POR DENTRO DO AXÉ: A TRADIÇÃO DE NOSSA SRA. DA BOA MORTE DAS NEGRAS DE CACHOEIRA

Por Carlos Braz

Carlos Braz, 14 de Julho, 2020 - Atualizado em 14 de Julho, 2020


A diáspora africana ocorrida entre os séculos XV e XIX foi o mais significativo movimento migratório da história da humanidade. Seus efeitos negativos podem ser observados até os dias atuais em ambos os lados do Oceano Atlântico, a principal rota do tráfico negreiro, que transportou para o Novo Mundo milhões de africanos capturados e escravizados impiedosamente por aqueles que se consideravam donos do conhecimento científico e o primor da criação divina.

O escravismo no Brasil perdurou de meados de 1530 até 13 de maio de 1888 e suas consequências permanecem latentes nos dias de hoje: o preconceito de cor e o abismo social entre branco e para negro na sociedade brasileira. O negro aqui escravizado jamais se conformou com essa condição, e usou várias estratégias para sobreviver e preservar suas raízes. O culto aos orixás é a parte mais visível da nossa herança africana e o sincretismo religioso possibilitou, em toda sua amplitude, uma ressignificação de conceitos e práticas, fatores preponderantes para a sua sobrevivência e crescimento.

Vale ressaltar que essa realidade não mascara a intolerância ainda presente no tecido social, manifestada muitas vezes com atos de violência, mesmo com a liberdade religiosa garantida constitucionalmente. As trocas culturais entre as etnias, européia e africana, cimentadas pelo passar do tempo, foram assimiladas naturalmente na construção do mosaico cultural brasileiro, e hoje, algumas comemorações do povo de santo se tornaram tradicionais, evoluindo para grandes eventos ecumênicos.

O louvor à morte e ascensão da Santíssima Virgem Maria, realizado anualmente no município baiano de Cachoeira, é uma manifestação cultural centenária, promovida com esplendor e glória pela Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, composta apenas por mulheres negras. Ocorre, historicamente, no dia 15 de agosto, com a pompa, riqueza e rigor que a efeméride merece.

Foram os gêges em seu deslocamento da capital para interior que levaram a devoção para Cachoeira, logo reconhecida por outras etnias africanas existentes na região. Como rito associado ao candomblé, a irmandade possui segredos restritos aos seus membros e uma estrutura administrativa rígida. Sua história é repleta de mitos que são passados geração à geração. Reza a lenda que a devoção à boa morte tem origem em uma promessa dos escravos que almejavam o fim do cativeiro ou uma morte sem sofrimentos. Com a abolição festejam com o culto à santa a graça alcançada.

Também inclusa nessa categoria é a narrativa sobre a Senhora Julieta do Nascimento, já falecida, mais conhecida com Santinha, Juíza Perpétua e liderança não só do grupo de senhoras, mas de toda a comunidade local, majoritariamente formada por descendentes de escravos Segundo narram os ancestrais locais, ela só saiu de casa uma vez na vida, aos seis anos de idade, em viagem à Salvador no colo da mãe. O restante dos seus dias permaneceu no interior do lar cuidando dos seus interesses religiosos e atuando como guardiã dos ricos colares, pulseiras e brincos de ouro e prata que são usados pela vetustas irmãs durante o cortejo fúnebre.

A simbologia e o universo do candomblé se fazem presentes em vários momentos do ritual adotado pelas religiosas para representar a passagem da mãe de Jesus do Aiyê, o mundo terreno, ao Orum, o mundo espiritual, confirmando o sincretismo religioso como característica maior da consagração.

Os festejos tem início de véspera, quando ao fim da tarde acontece uma missa em memória das irmãs já morreram, na capela de Nossa Sra. d’Ajuda. Em seguida a imagem da Virgem Santa falecida segue em procissão até a igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, onde acontece durante toda noite, a vigília santificada com a presença de todas matronas em seus trajes específico para a ocasião. Também é regra servir às irmãs a ceia branca, composta por arroz, peixe e pão. Não é permitido o uso de pimenta e dendê nos alimentos colocados à mesa.

No segundo dia ocorre a missa de corpo presente e a procissão do enterro, com cânticos e orações em ioruba, tendo à frente as irmãs portando velas, já que se trata de um cortejo noturno, que pedem a interseção da santa, um momento que exprime todo o axé presente na solenidade e a fé inabalável dos centenas de devotos que a acompanham.

O terceiro e último dia de festividades inicia-se com uma alvorada, seguida pela missa da assunção na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Às 11 horas acontece mais uma procissão, agora em homenagem a Nossa Senhora da Glória, o novo título da Virgem Santa, seguida de um almoço na sede da irmandade oferecido às pessoas da comunidade e convidados, onde as confrades demonstram sua alegria pela subida aos céus da imaculada e o final do cativeiro do povo negro.

Todos as indumentárias utilizadas pelas irmãs durante o período festivo tem um significado simbólico que remete aos primórdios da criação da instituição, desde o preto do luto ao branco imaculado tradicional, ou o colorido dos orixás presentes na confecção dos adereços. São saias rodadas, colares de contas, xales de pano preto forrados de roxo e torsos do mais puro linho, a emoldurar essas autenticas rainhas negras.

Na contemporaneidade a “festa” cachoeirense ganhou uma nova dimensão, sendo considerada patrimônio cultural e elemento importante para auto reconhecimento étnico, não só na cidade de Cachoeira. Ela possibilita um novo olhar sobre a cultura afro-brasileira como um todo, especialmente em seu aspecto mais controvertido: a religião. É uma referência para pensar toda a história de um grupo social de inquestionável importância para a construção sociocultural do Brasil.

A tradição secularizada mantém vivo seu caráter sagrado/profano, quando une em um mesmo templo a comunidade negra e seu culto aos deuses africanos, aos católicos com suas imagens, cânticos sagrados e liturgias, enquanto nas ruas repletas de barracas servem-se bebidas alcoólicas, ouve-se samba de roda, e joga-se capoeira em meio à fartura de comidas típicas.

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