SERGIPE ANTIGO - (CAPÍTULO IX) - BISPO SARDINHA (parte dois)

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 17 de Agosto, 2019

O Bispo Sardinha – Ano 463 da Deglutição do Bispo Sardinha.

“Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos.” (Oswald de Andrade)

O Bispo Sardinha enfrentou calúnias, mentiras, acusações interessadas, mas resistiu, não abriu mão dos seus princípios. Manoel da Nóbrega também não aprovava a missão pastoral do Bispo Sardinha, em carta a Tomé de Souza, o provincial dos jesuítas afirmava:

“Quanto ao gentio e sua salvação se dava pouco, porque não se tinha por seu Bispo e eles lhe pareciam incapazes de toda a doutrina por sua bruteza e bestialidade, nem os tinha por ovelhas do seu curral, nem que Cristo Nosso Senhor se dignaria de tê-los por tais... Nosso Senhor... Quis... Castigar lhe o descuido e pouco zelo que tinha da salvação do gentio. Castigou-o dando-lhe em pena a morte que ele não amava.

Em 09 de julho de 1953 foi criada pelos jesuítas a Província do Brasil, visando que Manoel da Nóbrega ganhasse privilégios canônicos, e melhor enfrentasse o Bispo Sardinha. Manuel da Nóbrega permaneceu provincial do Brasil até 1559.

O beato Manoel da Nóbrega comemorou a morte do Bispo Sardinha.

Com a chegada de Duarte da Costa (1553) as relações com o bispo Sardinha se agravaram, por conta do comportamento abusado do filho do Governador, Álvaro da Costa, comandante das forças militares, que usava e abusava das índias, escravizava mesmo os índios convertidos e aldeados.

A relação do Bispo já não era boa com os jesuítas, à expedição de Duarte da Costa trouxe mais uma meia dúzia, entre eles José de Anchieta. Os conflitos levaram a Coroa a chamar o bispo de volta. Exatamente em 15 de junho de 1556, o bispo e uma imensa comitiva (103 pessoas), nobres, quatro cônegos, o provedor da Fazenda Real, Antônio Cardoso de Barros, escravos, mais de cem pessoas retornavam à Portugal na Nau Nossa Senhora da Ajuda.

Em seu retorno à Portugal, a Nau Nossa Senhora d’Ajuda, que levava o Bispo Sardinha, naufragou em 16 de junho de 1556. Quanto ao local do naufrágio existem duas versões:

Gabriel Soares de Souza apontou uma enseada de duas léguas, entre a foz do Rio Coruripe e o Rio São Francisco, onde estão os arrecifes de Dom Rodrigo, local também conhecido como Porto Novo dos Franceses; e Moacyr Soares Pereira fundamenta que o naufrágio ocorreu na enseada do Vaza Barris, situada entre a margem esquerda do Rio São Francisco e o Rio Japaratuba, próximo à Praia de Santa Isabel.

Na comitiva do Bispo iam mais de cem brancos, entre eles, o Provedor Mor, Antonio Cardoso de Barros, pai de Cristóvão de Barros, que conquistou Sergipe; dois Cônegos; duas mulheres honradas e casadas; e vários nobres. Todos foram devorados, escapando apenas dois índios, que vinham na expedição, e um português que sabia a língua, filho do meirinho de correição.

O Bispo Sardinha foi a maior autoridade eclesiástica devorada num ritual antropofágico, em toda ocupação das Américas. Como agravante, o episódio ocorreu durante a realização do Concílio de Trento, um dos mais importantes da cristandade. A reação da igreja romana foi poderosa.

A primeira versão (Foz do Coruripe) foi reproduzida por vários historiadores e é a mais conhecida. Moacyr Soares juntou documentos e evidências, afirmando que a versão oficial foi um pretexto para se condenar os Caetés, que há muito vinham incomodando Duarte Coelho, donatário da Capitania de Pernambuco.

Com a morte de Duarte Coelho, 1555, os Caetés iniciaram uma revolta, apressando o empenho dos colonizadores em sua destruição. Segundo Moacyr, o naufrágio ocorreu do lado sergipano, e o ritual antropofágico foi obra dos Tupinambás. (entraremos em detalhes no próximo capítulo).

A primeira escravização legal dos índios no Brasil (no sentido de autorizado pela Coroa) deu-se com os Caetés, em 1562. Os jesuítas foram grandes entusiastas dessa medida, diante a acusação forjada de que os Caetés eram os responsáveis pelo banquete antropofágico com o Bispo Sardinha e os demais da comitiva naufragada em 1556.

Essa versão foi forjada pelo governo Mem de Sá, procurando atender ao pleito dos donatários da Capitania de Pernambuco, a quem a natureza aguerrida de belicosa dos caetés incomodava bastante. Estava também em jogo o desejo de ocupação das terras dos Caetés, tidas como de excelente qualidade para o plantio da cana de açúcar e ampliação dos engenhos pernambucanos.

Se houvesse veracidade na acusação aos Caetés, pela morte e canibalização do único Bispo nas Américas, por que a punição só ocorreu em 1562, seis anos após o naufrágio.

As relações belicosas entre colonos e Caetés na Capitania de Pernambuco se agravam após a morte do donatário Duarte Coelho em 1554, em Portugal. Em razão da ausência no Reino do herdeiro da Capitania, Duarte de Albuquerque Coelho, o comando passa as mãos de Jeronimo de Albuquerque, irmão da esposa de Duarte Coelho, dona Beatriz de Albuquerque.

Jeronimo de Albuquerque radicalizou na luta contra os Caetés, passou a exigir da Coroa a declaração de guerra contra os índios. As divergências eram de ordem econômica, os índios não aceitaram pacificamente a escravização; muito menos serem afastados das terras que ocupavam a no mínimo 500 anos. Eram necessárias justificativas mais evidentes para a declaração de guerra justa contra os Caetés.

Nada melhor do que os acusar da morte do Bispo Sardinha.

As versões sobre a morte do Bispo devem-se a imprecisão das notícias, no Brasil do século XVI. O Frei Odulfo Van Der Vat, em seu livro “Princípios da Igreja no Brasil” nos oferece um exemplo das dificuldades de circulação das notícias no século XVI, tudo era muito incerto, com muitas versões.

Sobre a morte do Bispo Sardinha, relata Van Der Vat: Mês e meio depois da espantosa cena de carnificina e antropofagia, ainda a notícia era desconhecida na Baia, quando Nóbrega chegou de São Vicente, a 30 de julho (Sardinha morreu em 16 de junho). Porque, datada da cidade do Salvador, de primeiro de agosto de 1556, existia uma carta de Pedro Rico, dirigida ao bispo Sardinha, a pedir-lhe uma conezia (um cargo rendoso), não sabendo que já era morto.

O Padre Aurélio de Vasconcelos repete a versão interessada de Gabriel Soares de Souza, de que o naufrágio do Bispo Sardinha ocorreu na foz do Rio Coruripe, região dos Caetés, informando que o funesto acontecimento se deu em 16 de junho de 1556, e que gerou uma sede de vingança generalizada entre os portugueses, mesmo entre os que gostavam dos índios.

A acusação aos Caetés como responsáveis pela morte do Bispo Sardinha era apena a justificativa para o extermínio da mais valente, mais guerreira tribo Tupi do Nordeste brasileiro. Eles sabiam que o maior banquete antropofágico das Américas tinha ocorrido na enseada do Vaza Barris, em território sergipano, sob o comando do temível Surubi, importante cacique dos Tupinambás. Esses pagariam o mesmo preço por ocasião da guerra de Sergipe, em 1590, quando foram dizimados como vingança pela morte do mesmo Bispo, como veremos adiante.

Mem de Sá aproveitou-se desse episódio do Bispo Sardinha para justificar a sua crueldade guerra contra os gentios. Vale a pena lermos com atenção o nos diz o Padre Aurélio de Vasconcelos sobre o tema:

“ Os sertões do Rio Real (Sergipe) foram preferidos para essa inominável caçada humana, onde toda a sorte de crueldade se praticou contra aquelas infelizes criaturas que além de batidos da fome e das Pestes que houve nessa época (1562), eram ainda agrilhoados pelo cativeiro, quando não os matavam por lá ao serem julgados imprestáveis para esse fim.”

“O trato desumano e bárbaro, quase canibalesco, que os civilizados deram aos naturais do Rio Real, não diferia muito do que estes costumavam dar a seus inimigos. Quando muito, havia equivalência de crueldades que uns e outros praticavam, senão, mais exacerbadas, as daqueles colonos que haviam perdido a noção de consciência cristã e os derradeiros resquícios de humanidade para com os silvícolas.”

Os ataques aos Tupinambás em Sergipe começaram bem antes da expedição de 1575, como relata as histórias de Sergipe. “Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: É mentira muitas vezes repetida. (Oswald de Andrade).

Em Janeiro de 1563 foi a grande morte das bexigas (varíola) tão geral em todo o Brasil, de que morreu muito gentio, de que também levou muita parte de que havia nas igrejas em que os Padres residiam, e depois da doença ser passada, e os índios se irem gastando pouco e pouco, com parecer do governador Mem de Sá, por a igreja de São Paulo ter já pouca gente, se repartiu essa que havia pelas outras, e assim não ficariam mais de 4, que se conservaram por alguns anos.

Concordo com Sílvio Romero, que os missionários e colonos inteligentes do século XVI, que deixaram notícias escritas dos nossos índios, eram demasiado incompetentes para uma observação regular, capaz de surpreender os mais íntimos fatos sociais e a fundamental psicologia dessas gentes rudes. Diria mais, e muito poucos interessados na imparcialidade dos fatos, contavam o que convinham do jeito que lhes interessassem.

Gabriel Soares de Souza chegou à Bahia em 1570, foi proprietário de engenhos e roças, e retornou a Madrid em 1587, passando 17 anos no Brasil. Ele dedica o seu livro Tratado Descritivo do Brasil a Cristóvão de Moura. Gabriel Soares forjou a versão do naufrágio em Coruripe e o banquete antropofágico dos Caetés, 14 anos após o ocorrido, e essa versão passou a ser a oficial. Os demais historiadores só repetiram.

Com documentos, demonstraremos a outra verdade sobre a morte do Bispo Sardinha. (próximo capítulo).

No mínimo duas nações foram exterminadas por conta do banquete canibal do Bispo Sardinha, os Caetés em 1562; e os Tupinambás de Sergipe em 1590.

Esse fato estabeleceu a regra principal do relacionamento entre o Poder e as classes subalternas no Brasil, em vigor até hoje. A condenação da rainha Catarina de Áustria, esposa de D. João III, em 1557, foi que os responsáveis pela morte do Bispo e comitiva estavam condenados a escravidão eterna, inclusive os seus descendentes, sem distinção de sexo ou idade.

Não precisava procurar e punir os culpados, todos eram culpados. Foi assim em Canudos, foi assim em várias revoltas populares ao longo da história, e é assim até hoje, quando as polícias sobem as favelas em busca de traficantes. Todos são culpados, até que se prove o contrário.

Antônio Samarone.

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