A Solidão dos Sacerdotes

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 15 de Otubro, 2019

Encontrei com um velho amigo, sacerdote da igreja católica. Após os cumprimentos, ele não perdeu tempo: que bom que o senhor é médico, estou precisando de uma receita de Rivotril, com urgência.

Senti a dependência!

Respondi que não exercia a clínica psiquiátrica e que nem receituário eu possuía. Perguntei: por que o senhor não procura o seu médico? “Que médico, ele respondeu. É difícil uma consulta psiquiátrica pelo SUS.” Entranhei, achava que a igreja tinha um plano de saúde para os padres pobres.

Percebi que o sacerdote, já idoso, padecia de um transtorno neurológico, um leve tremor nas mãos e cabeça. Me disse que morava só, numa casinha nos fundos da Paróquia e que também sofria de diabetes.

O padre acrescentou que vivia franciscanamente, comendo de marmita popular, duas vezes ao dia. Uma vida de penitência. A paroquia dele é pobre e o que arrecada é muito pouco.

A padre padece de uma depressão profunda, visível, só dorme com tarja preta. Ainda não apelou para o suicídio, pelo temor de Deus. O sofrimento mental não poupa nem o baixo, nem o alto clero.

A demência é democrática.

O meu amigo se mostrou temeroso pelo futuro. Não tem família por aqui, nem ninguém para cuidar dele. Daqui a pouco começará a perder a autonomia e, Deus me perdoe, as demências não livram nem as ovelhas, nem os pastores.

Não é da minha conta, mas vou dizer: a igreja deveria prestar mais atenção para o sofrimento mental dos seus sacerdotes. Casos de depressão e ansiedade são frequentes. Deveria pensar também em criar uma instituição para receber os padres idosos, no final da vida. Eles não possuem filhos, e a imensa maioria não acumulou cabedal, para pagar aos médicos e cuidadores.

Antônio Samarone.

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