadequação ao cargo ocupado e sem argumentos para justificar tantos descalabros, o presidente não hesitou em atacar a imprensa, acusando-a de perseguição e ameaçando cassar a concessão da Rede Globo, mais uma vez escolhida como bode expiatório, e silenciou sobre a violência dos seus seguidores contra os jornalistas. Seus índices de aprovação estão em queda, na casa dos 40% e já somam mais de três dezenas os pedidos de sua deposição solicitado ao Congresso Nacional

A guerra ideológica agora é outra, fascismo x Estado Democrático de Direito. A história está repleta de tiranos cujo pensamento se aproximava ao do chefe do Estado Brasileiro. Eles levaram suas nações à desgraça, humilhação e ao isolamento internacional. Hitler na Alemanha nazista, Mussolini na Itália fascista, Stalin, Mao, e Fidel em seus gulags, fábricas de milhões de mortos. A ditadura brasileira e suas irmãs sul-americanas fazem parte de um passado recente que permanece vivo na memória de muitos.  A força dos fatos nos faz temer pelo futuro.

Os questionamentos sobre o papel da mídia corporativa são válidos, e cabe à justiça vigiar e punir os que não cumprem a regra do jogo. É certo que sem ela estaríamos mais próximo da barbárie e do poço sem fundo do autoritarismo.

Então, salve o dia 1 de junho, dia da imprensa.

 

 

 

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