Gente Sergipana – Maria Carreiro (In memoriam)

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 12 de Agosto, 2019

Maria da Graça do Amorim (Maria Carreiro), nasceu no início do século XX, no Tanque da Caatinga, nas brenhas do Campo do Brito. Filha única de Seu Manoel carpinteiro, artesão de gamelas, e de Dona Josefa.

Maria Carreiro nunca pôs os pés numa escola, onde morava não existia. Desde menina, tomava conta do carro de boi do pai, único meio de transporte naquelas bandas. Amansava boi e montava a cavalo em pelos. Fazia de tudo no trabalho agrícola.

Já moça, foi inspecionar as arapucas que tinha armado para pegar nambu, e cruzou com Constantino, um pequeno fazendeiro de Itabaiana, com pose de rico. O estranho ficou impressionado com a beleza de Maria Carreiro. Uma Tupinambá saída da mata.

Constantino Alves do Amorim era de família remediada. Filho de Chico do Carmo, irmão de João Teixeira (pai de Oviedo Teixeira). Família importante em Itabaiana. Constantino se apaixonou por Maria Carreiro. Acertado o casamento, ela impôs uma condição: quem guia o carro de boi sou eu, você abre as cancelas.

Maria Carreiro ganhou do pai, como presente de casamento, um carro de boi. Chegando no Sítio Porto, em Itabaiana, terra do marido, ela montou uma frota. Passou a trabalhar botando areia, pedra, lenha para as padarias, tudo era transportado de carro de boi.

No primeiro calçamento de rua em Itabaiana, ela passou a trabalhar para a Prefeitura, botando areia lavada para a realização da obra. Naquele tempo não existia cimento. No povoado Matapuã, em Itabaiana, existia diversos fornos de fabricação de cal. Todo o transporte era realizado por Maria Carreiro.

Dona Maria Carreiro era respeitada por todos. Saia comprida, pelo mocotó, casaco com 4 bolsos, alpercatas de couro, chapéu de palha, um facão de 16 polegada na cintura e, se precisasse, tinha em casa uma espingarda de “soca tempero”. Onde chegava se impunha.

Maria Carreiro nunca teve menos de 20 bois de brocha no pasto. Quando iam envelhecendo, elas mesma amansava os novos, botava cambão nos bichinhos.

O coração era udenista, mas era amiga tanto de Dona Sinhá (esposa de Euclides Paes Mendonça); como de Dona Pequena (esposa de Manoel Teles), os dois chefes políticos da região.

Maria Carreiro teve cinco filhos. Zé, Celina, Antônio, João e Inês. Dona Celina é a mãe dos Amorins famosos (Edvan e do Senador Eduardo).

Maria Carreiro enviuvou cedo. Seu Constantino foi atravessar a BR, levando a boiada para o pasto, e foi atropelado pelos carros modernos.

Dona Maria carreiro era viciada no trabalho. Com chegada da modernidade e o fim dos carros de boi, Maria Carreiro abriu um comércio na feira de Itabaiana. Vendia de tudo, menos carne, ela dizia a quem perguntasse.

Dona Maria Carreiro foi um exemplo de independência e altivez. Morreu com mais de 80 anos, sem nenhuma doença. Morreu porque chegou a hora, de velhice, como se dizia.

Numa terra de grandes matriarcas, Maria da Graça do Amorim foi um exemplo.
*Antônio Samarone.*

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