Verdades que afloraram da pandemia

Por Márcio Monteiro

Marcio Monteiro, 27 de Abril, 2020 - Atualizado em 27 de Abril, 2020

Sei que está ficando chato falar sobre pandemia, mas me sinto na obrigação de voltar ao tema a partir do comentário da atriz Thaís Araújo, em matéria publicada na Folha de São Paulo: “Basta um peteleco para o seu castelo de cartas cair”, ao referir-se às angústias e aprendizados da quarentena imposta pela Covid-19. A frase ilustra bem o sentimento de impotência que nos aflige e expressa a nossa fragilidade diante de uma molécula invisível.

Em razão da pandemia o mundo está mudando e irá mudar muito mais. Temos muitas perguntas sem respostas, e algumas respostas só serão dadas após anos de pesquisas, observação e intenso trabalho científico. Teremos que nos acostumar a lidar com o temor de um contágio quase que inevitável, e mesmo que tenhamos todos os cuidados, não temos como evitar sermos alcançados por uma doença transmitida da mesma forma que uma simples gripe, num momento de baixa imunidade do organismo ou de relaxamento com as medidas preventivas.

Por outro lado, o fato de alguém ter sido diagnosticado como portador da Covid-19 não significa ter recebido uma sentença de morte, longe disso. Já existem registros de casos confirmados de portadores de HIV que foram contaminados e curados da Covid-19.

No início dos anos 90, pacientes soropositivos morriam de Aids porque naquela época não haviam medicamentos capazes sequer de amenizar os efeitos da doença desconhecida, fazendo com que o índice de mortalidade de 100% permanecesse por anos. Somente a partir dos “coquetéis”, assim chamada a combinação de medicamentos que passaram a ajudar os indivíduos contaminados a manterem um nível de imunidade adequado, foi que a doença passou a ser controlada como outras tantas doenças crônicas e os portadores do HIV passaram a permanecer assintomáticos.

Os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que o percentual de letalidade da Covid-19, no Brasil, atingiu 6,8% em aproximadamente 62 mil doentes (294,5 casos por milhão). Sergipe confirmou 159 casos, com 9 óbitos (5,6%) e 69,2 casos por milhão. O Estado tem se mostrado mais eficiente do que Alagoas, por exemplo, que possui mais que o dobro de casos (166 por milhão) e mortalidade de 5,8%. Dentre as capitais brasileiras, Aracaju possui o menor Índice-Covid, indicador que monitora a probabilidade do sistema de saúde local entrar em colapso em decorrência do aumento do número de casos da doença, mesmo tendo todo o tratamento de infectados do Estado se concentrado na capital.

A epidemia nos tem feito experimentar um pouco da clausura que só assistíamos em filmes ou reportagens de TV, e a refletir sobre a importância de gente para as quais não dávamos importância, ou de valorizar atividades que julgávamos sem qualquer valor. Alguns hábitos mostraram-se desnecessários e pudemos constatar o nosso consumismo exagerado.

Descobrimos que dá para viver sem água mineral e deliverys (com receio de ser contaminado pelos entregadores); que o BBB transformou de uma chatice em um alento para muitos; que a diarista é um membro da família; que as costureiras da casa voltaram a empreender fabricando máscaras; que o SUS – Sistema Único de Saúde é único, porque trata o paciente e não manda a fatura para o doente; e principalmente, que os nossos familiares são o que realmente importa.

O mundo tem dado sinais de que virá renovado e melhor, pois a Covid serviu mais para unir esforços do que para acirrar as diferenças políticas, étnicas e religiosas entre países, serviu como freio de arrumação para um planeta com vocação para autodestruição, ávido em soluções bélicas para resolver diferenças e de omissão ante a miséria nos países do terceiro mundo.

Quanto ao Brasil, tomo emprestado comentário que um irmão fez no ZAP para ilustrar a realidade do momento atual do país: “Descobrimos ser possível entrar numa crise política, em meio a uma crise de saúde, dentro de uma crise econômica”. Enfim, somos uma nação em que teimosamente ainda não reconheceu o protagonismo que o coronavirus doravante terá em nossas vidas.

Especialistas estimam que a produção de uma vacina contra a Covid-19 esteja disponível para a população até 2022, até lá medidas preventivas devem ser incentivadas pelos governos. Assim como as camisinhas passaram a ser distribuídas de graça nos postos de saúde, como medida de prevenção à transmissão da Aids, que com a máxima brevidade passem a ser distribuídos kits com máscaras descartáveis para a população nos mesmos locais, até que tenhamos acesso a uma vacina segura contra o Covid-19.

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