Porque a falta de profissionalização afeta o Brasil

Carlos Eloy, 23 de Fevereiro, 2020 - Atualizado em 23 de Fevereiro, 2020


Criados no Brasil para regulamentar as profissões, os conselhos profissionais – ou órgãos de classe – são a última instância para garantir que uma pessoa, ao necessitar de um serviço ou produto, não seja atendida por um amador. No passado, antes da criação dos conselhos era comum a existência do “profissional prático” — alguém que não possuía, nem de longe, o conhecimento técnico dos profissionais da atualidade.

No ramo da odontologia, por exemplo, houve no passado a figura do ‘dentista prático’. Em razão de ele não possuir uma qualificação apropriada, por vezes ele arrancava o dente de um paciente, quando não conseguia tratar de casos mais complexos; algo impensável hoje em dia.

Embora tal fato pareça ter ocorrido na idade média, isso aconteceu no Brasil até os anos de 1960. Utilizamos o exemplo da odontologia, mas fatos semelhantes aconteciam também em outras profissões.

No campo da Administração, mesmo após a criação das primeiras escolas de formação no Brasil (faculdades, universidades e cursos técnicos), ainda assim, nada garantia que na prática o mercado absorvesse profissionais qualificados, em detrimento de “práticos” que trabalham por tentativa e erro. Por essas e outras, o poder público instituiu os conselhos profissionais para aprimorar a organização social, melhorar a competitividade do Brasil — em relação a outros países do mundo -— e o mais importante: manter a segurança da população brasileira.

Atualmente, sequer imaginamos ser atendidos por profissionais de áreas como medicina, odontologia e engenharia, sem a devida qualificação técnica, propiciada por um curso superior no segmento e experiência na mesma área de formação. Na Administração não é diferente.

Sem a preparação adequada – que é resultante de cursos focados nas áreas da Administração, anos de estudo, prática e dedicação — haverá inequivocamente prejuízos econômicos incalculáveis. Aliás, esse talvez seja o principal motivo em razão do qual o Brasil não tenha deslanchado, ainda, como potência mundial, em diferentes ramos.

Resultado

Pesquisas de instituições como o Sebrae mostram, com frequência, a quantidade de empresas que são abertas todos os anos no Brasil e que abrem falência, pouco tempo após sua abertura. Isso ocorre pela ausência de conhecimento e experiência daqueles que decidem empreender, sem possuir o devido preparo técnico e a experiência profissional que a Administração proporciona.

Nos últimos anos, o Sistema CFA/CRAs não tem medido esforços para mostrar à sociedade brasileira a importância da Administração, não apenas do ponto de vista profissional, mas também da necessidade de valorizar a educação: por meio de cursos de graduação (bacharelado e tecnológico), técnicos (de nível médio), pós-graduações (Strictu Sensu — mestrado e doutorado) e Lato Sensu (especializações e MBAs). Estimulamos a produção de conhecimento e o autodesenvolvimento contínuo, não apenas dos nossos profissionais, mas de toda a sociedade.

Aqueles que já são administradores ou tecnólogos podem continuar seus estudos e aperfeiçoamentos, por meio de pós-graduações (Lato Sensu e Strictu Senso) e cursos diversos, tais como os que são oferecidos pelo Sistema CFA/CRAs. Já os técnicos são igualmente estimulados a ampliarem seu campo de estudo e atuação, por meio de cursos superiores e qualificações focadas na área de atuação.

Em comum, todos os profissionais registrados no Sistema são estimulados a colocar em prática todas as técnicas que aprenderam ao longo de seus cursos de formação e também na prática profissional. São, ainda, encorajados a desenvolver conhecimento, com a devida comprovação de sua eficácia e eficiência. É, portanto, a disseminação e troca de experiências, em prol do segmento.

Há muitos graduados, nas áreas da Administração, que por vezes reclamam dos conselhos (federal e regional), apenas em razão de requerer o pagamento da anuidade. No entanto, nos perguntemos se por acaso tal valor fosse gratuito, esses mesmos reclamantes não lutariam para obter o registro.

Amor à profissão

O registro profissional, nas diferentes categorias de profissionais de Administração, nos CRAs, não é para qualquer um. É, apenas, para aqueles que de fato amam e se dedicam a uma causa: à sua profissão, ao seu ganho de vida.

O registro é para aqueles que possuem coragem o suficiente para assumir-se como administrador. Sem o registro nos CRAs, um bacharel em Administração não é administrador, semelhante ao que acontece com um bacharel em Direito que não possui registro na OAB.

Neste caso, o registro é mais do que trabalhar dentro da legalidade, uma vez que tal atributo é amparado pela Lei 4.769, de 1965. É, acima de tudo, a certeza de que a empresa contrata um profissional cujo título (diploma foi conferido) junto às instituições de ensino superior e uma chancela, dada por uma comunidade de profissionais, atestando que o novo administrador possui formação e obrigações técnicas, éticas e jurídicas, caso não opere dentro das normas estabelecidas pela profissão.

Atualmente, o Sistema CFA/CRAs investe de forma contínua e inteligente na fiscalização e na aplicação da Lei que nos confere a legitimidade de atuar como profissionais do segmento. Utilizamos as novas tecnologias (em especial o Big Data e convênio com instituições públicas e privadas) para mapear assertivamente, dentro dos bancos de dados existentes, aqueles lugares e quem há de fato profissionais atuando indevidamente em atividades da nossa profissão.

Fizemos parcerias estratégicas com órgãos do poder público para descobrir e mapear onde estão os profissionais que atuam na ilegalidade. Descobertos, inicialmente o notificamos do erro e damos a chance de regularização, depois disso acionamos o poder público para fazer cumprir a lei.

Quem emprega um profissional não registrado age ilegalmente. E caso tal profissional peque por questões relativas ao exercício da profissão, o empregador pode ser duplamente responsabilizado: primeiro, por não cumprir a lei federal que disciplina o exercício da profissão, e segundo por negligência, ao assumir o risco de contratar alguém inabilitado para a função.

Portanto, sejamos profissionais. Aos bacharéis em administração, que atuam em áreas de gestão, registrem-se nos CRAs. Aos contratantes, respeitem as leis brasileiras e os seus consumidores.

 Por Mauro Kreuz – administrador e presidente do CFA 

O que você está buscando?