Os Avanços da Medicina...

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 16 de Otubro, 2019



O amigo Leonardo (76 anos) é chegado a novidades. Ele não abre mão de praticar “stand up” e pitar marijuana com regularidade, extravagancias raras em sua idade. Só que dessa vez ele exagerou.

Ignorando os meus conselhos, Leonardo resolveu fazer um check-up completo, de ponta a cabeça. Sem dificuldades, a ciência médica diagnosticou que ele levava uma vida desregrada. Uma constatação óbvia!

O doutor, recém-chegado de uma atualização nos USA, indicou a monitoração permanente dos sinais vitais e dos indicadores biológicos de Leonardo. A tecnologia tomou conta da medicina, para o bem da humanidade.

Leonardo me apareceu com um discreto equipamento no pulso, parecendo um relógio futurista, que acompanha o funcionamento do corpo do abençoado, e repassa os dados on-line para um aplicativo instalado no celular.

O equipamento mede a glicemia, o colesterol, o PH do sangue, conta os glóbulos brancos, hemácias e plaquetas, conta os passos, os peidos, mede a pressão arterial, a temperatura, os batimento cardíacos, o ritmo da respiração, as vezes que se come, se senta e se alevanta, as horas de sono, os cochilos, os arrotos, o cuspe, as lagrimas, indica a sovaqueira, o bafo, o chulé, a água que bebe, o mijo, o volume, cor e cheiro da bosta.

A cada 45 minutos o equipamento faz um eletrocardiograma, automaticamente, e envia o resultado, com o devido laudo médico, para o prontuário eletrônico do cristão, que está guardado nas nuvens. Durante a noite o sono é analisado e anotado no mesmo local. Nada escapa do controle. Ninguém morre mais por causa desconhecida.

Leonardo perdeu o sossego, mas está se sentindo mais seguro. O problema é que não é só medir, quantificar, não, esses vários indicadores possuem metas a serem cumpridas. Por exemplo, o meu amigo não pode andar menos de 12 mil passos por dia, soltar menos de 21 peidos, comer mais de 70 gr. de carne, cagar mais de 650 gramas por dia, manter a glicemia acima de 100, e assim por diante.

A ciência médica perdeu os limites no zelo, cuida de tudo.

A alimentação de Leonardo hoje é toda regulada, com parâmetros científicos rígidos. Dependendo da análise bioquímica do meio interno, do volume de fezes processada, o aplicativo calcula automaticamente a quantidade e o que ele pode ou não comer em cada refeição. É a inteligência artificial, que ninguém é doido desobedecer.

Leonardo continuou com o senso de humor aguçado: pelo menos arrumei o que fazer, disse ele.

A cada 15 dias, Leonardo precisa voltar ao médico, para conferir se as metas foram alcançadas. Nessa ocasião é emitido um relatório minucioso, que será arquivado nas nuvens, “In saecula saeculorum”.

O equipamento é programado para funcionar além do último suspiro. Informa quando começa a decomposição, a putrefação orgânica. Regula a duração do velório, a hora do enterro e ainda registra nominalmente todos os que compareceram. O equipamento tem garantias, até o infeliz se tornar esqueleto.

Antônio Samarone.

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