Pelos caminhos da história : um grito contra o racismo no futebol sergipano em 1949

Carlos Braz, 06 de Junho, 2020 - Atualizado em 08 de Junho, 2020

 

 

Um grito contra o racismo no futebol sergipano em 1949  

Por Carlos Braz 

Chaga incrustrada no DNA da sociedade brasileira, o racismo, o preconceito e a intolerância racial nos acompanham desde a chegada do colonizador europeu em meados de 1530, quando se inicia o esforço português para a efetiva posse e exploração dos recursos minerais e vegetais da nova colônia no Novo Mundo.

A visão etnocêntrica impregnada no conquistador pregava que aqueles que não conhecessem a escrita seriam considerados bárbaros, civilizações inferiores que com respaldo da poderosa igreja católica poderiam ser escravizadas, e essa condição só poderia ser modificada através do batismo.

Dessa forma os nativos indígenas e posteriormente os negros africanos aqui escravizados foram tratados como corpos sem alma, igualando-se aos animais. No decorrer da História ambas as etnias resistiram da forma que puderam para preservar suas culturas e descendências. O indígena dono da terra viu sua população ser dizimada e hoje sobrevivem em terras demarcadas onde são constantes os conflitos devido a ação dos grileiros. Já os africanos, após séculos de escravidão resistiram de diversas formas à aculturação e contribuíram de forma efetiva para a construção de uma cultura afro-brasileira.

Contudo, os afrodescendentes enfrentaram desde a abolição aos dias atuais uma gama de preconceitos em todas as esferas do tecido social brasileiro. À ausência de cidadania somou-se os paradigmas negativos e os rótulos facilmente assimilados: a   má índole, a incapacidade para o trabalho intelectual, o determinismo biológico que levava à tendência de afinidades com folguedos bárbaros oriundos da sua origem étnica, o continente africano.

  No âmbito das atividades esportivas, e em especial do futebol, os negros também encontraram barreiras poderosas que só foram derrubadas através da força do talento individual. O nobre esporte bretão, assim se designava o futebol em seus primórdios, aqui chegou em meados de 1895, introduzido pelos ingleses, responsáveis por vários empreendimentos comerciais em diversas regiões do Brasil. Restrito à elite branca o football logo foi ganhando simpatizantes em todas as classes sociais. Surgem assim os primeiros clubes brasileiros dedicados ao esporte.

Nesse contexto não havia espaço para o negro. Mas a criatividade e superioridade técnica se impôs, derrubando tabus. Se não tinha bola de couro, improvisaram com meias de pano e bexigas. Os terrenos baldios e areais serviram como palcos onde aprimoraram o domínio da esfera, nem sempre redonda, e os drible inesperado, tão característico dos nossos maiores craques. Na falta de uniformes usaram a própria pele e sacos de estopa recolhidos nas redondezas. Desses pés descalços surgiram nossos talentos, inclusive o maior deles, o rei Pelé.

O Fluminense Football Clube, da cidade do Rio de Janeiro, foi o primeiro grande clube brasileiro a admitir um negro em sua equipe de futebol. Diz a lenda que o atleta foi obrigado a usar pó de arroz para camuflar sua verdadeira tez. Os tricolores da Laranjeiras são até hoje alcunhados de “pó de arroz.

Em Sergipe as primeiras tentativas de implantar o futebol surgiram em setembro de 1907, através da iniciativa do Major do 26º Batalhão de Infantaria Crispim Ferreira, que formou equipes com os militares do destacamento e praticava o jogo na várzea em frente ao quartel. Posteriormente, Mario Lins de Carvalho junto com o amigo Carlos Baptista Bittencourt fundaram o "Sport Club Lux", cujo nome foi logo mudado para "Club de Football Sergipano". Mas o novo esporte se estabeleceu em definitivo a partir dos clubes de remo, que disputavam animadas regatas no estuário do Rio Sergipe. O remo era um esporte de elite e os “de cor” não eram admitidos.

Assim surgem as mais antigas agremiações do futebol sergipano, o Clube Sportivo Sergipe e o Cotinguiba Futebol Clube. O poder do talento também aqui falou mais alto e os negros aos poucos foram ganhando espaços nestes e em outros clubes que surgiram a seguir, chegando até à condição de ídolos. Mas o preconceito não deixou de existir, dentro e fora das quatro linhas.

O caso que aqui transcrevo ocorreu no ano de 1949 e foi registrado no Sergipe Jornal datado de 28/04/1949.

É o grito de protesto de um negro, um dos mais renomados cronista esportivo do rádio sergipano, o comentarista José Eugênio de Jesus (1918-2017), ante a atitude discriminatória dos dirigentes do Clube Sportivo Sergipe, diante a apresentação de propostas de alguns torcedores do grêmio rubro que desejavam adentrar ao seu quadro social. As inscrições não foram aceitas por se tratar de cidadãos negros, o que motivou o desabafo público do jornalista. A cópia original do seu artigo encontra-se no Memorial José Eugenio de Jesus, instalado no prédio da Associação Sergipana de Imprensa. O texto abaixo foi alterado pontualmente de acordo com as novas regras ortográficas. 

Preconceito Racial 

“Não vem correspondendo a expectativa as últimas decisões tomadas pelo Conselho Fiscal do Clube Esportivo Sergipe, com referência à parte social.

Dizemos isso, aliás, imbuídos de razões que chegam a nos sobrar.

Acontece que os próprios diretores do clube “ mais querido da cidade” , o clube que se diz popular encetaram há meses uma campanha no sentido de ampliar seu quadro social incumbindo por isso muitos dos seus associados de conseguirem entre colegas e amigos, pessoas que pudessem ingressar no clube contribuindo deste modo para o seu sempre crescente progresso.

Faz precisamente um mês que apresentávamos nada menos de três pessoas, para serem admitidas como sócios do grêmio rubro, pessoas estas que de modo algum viriam manchar ou diminuir o prestígio de que goza e sempre gozou o Clube Esportivo Sergipe. Disto temos certeza. Entretanto, por se tratar de pessoas de cor mestiça, os conselheiros rubros num elegantíssimo gesto de “preconceito racial”, acharam por bem encostar as referidas propostas, considerando-as como papéis de mínima importância.

Eles, os Conselheiros rubros não deviam proceder dessa maneira.

Deviam sim, procurar informações concretas sobre as pessoas propostas, para depois então tomarem suas decisões, e não julgar as propostas como o vêm fazendo, de modo injusto e que não justifica absolutamente o título que possui aquele clube -O MAIS POPULAR DA CIDADE.

A nosso ver, quando um amigo que faz parte de uma sociedade propõe um outro amigo para sócio daquela sociedade, é ´porque a pessoa convidada é de sua inteira confiança, e, certamente o seu ingresso não vai de encontro às normas sociais ou mesmo aos princípios disciplinares da sociedade.

Que os conselheiros rubros procurem julgar com mais acerto e com maior interesse para o próprio Clube Esportivo Sergipe, não esquecendo que Aracaju ainda é um pedaço do Brasil e que cada brasileiro tem dentro de si um índio, um negro e um português”. 

Nos dias de hoje fatos como o relatado acima acontecem rotineiramente em todos os níveis sociais. O mito da democracia racial, desenvolvido por Gilberto Freyre a partir do clássico Casa Grande & Senzala, publicado em 1933, criou a ilusão de que no Brasil não havia conflitos raciais, que todos conviviam em harmonia, sendo a mestiçagem uma confirmação de integração social.

Na ótica Freyriana, cria da aristocracia latifundiária pernambucana, o país oferecia oportunidades iguais para todos no processo de desenvolvimento econômico, o que na verdade nunca ocorreu.

Apesar da incontestável discriminação racial existente no Brasil, o mito da democracia racial foi aceito sem contestações durante muitos anos, inclusive por muitos afrodescendentes. Tinha imensa serventia para confundir os incautos e os que mal conseguiam esconder seu preconceito.

A história nos mostra que o racismo continua firme e forte em nosso cotidiano, mesmo diante das novas leis promulgadas que considera sua prática como crime inafiançável. A luta para extingui-lo continua, e por enquanto sem perspectiva de que haja o entendimento de que a cor da pele não diferencia um ser humano do outro.

 

 

 

 

 

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