Gente Sergipana – José Almir Santana.

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 12 de Julho, 2019 - Atualizado em 12 de Julho, 2019

Almir Santana nasceu e se criou no bairro Santo Antônio. Cursou o básico no Ginásio Simeão Sobral e o científico no Colégio Atheneu. Na verdade Almir Santana na infância gostava mesmo era de jogar bola. Não perdia uma pelada no chiqueirinho, campo situado ao lado do Estádio Sabino Ribeiro. Almir Santana queria mesmo era ser jogador do Confiança.

Os seus sonhos de adolescência eram ter um bicicleta e comparar uma geladeira para dar a mãe de presente. Aspirações quase impossíveis para os filhos da classe trabalhadora naquela época.

No Atheneu, Almir Santana se destacou em matemática. O professo Leão Magno abriu o GCM, um pré-vestibular que ficaria famosos, e convidou Almir Santana para ensinar. Almir ganhou fama como professor, juntou-se com um grupo de professores já consagrados e fundaram o Pré-vestibular VISÃO, que marcou época em Aracaju.

Almir passou no vestibular de medicina em 1972, e só conseguiu formar em 1981. A sala de aula tinha ocupado a alma e o tempo de Almir Santana, um dos grandes professores de pré-vestibular em Aracaju, e isso atrapalhou a regularidade do curso médico.

A Saúde Pública como vocação.

Almir Santana depois de formado em medicina, foi trabalhar na rede pública de saúde (1985). O seu primeiro destino foi o Centro de Saúde José Machado de Souza, no Santos Dumont, subúrbio de Aracaju. Almir, inquieto, como fazer Programa de Saúde da Família PSF antes de sua existência. Seu primeiro envolvimento foi com a vacinação de poliomielite.

Almir percebeu a baixa cobertura da vacina no Bairro. Botou um isopor com vacinas debaixo do braço, e saiu vacinando de rua em rua, de porta em porta. Aquilo nunca tinha sido feito. Almir começou atender a população com dedicação e zelo. Ninguém voltava, ele atendia a todos.

Nessas visitas, Almir Santana descobriu que no Santos Dumont existiam vários cabarés, alguns pequenos, outros famosos, como o cabaré de Ciganinha. Almir percebeu que a sífilis era um grande problema de saúde pública, e passou a agendar um atendimento as prostitutas. O seu consultório encheu. Não demorou, o provincianismos e as más línguas botaram logo um nome: Almir Santana passou a ser “o médico das putas”.
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No início da década de 1980 chegava ao Brasil a AIDS, a “Peste Gay” que assombrava o mundo. Coberta de preconceitos, desinformações e moralismos. A doença foi apresentada como sendo exclusiva dos homossexuais. Um estigma, uma ameaça, um castigo! A doença além de tudo não tinha tratamento, era uma condenação à morte.

O primeiro caso de AIDS em Sergipe apareceu em Santa Luzia do Itanhy (1987). Um paciente com tuberculose, vindo de São Paulo. Foi um desespero para a saúde pública sergipana, ninguém queria atender ao paciente. O preconceito e o medo dominavam as mentes e os corações. O Prefeito exigiu que o paciente foi retirado da cidade.

Diante as dificuldades, o Secretário da Saúde fez um comentário absurdo e preconceituoso: “existe um médico no Santos Dumont que atende as putas, quem sabe se ele não topa atender aos viados”. Foi nesse contexto que Almir Santana assumiu a coordenação do atendimento a AIDS no Estado de Sergipe.

Logo, logo, surgiu outro caso de AIDS em Sergipe: um cabeleireiro em Itabaiana. Quando diagnosticado, o cabeleireiro revelou que fazia muito sexo, com múltiplos parceiros e deu os nomes. Pronto, a epidemia chegou em Sergipe, pensou Almir Santana. Como no início se fazia a busca ativa das pessoas em riscos, possivelmente infectadas, o terror correu em Itabaiana. Almir Santana está com uma lista de nomes, e todos serão internados para fazer os exames.

Começou a circular listas apócrifas em Itabaiana, com a marca da saúde pública. Todos queriam saber se os seus nomes constavam ou não na lista de Almir Santana. Quem namorou ou não com o cabeleireiro, era a pergunta fatal. De sacanagem, quem encabeçava todas as listas era de um donzelo juramentado. Quando Almir Santana chegava em Itabaiana era uma correria, um atropelo, muita gente se escondendo.

Um ex-amigo recebeu uma convocação da HEMOSE, numa sexta à tarde, para comparecer com urgência ao órgão, tratar de assunto do seu interesse. E não dizia qual era o assunto, nem o interesse. Como se tratava de um devasso assumido e que não usava camisinha, achava que ficavam folgadas, entrou no desespero. O acolhi em minha residência num final de semana, para confortá-lo espiritualmente. Não era nada de AIDS, mas o susto foi grande.

Nenhum hospital queria internar os pacientes com AIDS, os profissionais de Saúde tinham medo. Não se conhecia muito da doença. Na época, surgiu um pânico em Aracaju: circulou a notícia que a muriçoca poderia transmitir a AIDS. Com a quantidade de muriçoca que nós temos, seria o fim de Aracaju.

Sergipe foi o segundo estado brasileiro a implantar um programa de prevenção e controle da AIDS no Brasil. Almir Santana foi o seu primeiro e único coordenador. Almir caiu nas estradas para fazer prevenção com os caminhoneiros, foi às feiras, às praças públicas, se aproximou da comunidade LGBT, fez parceria com Wellington do “Dialogay”, com o GAPA, fiscalizou os bancos de sangue, trabalhou com Candelária, Maria Augusta, desfilou no Pré-caju, Almir Santana nunca mais descansou. Virou uma devoção.

No início a Igreja Católica não via com bons olhos o trabalho de Almir Santana. A segurança era o sexo doméstico, para que camisinha? Em Sergipe, Arnóbio Patrício de Melo, um grande padre, quebrou o tabu: convidou Almir Santana para dar uma palestra de prevenção da AIDS no Seminário. Foi um espanto! Arnóbio tinha razão, conhecia, em pouco tempo apareceu um ministro de Deus com AIDS.

A mídia no começo atrapalhava, apostava no sensacionalismo. Três notícias da época exemplificam: “Loira da Atalaia Nova contamina 300”, “Aidético retorna a São Paulo escoltado pela polícia” e “Aidético morre por ter comido uma feijoada”. A desinformação era grande.

Almir Santana é casado com Solange Fonseca e tem dois filhos: Marcelo e Andrea. Almir Continua em sua luta incessante na saúde pública. Virou celebridade, o seu trabalho é reconhecido pelos seus colegas, pela universidade e, sobretudo, pela comunidade.

A Saúde Pública hoje no Brasil sobrevive às custas de abnegados.

Antônio Samarone.

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