Projeto Rondon (I)

Operação Zero - Por Márcio Monteiro

Marcio Monteiro, 27 de Agosto, 2020 - Atualizado em 28 de Agosto, 2020

Assistindo na TV notícias sobre desmatamentos, queimadas, garimpos ilegais, grilagem de terras, entre outros problemas enfrentados diariamente por comunidades distantes dos centros urbanos, fizeram me recordar de algumas lembranças vividas durante o governo Médici. Período em que o Brasil viu se mergulhado nas trevas da censura e da repressão política, ou os “anos de chumbo” com ficou marcado esse tempo de obscuridade em nosso país. Lembrei com certa nostalgia de dois anos aos quais me dediquei em um projeto, que iniciou neste mesmo período, e que marcou a vida de muitas pessoas, que como eu, acreditavam haver uma boa luta a ser travada, além das querelas por disputas de poder nos diretórios acadêmicos ou das manifestações nas ruas. Trata-se do Projeto Rondon, sobre o qual irei comentar neste e nas próximas publicações, contando um pouco do legado positivo deixado pelas operações deste memorável projeto.

"Ó Rondon, trazias contigo o sentimento da terra. Uma terra sempre furtada pelos que vêm de longe e não sabem possuí-la. Terra cada vez menor, onde o céu se esvazia da caça e o rio é memória de peixes espavoridos pela dinamite.  Terra molhada de sangue e de cinza estercada de lágrimas (... ). Rondon / Amigo e pai sorrindo na amplidão"

O Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon celebrado por Carlos Drummond de Andrade através do poema “Pranto Geral dos Índios”, do qual extraí este belo verso, foi também o personagem que inspirou um grupo de acadêmicos do então estado da Guanabara, a realizarem uma expedição à Amazônia, em 1967.

A ideia de colocar universitários em contato direto com realidades distintas nasceu na Escola de Comando do Estado-Maior do Exército (ECEME). O professor Wilson Choeri, da Universidade do Estado da Guanabara (UEG), acreditava que a universidade estava muito distante da realidade do país e alguma coisa precisava ser feito para que acelerasse o processo de integração nacional.

Havia muita resistência dos militares que acreditavam ser a iniciativa de responsabilidade das próprias universidades, sem qualquer interferência do governo. Porém, o assunto passou a ter relevância após um seminário promovido pela ECEME e a UEG, em 1966, pelo fato do assunto ter estreita relação com temas recorrentes e muito utilizados para justificar qualquer ação governamental na região amazônica, refiro-me à soberania do país e à segurança nacional.

O assunto foi abordado no seminário e houve a concordância quase que unânime sobre a necessidade de levarem estudantes a terem um contato mais direto com a realidade socioeconômica do interior do país e poderem dar a sua cota de contribuição ao progresso da nação brasileira.

Pouco tempo depois, o professor Choeri viajou para Rondônia, onde visitou o 5º Batalhão de Engenharia e Construção, e local onde articulou a organização de atuação de um grupo pioneiro na região, numa iniciativa que foi denominada “Universidade Integrada”. O fato de retirar os estudantes do ambiente urbano conturbado e ao mesmo tempo incutindo-lhes a ideologia da segurança nacional, agradava sobremaneira o governo militar.

Mauro Costa Rodrigues foi então escolhido para ser o primeiro Coordenador Nacional do Projeto Rondon, e logo reuniu a Universidade do Estado da Guanabara, a Universidade Federal Fluminense e a Pontifícia Universidade Católica, para realizarem a primeira atuação na Amazônia, com a participação de 31 estudantes, que chegaram a Porto Velho em 23 de junho de 1967, levando uma faixa com o lema provisório: “A selva não é nossa inimiga”.

Esse primeiro grupo elaborou um livro que viria a ser o manual de preparação e configuração de futuras operações, e dentre as muitas sugestões registradas pelos universitários, a mais importante foi de que as futuras equipes não poderiam deixar de contar com estudantes das áreas de medicina, serviço social, enfermagem e administração, tal o estado de abandono em que viviam as comunidades visitadas, e a grande demanda por serviços básicos essenciais.

A chamada Operação Zero permaneceu por 28 dias trabalhando em várias frentes, deixando um saldo muito positivo de realizações, que repercutiram na imprensa nacional, além agradar muito ao comando militar com o novo e definitivo lema do que viria a ser o Projeto Rondon: “Integrar para não entregar”.

Neutralizada as forças que ainda resistiam em aceitar a proposta do Projeto e o sucesso da operação em Rondônia, bastou o aval dos ministérios militares, para que surgisse o Projeto Rondon. A partir daí, todas as atividades de coordenação nacional, planejamento e logística das operações, passaram a ser de responsabilidade do Ministério do Interior. Ficando estabelecido que as operações aconteceriam nas férias dos universitários, com participação voluntária e mediante concordância com um código de ética com termo de responsabilidade para os participantes.

Muitos afirmavam que o projeto era uma estratégia dos militares afastarem os estudantes das manifestações contra o regime, e mesmo que fosse verdade, não deixava de ter valor e grande significado o legado deixado pelos estudantes em comunidades remotas e desassistidas pelo Estado, tanto que foi constatada a necessidade de atuação permanente em áreas assistidas pelo Projeto. E para que não houvesse a descontinuidade das operações, foi sugerida a criação dos chamados “Campi Avançados” para atuar nos locais menos desenvolvidos do Brasil. Até 1972, cerca de 2.500 municípios receberam juntos um total de 24 mil estudante, que prestaram serviços nos mais diferentes setores profissionais.

O Projeto Rondon criado pelo Decreto nº 62.927, de 28 de junho de 1968, há apenas meses do presidente Costa e Silva baixar o Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro do mesmo ano, iria produzir suas ações arbitrárias e produzindo uma espécie de sombra de terror e arbitrariedades por mais uma década. Evidentemente, para quem não queria enfrentar a linha dura do Regime ou criar problemas com gente de confiança dos militares, voava em céu de brigadeiro e não tinha o que temer, e poderia até conseguir uma vaga para professor de OSPB nas escolas e EPB nas universidades.

O movimento estudantil crescia e o radicalismo contra a ditadura passou a ser a bandeira dos universitários, em contrapartida o regime endurecia as medidas de repressão às manifestações ou mesmo a reuniões privadas, até porque a privacidade é um direito incompatível com regimes totalitários. O controle do cidadão é atividade desempenhada pelos órgãos da chamada inteligência, e inerentes à sustentação de regimes de exceção, e no Brasil não foi diferente.

O foco do Projeto foi se consolidando rapidamente nos primeiros anos de atuação, com a concepção, implantação e exercício dos vários programas operacionais desenvolvidos, a saber: Operações Nacional, Regional e Especial, Campi Avançados, Interiorização e Fixação de mão de obra especializada. “O programa pode ser considerado um chamado de convergência de forças para a integração de regiões distantes e esquecidas ao longo da história, pelos sucessivos governos...” ¹

Tão logo os estudantes retornaram de Rondônia, propuseram a criação de um movimento universitário que desse prosseguimento ao trabalho iniciado no território visitado. A esse movimento deram o nome de Projeto Rondon, em homenagem ao bandeirante do século XX, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. No ano seguinte, o trabalho expandiu-se para a Amazônia e Mato Grosso, com 648 jovens, exigindo maior participação do Governo no seu apoio. Durante o período em que permaneceu em atividade, integrando a estrutura do Governo, o Projeto envolveu mais de 350.000 estudantes em todas as regiões do País.

¹ Santos & Mendes. 2005

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