A Cultura na quinta Bienal de Itabaiana.

por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 14 de Setembro, 2019 - Atualizado em 14 de Setembro, 2019

A Bienal de Itabaiana é um grande sucesso de público. Legiões de jovens superlotam os corredores. Todos curiosos, ávidos pelo consumo cultural. Gente de todos os cantos e recantos. Parece uma romaria do Padre Cícero. O que explica esse novo poder de atração da cultura popular, do objeto cultural?

Claro, não estou falando da cultura como um sistema completo e coerente de explicação do mundo. Não! Falo da cultura mercantilizada.

A globalização da cultura convive com as culturas locais fragmentadas, sem muitos conflitos. Muitas vezes nem se cumprimentam. Para o mercado, a única medida é o consumo.

A que se deve o sucesso da Bienal de Itabaiana, a Meca da cultura sergipana?

Primeiro a ausência do Poder Público. A Bienal de Itabaiana não usa recurso público. Quando o Poder Público patrocina a coisa não anda, a politicagem toma conta. Só leva gente se contratar shows com artistas famosos, com cachês suspeitos. A parte da cultura local é esvaziada, mesmo trazendo palestrantes e atrações de fora.

Uma nota: a completa ausência dos doutores das universidades na Bienal de Itabaiana. Nem a sombra dos departamentos de letras... O saber acadêmico tem outras preocupações! Um detalhe: ninguém sente falta.

Acredito que o sucesso da Bienal de Itabaiana se deve, principalmente, ao indiscutível espírito comercial dos Itabaianenses. Uma gente que sabe comprar e vender. Uma gente que vende de ouro a castanha. Vender cultura fica fácil. Em outras palavras, o tino comercial de Honorino Júnior, Carlos Eloy e Jamyson Machado é o carro chefe da Bienal. Não é atoa que transferiram a Bienal para um Shopping Center.

A alma da bienal de Itabaiana é o espírito comercial da cidade. Não é fácil vender livros de autores locais, pouco conhecidos. Um Best Sellers nas livrarias de Aracaju vende cem exemplares. Na Bienal de Itabaiana os autores locais mais famosos chegam a vender seiscentos livros. A feira tem mais de duzentos escritores e quinhentos títulos.

Escritores, poetas, trovadores, cordelistas de toda a redondeza. Do alto Sertão ao baixo São Francisco. Do Raso da Catarina, Serra Negra e Uauá. Escritores das escolas municipais dos povoados e das academias de letras. Tudo gente daqui, sem fama, sem a divulgação de grandes editoras. Quase tudo local. Todos vendendo.

Um amigo, um intelectual cabuloso, me perguntou em tom de ironia: e a qualidade desses escritos? Eu cheguei à impaciência, que qualidade, o mercado está se lixando para esse preciosismo. Os critérios mudaram: o capitalismo absorveu a cultura, destruiu as fronteiras simbólicas entre a alta e a baixa cultura, a arte e o comercial, o espírito e o divertimento.

Uma escritora do povoado Cajazeira me ofereceu dois livros de poesias. Não comprei por somiticaria.

O sucesso da Bienal se deve também a disseminação das academias de letras pelo interior. Existem academias em todos os cantos. Isso incentivou a que todos escrevessem alguma coisa, perdeu-se a timidez. O sujeito se tornou imortal, entrou numa academia, por que não escrever alguma coisa? O relativismo cultural desinibiu os letrados. Os consumidores tornaram-se produtores de conteúdo.

Uma professora da rede municipal de Itabaiana me mostrou vaidosa o seu primeiro livro, ilustrado por um aluno. Um livro bonito. Parabéns, professora...

Com essa crise econômica, só quatro estabelecimentos prosperam em Sergipe: bodegas, vendendo bebidas alcoólicas; farmácias, vendendo medicamentos; igreja de crente, distribuindo fé; e academias de letras distribuindo cultura. A produção cultural é farta. A dificuldade é arrumar quem compre tantos livros, tirar o produto no mercado. A Bienal de Itabaiana resolveu essa pendência.

E por que outros municípios em Sergipe não realizam essas feiras culturais com sucesso, nem Aracaju? Perceberam, não é por falta de livros, nunca se escreveu tanto. O que falta é o espírito comercial. Vender! Com jeito e sabedoria vende-se de tudo.

Portanto, a minha conclusão, provisória, é que o sucesso da Bienal de Itabaiana deve-se sobretudo ao espírito comercial aguçado do seu povo.

Antônio Samarone.

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