O Fim do Sono.

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 10 de Otubro, 2019 - Atualizado em 10 de Otubro, 2019


A celebre frase de John Lennon, “o sonho não acabou”, perdeu a validade?

A vida cotidiana está se rompendo. Os incansáveis esforços da ideologia neoliberal em criar mercado a partir de qualquer coisa está avançando. Agora é a vez do sono...

Ivo Antônio (51 anos) é químico. Desempregado. Trabalhou muito tempo numa empresa terceirizada. Sempre foi sindicalizado, combativo, sempre brigou por seus direitos trabalhistas. Nunca abriu mão de nada.

Ficou três anos desempregado, fazendo bico. Vivendo com o salário da mulher, professora da rede municipal de Laranjeiras. Os dois filhos, casados, passaram a ajudar em casa.

Ivo Antônio desabou, viu a sua dignidade ir de águas abaixo. Bateu uma tristeza profunda. Só dormia com tarja preta. Pensou seriamente em suicídio.

Ontem chamei um Uber para ir à UFS. Uma surpresa, Pedro Ivo era o motorista. Depois dos salamaleques de práxis, começamos um papo. E aí, meu amigo, tá gostando de trabalhar na Uber?

"Muito! Deixei de ser trabalhador, virei empresário de mim mesmo. Estou na batalha 14 horas por dia, mas satisfeito. Não tenho patrão. Ninguém manda em mim. Transformei a insônia em trabalho. Estou superando a barreira do sono, para aproveitar integralmente o tempo para ganhar dinheiro."

Eu não aguentei: o que as granjas fazem com os pintos?

Ele reagiu: “você continua comunista? A disponibilidade para consumir, trabalhar, compartilhar, responder, curtir, 24 horas por dia, 7 dias por semana, pode ser a salvação da economia.”

"Já existem pesquisas científicas buscando a fórmula para criar o homem sem sono. Embora o sono não possa ser completamente eliminado, pode ser profundamente atingido. Será a última fronteira a ser ultrapassada pela ação do mercado, disse-me ele."

Pedro Ivo está mudado, perdeu a esperança no próximo, na utopia de uma sociedade mais justa, e me revelou convicto: “votei em Bolsonaro e não estou arrependido. Só o individuo existe, é cada um por si. Quando eu estava desempregado os companheiros desapareceram. Nem telefonema recebia."

Misericórdia!

Fiquei pensando, o capitalismo pôs moderno está empurrando a humanidade para uma aventura. Uma sociedade do cansaço da alma, da falta de esperança, onde o hiper consumo é o único caminho para a felicidade.

Eu conhecia estudos sobre o sono como formas mais eficazes de tortura e sobre a criação de um estado de vigilância mais duradouro, restritos ao campo das técnicas militares. Hoje querem atingir o sono dos trabalhadores e dos consumidores. Não sabia.

O fim da importância do universo onírico do sono, ameaçado pelas visões atuais que “tratam o sono e sonho como um mero ajuste da sobrecarga da vigília”.

Tudo vira um ativo rentável. O sono (ou a sua falta), já é rentável para a indústria farmacêutica. Agora vai ser monitorado para gerar lucro, mais valia. O sono está sendo estudado, classificado, medido, rastreado, medicalizado a fim de aproveitá-lo ao máximo no menor tempo possível.

Antônio Samarone.

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