O último segundo

Por Márcio Monteiro

Marcio Monteiro, 04 de Janeiro, 2020 - Atualizado em 04 de Janeiro, 2020

Era um domingo preguiçoso, mas o compromisso de ir até o campus da Universidade Federal de Sergipe para cumprir a programação de provas presenciais do curso de Administração Pública fez me pular da cama logo cedo. Tomei um banho morno, mais para melhorar o astral do que propriamente para cumprir um ritual de higiene. Cheguei cedo e como de hábito, dei uma repassada no material da apostila, dirigindo-me em seguida para a Didática I, até a sala indicada no totem em frente ao prédio para a realização da minha primeira prova do dia.

A monitora não demorou em rasgar o envelope com as provas e de pronto as distribuiu. Tratava se de prova objetiva e mesmo tendo uma ou outra dúvida aqui e ali, respondi a todas as questões em pouco mais de meia hora. Não havia até então me dado conta de que ainda restaria quase 2 horas à espera da próxima avaliação sobre disciplina que não exigiria releitura do caderno de estudos.

Resolvi ir até o estacionamento, entrei no carro, travei as portas e deixei as janelas dianteiras com uma fresta de abertura no vidro para manter o ar circulando no interior do veículo. Programei o temporizador do celular para tirar um cochilo de 40 minutos. Relaxei e apaguei por pouco tempo! Acordei meia hora depois com uma sensação muito estranha. Acho que influenciado pelo impacto da notícia comentada no rádio do carro naquele mesmo dia, sobre o trágico acidente que vitimou o então candidato à presidência da República, Eduardo Campos e também o ex-deputado sergipano Pedrinho Valadares, ocorrido na cidade de Santos (SP).

Acordei com a sensação de ter estar com eles naquele voo, naquela mesma situação extrema e vivenciando o último segundo de nossas vidas. O mais incrível é que percebi nessa fração temporal de existência que me restava e antecedia o vazio, flashes de imagens simultâneas entre acontecimentos gravados na memória, do passado e do presente, fruto do estresse e pressão exercida pelo fim iminente que nos aguardava logo à frente.

Naquele instante a sensação era de que tudo estava adrenalisado, que só existia espaço para os neurônios trabalharem para realizar um balanço geral de toda nossa vida pregressa naquela ínfima fração de tempo. Vi na verdade, as melhores lembranças do passado trazidas de volta ao presente naquele átimo de tempo, e o mais curioso é que não senti nenhuma apreensão de aguardar passivo o inevitável desfecho, muito menos preocupar-me com o que viria depois do desastre. O que senti em seguida foi a sensação de agonia de ter que deixar para trás familiares e amigos, antes de entrar no vazio!

Apesar de não nutrir simpatia pelo candidato que perdeu a vida em um evento tão trágico, no ápice de sua carreira política, a morte de Eduardo Campos me fez sentir e refletir, durante um breve cochilo, sobre o que realmente interessa e tem verdadeiro significado em nossa vida. Se as pessoas que dão significado à nossa vida estão presentes, nós nos sentimos vivos e encontramos razão para viver. Mesmo tendo o natural instinto de sobrevivência, acredito que esse condicionamento se deva mais pela necessidade de manter sempre junto de nós, pessoas que são as nossas referências, muito mais do que propriamente por uma necessidade fisiológica instintiva de luta pela sobrevivência.

A reflexão que fazemos diante de qualquer situação extrema, é a sensação de angústia de deixar para traz aqueles entes mais próximos, que compartilharam a nossa existência terrena. Essa sim é a única preocupação relevante no momento crucial de nossa partida para outra dimensão desconhecida. Viver cada momento como se fosse o último numa vida sobre a qual não temos controle, é um pensamento que só funciona em livro de autoajuda, chegando até ser irônico.

Refletir sobre o fato de estamos na iminência de viver o último segundo de vida durante um sonho, fez me acreditar que os momentos mais importantes de nossas vidas, acompanham-nos como se fosse um grande tesouro secreto guardado em nossa memória e que reativamos quando nos sentimos ameaçados, como se fosse uma força invisível que nos move e dá sentido e significância à nossa existência.

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