A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER ( Por Carlos Braz )

Carlos Braz, 31 de Julho, 2020 - Atualizado em 31 de Julho, 2020


A História é uma ciência em permanente construção e isso faz dela um manancial eterno de estudos, pesquisas e interrogações. A vida do historiador, portanto, é um percurso de lacunas que muitas vezes não são preenchidas ante as dificuldades de acesso às fontes confiáveis.

O caminho que a História percorreu e percorrerá é longo. São diversas as formas de concebe-la: a História de uma nação, de um personagem, da economia, do futebol e tantas outras que formam uma lista interminável. Muitos acontecimentos permanecerão ocultos, ou serão do conhecimento apenas de pequenos grupos sociais. Outros encontrarão quem as aborde, quebrando tabus construídos dentro do cânones da velha História, aquela para a qual só interessava os grandes homens e seus feitos, efemérides, as guerras, seus vencedores e perdedores, causas e consequência.

Dessa história estavam não faziam parte minorias étnicas, os desvalidos, e muitas outras categorias, entre elas as mulheres. A maioria das correntes historiográficas as ignoraram, mesmo na contemporaneidade, quando os recursos midiáticos derrubaram a fronteira da distância e do desconhecimento. A participação da mulher na II Guerra Mundial é a prova inconteste dessa tendência.

Não foram poucas aquelas que enfrentaram o horror daquele que é considerado o maior conflito bélico da modernidade. A Rússia se destaca entre os países que utilizaram o maior número de mulheres em suas forças armadas, presentes não apenas nas funções que naturalmente a ela são associadas: enfermeiras, cozinheiras, telefonistas e outras.

Adentraram no conflito ocupando espaços naturalmente ocupados por homens. Aprenderam a matar, a conviver com o preconceito, o assédio e a violência sexual a que se achavam expostas, entre tantas outras dificuldades, exercendo seus encargos com responsabilidade, disciplina e ardor patriótico, tanto no front quanto na retaguarda, contribuindo efetivamente para a vitória final ante as tropas do Eixo, formadas por italianos, alemães e Japoneses.

Contudo, concluído o embate, um manto do silencio foi lançado sobre essas combatentes que quebraram paradigmas sobre o universo preponderantemente masculino da caserna. Voltaram para seus lares com a alma destroçada, as sequelas físicas e psicológicas a permear seus dias, vidas e relações pessoais a serem reconstruídas. Tornaram-se silenciosas, e poucas ousavam falar com estranhos sobre a experiência nos campo de batalha.

A jornalista russa Svetlana Alecsiévitch descerrou as cortinas que encobriam os dramas dessas valorosas mulheres no seu livro “A guerra não tem rosto de mulher”, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2015, que direciona um facho de luz sobre a vivencia das quase um milhão de militares do sexo feminino que serviram ao exército russo. Segundo a autora, para concretizar seu projeto foi necessário superar inúmeras barreiras institucionais e pessoais, no âmbito das veteranas de guerra e suas famílias.

Sem floreios literários, oferece ao público leitor é um relato supreendentemente carregado de uma carga emocional que esteve represada por muitos anos, que as impedia as entrevistadas de abordar o tema publicamente, o que demandou paciência, sensibilidade e confiança entre as partes.

O resultado é um daqueles livros inesquecíveis, que quando começamos a ler vamos até o final em um só fôlego. É a guerra sob a perspectiva feminina, onde as narrativas estão repletas de uma angustia quase palpável, revolvendo memórias que evocam o frio, a fome e a sombra cotidiana da morte. A participação feminina no conflito ocorreu em todas as nações envolvidas, porém, a dimensão alcançada no exército soviético, relatada pelas sobreviventes, superou os limites do imaginário.Entre as voluntárias brasileiras que partiram para a Europa e participaram ativamente na retaguarda como enfermeiras, encontramos três sergipanas, igualmente heroínas, e também esquecidas pelos nossos historiadores. Isabel Novais Feitosa, natural de Propriá. Iniciou seus estudos de enfermagem no Hospital de Cirurgia em Aracaju. Assim que se anunciou a entrada do Brasil na guerra ao lado dos aliados, enviou uma carta para a Cruz Vermelha Internacional em 26 de dezembro de 1941 oferecendo-se, e aceita, para servir como enfermeira voluntária nos hospitais de campanha.

Joana Simões Araújo nasceu em Riachão do Dantas. Estudou enfermagem em São Paulo. Retornando a Sergipe alistou-se como voluntária, sendo incorporada ao Exército Brasileiro.

Lenalda Lima Campos, natural de Capela, em 1940 trabalhava no Departamento de Saúde do Estado. Segundo familiares, voluntariou-se após os torpedeamento de navios no litoral sergipano. Fez treinamento como enfermeira do ar transportando feridos da Itália para o Brasil.

Com a vitória aliada nossas conterrâneas retornaram ao Brasil, onde empreenderam esforços em prol dos direitos de serem reincorporadas, assim como tantas outras, ao Exército Brasileiro, promovidas no âmbito da hierarquia militar, voltando a trabalhar nos hospitais da corporação, o que conseguiram depois de muitos entraves.

 

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