Da Influenza à COVID

Por Márcio Monteiro

Marcio Monteiro, 27 de Maio, 2020 - Atualizado em 28 de Maio, 2020

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito concentrado no continente europeu que envolveu muitas potências e que contribuiu para a disseminação da Gripe Espanhola para outras partes do mundo, a partir do retorno das tropas aos seus países de origem. No início de 1918 e último ano da Guerra, um grande contingente de soldados americanos transitou pela região basca de San Sebastian (Espanha) rumo aos campos de batalha na França, muitos deles portadores da gripe adquirida na América. E em questão de meses, cerca de oito milhões de espanhóis haviam sido infectados pela doença, inclusive o Rei Afonso XIII.

 

As tropas americanas treinadas em um acampamento militar próximo a Junction City (Kansas, USA), embarcavam para a guerra na Europa levando a bordo dos navios de guerra o vírus da Influenza. Na época, o surto da doença propagou se entre os soldados nas instalações no campo de treinamento, mas o fato foi abafado por determinação do presidente Woodrow Wilson, que temia os efeitos negativos da divulgação da notícia não só sobre os cidadãos, mas sobretudo para não deixar que o risco de contrair a enfermidade abatesse o moral da tropa.

O quadro clínico provocado pela “Gripe Espanhola” foi assim descrito por um médico americano em uma carta localizada 60 anos após o término do conflito, pelo British Medical Journal: “os doentes começam a sentir sintomas de gripe e em questão de horas desenvolvem rapidamente o tipo mais viscoso de pneumonia jamais visto. Aparecem manchas castanho-avermelhadas nas maçãs do rosto, horas mais tarde pode-se começar a ver a cianose estendendo-se por toda a face a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem negro do branco. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente com uma falta de ar, até que morrem sufocados. É horrível.”

A gripe espanhola apareceu em duas ondas diferentes durante 1918. Na primeira, em fevereiro, embora bastante contagiosa, era uma doença branda não causando mais que três dias de febre e mal-estar. Já na segunda, a partir de agosto e próxima ao fim do conflito, espalhou rapidamente por todos os lugares, com impressionante velocidade e letalidade. Os doentes começavam com sintomas de uma gripe comum e rapidamente contraiam uma pneumonia que os levavam a óbito por insuficiência respiratória. Enquanto a primeira onda de gripe atingiu especialmente os Estados Unidos e a Europa, a segunda devastou populações da Índia, Sudeste Asiático, Japão, China e Américas Central e do Sul.

Curiosamente as medidas adotadas pela Espanha à época, guardam relação direta com as orientações indicadas para a prevenção ao COVID-19 e adotadas pelos governos de todo o mundo, tais como: suspensão de serviços e atividades governamentais; fechamento do comércio; restrições na circulação de pessoas sem o uso de máscaras e paralisação do transporte público (bondes). Não havia a preocupação quanto ao asseio das mãos, mas a pratica do gargarejo era muito difundida como medida preventiva. O pânico tomou conta dos espanhóis, que por iniciativa própria, passaram a ficar em casa para evitar serem contaminados.

Uma das questões suscitadas pela “pneumônica”, nome originalmente atribuído à enfermidade na região da Península Ibérica, durante a Primeira Guerra Mundial, enfrentaram problemas que guardam semelhança ao combate atual ao COVID-19. Um dos problemas detectados após o controle da pandemia, foi o tratamento com uso de medicação com graves efeitos colaterais. Autópsias realizadas por patologistas espanhóis comprovaram que um número expressivo de mortes resultou do excesso de administração de aspirina, usadas pelos médicos para o controle da febre, mas que provocavam o acúmulo de líquido nos pulmões dos pacientes, sufocando-os.

Uma terceira onda devastadora da gripe ocorreu no início de 1919, mas da mesma rapidez com que chegou, a epidemia se dissipou. Impossível precisar o número de vítimas da Gripe Espanhola que foi estimado entre 50 e 100 milhões de pessoas.  No Brasil a doença desembarcou em setembro de 1918, trazida por tripulantes de um navio procedente de Dacar, no Senegal (África Ocidental Francesa), espalhando se rapidamente pelo país e provocando mais de 35 mil óbitos, tendo inclusive vitimado o presidente da República, Rodrigues Alves.

A Gripe Espanhola chegou em Aracaju em outubro de 1919, trazida por seis passageiros contaminados à bordo do “Vapor Itapacy”. Mesmo tendo sido tomadas todas as medidas sanitárias de tratamento dos doentes, as autoridades de saúde não conseguiram impedir a disseminação da doença. Sendo criado o “Serviço de Combate à Gripe Espanhola”, constituído por profissionais e médicos do serviço público. Foi também aprovada a liberação de recursos financeiros através da Assembleia Legislativa para enfrentamento da doença no Estado.

Diante da falta de profissionais e equipamentos públicos capazes de atenderem a demanda crescente dos infectados pela epidemia, foi feita uma grande mobilização de entidades de classe, indústrias, Cruz Vermelha, Igreja Católica, Maçonaria, 28º Batalhão de Caçadores, entre outros, que diante da incapacidade das instituições públicas de saúde em atender à demanda de doentes, assumiram a difícil tarefa de proporcionar assistência médica às pessoas carentes, fornecendo medicamentos, alimentos ou dinheiro, além de ajudar na desinfecção das residências após os óbitos e a remoção dos cadáveres.

Em Aracaju foram tratados 7.974 casos, com 229 óbitos. No Estado de Sergipe, dados oficiais registraram 27.910 contaminações e 997 mortes, números que na realidade foram bem mais elevados. O mais curioso na história do vírus da chamada Gripe Espanhola, é que trata se de um ancestral com grande capacidade de mutação e de cepa bem conhecida por nós, a Influenza H1N1 (abreviatura das proteínas que revestem a superfície viral, as Hemaglutininas e as Neuroaminidases). Historicamente os vírus sempre foram identificados como os agentes etiológicos predominantes nas infecções respiratórias agudas, agravadas em indivíduos portadores de doenças crônicas. São organismos dotados de grande capacidade de provocar mutações que resultem em doença em um determinado hospedeiro.

Em 2002, um surto da chamada síndrome respiratória aguda grave (SARS - Severe Acute Respiratory Syndrome) foi detectado na China, chamando a atenção da Organização Mundial da Saúde – OMS, por ter contaminado 8 mil pessoas e causado 800 mortes. Teve origem atribuída a gatos contaminados por morcegos e comercializados nos tradicionais mercados chineses de animais vivos. Trata-se de doença muito mais grave que as outras variações de coronavírus, mas que simplesmente “do nada” deixou de fazer vítimas a partir de 2004.

Em 2012, uma outra variante de coronavírus foi detectada na Arábia Saudita, conhecida pela sigla Mers-CoV, responsável pela Síndrome Respiratória do Médio Oriente (MERS). Esse coronavírus surgiu em hospitais da Arábia Saudita, caracterizado pela sua rapidez de propagação e elevada taxa de mortalidade (65%), de acordo com estudo realizado pela Escola de Medicina Johns Hopkins (Maryland, USA). Os sintomas do Mers são similares aos da Sars: as pessoas infectadas começam a ter febre e uma tosse leve que pode persistir durante vários dias antes de virar pneumonia. Assim como na Sars, alguns pacientes também apresentam sintomas gastrointestinais. Além da Arábia Saudita, onde se concentraram a maioria dos infectados, foram registrados casos isolados deste coronavírus no Reino Unido, Itália, Tunísia e França.

No Brasil, trabalho realizado pelo Instituto Evandro Chagas entre 2009 e 2011 buscou identificar coronavírus humano (CoVh) em pacientes acometidos de infecção respiratória aguda (IRA), na cidade de Belém do Pará, em um grupo de pessoas atendidas pelo programa de vigilância do vírus da influenza da instituição. Os resultados da pesquisa levaram à primeira constatação laboratorial da circulação do agente viral na Região Amazônica e já indicavam a necessidade de aprofundamento de pesquisa para conhecimento da etiologia e estudos sobre a difusão e propagação deste agente viral na região Norte pelos órgãos de controle sanitário do país.

O primeiro caso de COVID-19 de que se tem notícia no Mundo, foi detectado em amostra coletada em um hospital de Paris, em 27 de dezembro de 2019. Tratava-se de um homem cuja esposa já havia sentido os mesmos sintomas do marido uma semana antes. A Agencia Reuters noticiou que, “Após retestar, hospital francês descobre caso de COVID-19 em dezembro". Portanto, parece que criamos mais um “bode expiatório” para esta pandemia, a China.

Sendo os Coronavírus humano (CoVh) um dos patógenos causadores da infecção aguda grave e o crescente aparecimento de variações do vírus em outros continentes, recomenda-se um maior empenho no monitoramento visando a coleta de dados que possam ser utilizados no controle da doença, na indicação de ações profiláticas preventivas de controle da circulação do COVh. Mobilização de recursos que permitam o desenvolvimento de vacinas que gerem anticorpos capazes de imunizar a população, da maneira mais rápida (mesmo que excepcionalmente não sejam observados à risca todos os protocolos de testagem e segurança), que sejam eficazes e em quantidade suficiente para atender toda a população mundial.

A dúvida que persistirá por algum tempo em relação à pandemia do COVID-19, é se os gestores públicos erraram ou acertaram na dose, tanto em relação às medidas de combate e prevenção à pandemia, quanto na regulação do funcionamento das atividades econômicas. Vai ser difícil avaliar se as medidas econômicas provocaram mais mortes que as baixas atribuídas à pandemia do novo coronavírus.

Quando revelada a radiografia do cenário econômico provocado pelas decisões de gestores públicos brasileiros nos três níveis do Poder Executivo, pré e pós pandemia, o quadro não vai ser outro senão o de elevadas taxas de desemprego e informalidade, mas pior ainda, será o crescimento da parcela da população que migrou para a chamada extrema pobreza.

Discutir responsabilidades não fará muito sentido, afinal somos coniventes com tudo o que está acontecendo. Legitimados através do voto os mandatos dos ocupantes de cargos do executivo. Pior ainda, permanecemos prostrados diante da TV assistindo os impropérios diários de um presidente mais preocupado em resolver as estrepolias dos seus “zeros”, do que com o país. Pacientes morrem em UPAs e corredores de hospitais; valas em cemitérios são abertas para realização de enterros coletivos; a corrupção dá sinais de que ainda nos cerca e não respeita nem mesmo o momento de dor das famílias. De que adianta apenas indignar-se diante da telinha e depois contentar se em bater panela na área de serviço.

Vai ser difícil superar mais uma depressão muito pior que a dos anos 1930. Enfrentar um exército de desempregados, o crescimento da violência urbana, o custo de programas sociais, perda de arrecadação, e ter que manter, sabe-se lá por quanto tempo, despesas com uma pandemia que já está sendo considerada pela OMS como uma nova endemia, que exigirá um esforço permanente do Sistema de Único de Saúde, até que se chegue a uma vacina segura e eficaz.

Como relatamos no início, a história registra que muito mais sangue e lágrimas rolaram na primeira metade do século XX para a superação de guerras brutais e epidemias que pareciam incontroláveis. Muitas vidas se perderam e economias foram devastadas. Acumulamos conhecimento científico e tecnológico, um número incomensurável de informações em tempo real, mas que infelizmente não melhoraram a qualidade do ser humano. Avançamos de um lado e do outro acentuamos os comportamentos que nos tornaram mais egoístas, intolerantes e menos sensíveis às necessidades de nossos semelhantes.

Neste momento não existe razão para sermos otimistas quanto pensamos sobre o cenário sócio econômico que nos aguarda à frente. As avaliações mais recentes de especialistas de saúde indicam que a doença é muito mais complexa (sistêmica) e que o reconhecimento pela OMS de que a COVID-19 poderá tornar-se endêmica, demonstram que estamos longe do fim desse pesadelo.

O otimismo que nos resta está depositado na esperança de que os protótipos de vacinas e ensaios clínicos com antivirais, desenvolvidos através da cooperação científica internacional e aporte de recursos de países ricos, possam resultar em uma solução eficaz e criar uma nova consciência global de como enfrentar futuros eventos desta natureza.

Passados mais de um século da morte de Oswaldo Cruz, muitas das doenças ainda não foram erradicadas no Brasil, como o mal de chagas, a malária e paralisia infantil. Os especialistas em saúde pública afirmam que enquanto não houver uma política de investimentos que priorizem o setor. Mas nada que se compare ao retrocesso provocado pela paralisação do Instituto Oswaldo Cruz em consequência da perseguição dos cientistas pelos órgãos de segurança no governo militar (Médice), no início da década de 70. Perseguição que culminou com a cassação dos direitos políticos e expulsão dos cientistas do país. Décadas se passaram para que a Fundação Oswaldo Cruz voltasse a ter as condições necessárias para retomar os trabalhos.

Os brasileiros tem externado nas redes sociais a crença de que estamos próximos do fim da pandemia e que dias melhores nos aguardam à frente. Diferentemente dessa expectativa inexplicavelmente otimista, não acredito que teremos um planeta mais humano e fraterno, até porque as diferenças econômicas entre nações e regiões se acentuarão cada vez mais. A história também nos ensinou de que o mundo é dinâmico e nele tudo muda constantemente, o que não muda jamais é o fato do homem estar sempre mais preocupado com o seu próprio umbigo.

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