A Solidão Voluntária (Parte I)

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 05 de Otubro, 2019


Peregrinando pelas redondezas do Raso da Catarina, conheci o Frei Romeu, um velho franciscano do Sertão da Bahia. Conversa vai, conversa vem, eu quis saber se a vida de frade era muito solitária. Ele me respondeu com uma conferência.

O Frei Romeu começou a conversa pela bíblia:

Logo após a criação, em pouco tempo, Deus identificou que não era bom que o homem vivesse só e lhe arrumou uma companhia. A solidão já nasceu malvista.

O homem da caverna vivia coletivamente, não era possível o isolamento, por uma questão de segurança. O homem não podia afastar-se da horda, do bando, do clã, da tribo, da aldeia. Nem os deuses estavam só, viviam no Olimpo.

A solidão era própria dos mitos e dos heróis. O indivíduo é efêmero, só o coletivo possui permanência e estabilidade. O filosofo grego era um homem da praça pública. Para Aristóteles o homem é um animal social e político.

A solidão não era bem vista nem pelo paganismo, nem pelo antigo testamento. Em Roma a solidão era a punição por um crime: o exilium...

A solidão só ganhou prestígio com o cristianismo. Eu sou um eremita, adoro a solidão, disse-me o velho frade cheio de fé.

E continuou:

Sou devoto de João Batista, um eremita adorado. João se vestia com peles de camelos, com um cinto de couro em volta dos rins e alimentava-se de gafanhotos e mel selvagem. Jesus era atraído pelo deserto, e se isolou por 40 dias, onde foi tentado pelo Satanás. Sempre rezava sozinho.

A partir do século III era comum a procura da vida no isolamento do deserto. Uma leva de eremitas e anacoretas vagavam penitentes. Monges do deserto passaram a atrair multidões. Hoje é diferente, eu vivo quase só.

A igreja sempre desconfiou desses solitários, e por isso estimulou a criação da vida monástica. Levar a vida ascética, afastada, mas não sozinhos. Criou-se os mosteiros e a ordens religiosas. Uma solidão sob vigilância.

A grande doença dos eremitas é a acídia, talvez o que chamamos hoje de depressão. O solitário obcecado pela acídia fixa os olhos na janela e a sua imaginação lhe pinta um visitante fictício; uma ranger da porta o faz saltar; ouvindo vozes; prostrado, com uma tristeza irracional.

A partir do século V, a Igreja começou a condenar as pessoas a exclusão da vida comum dos cristão. Surge e excomunhão. A solidão involuntária. A sansão era reservada aos Bispos. O excomungado era rejeitado pela comunidade dos vivos e dos mortos, ele perdia até o direito a uma sepultura sagrada.

Outros foram excluídos por sentenças judiciárias. Os prisioneiros confinados nas masmorras e calabouços, numa solidão até a morte. Apesar do esvaziamento das prisões na idade média. Havia a preferência por outras penas: mutilações, marcas com ferro em brasa, fogueira, forca, esquartejamento, decapitação.

Por volta do Século XV, com o renascimento, surgiu a solidão humanista. Petrarca publicou “De vita solitária”, uma apologia a solidão. “A multidão urbana é um rebanho depravado, a vida rural é sadia e virtuosa”, escreve ele. A solidão humanista era opção de intelectuais ricos. Era o nascimento do individualismo.

A Reforma Protestante reforçou as bases do individualismo. Cada crente passou a se considerar um eleito.

O Frei Romeu é um homem culto, antes de assumir a vida religiosa foi professor de filosofia em Bucareste. Ele é de família ucraniana.

E continuou:

A biblioteca de Montaigne, no andar superior de uma torre do seu castelo, era um santuário, um lugar elevado da solidão humana, onde ele penetrava com uma alegria não dissimulada. A solidão era um luxo.

Com o humanismo, a Renascença e a Reforma a solidão passou a ser vista positivamente. Os aspectos penitencial e ascético foram substituídos pela visão reconfortante e voluntária.

Era a ascensão do individualismo.

Depois eu conto o resto da conversa com o Frei Romeu.

Antônio Samarone.

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