A Missa do Galo.

Por Antônio Samarone

Antonio Samarone, 19 de Dezembro, 2019 - Atualizado em 19 de Dezembro, 2019


Deixei de ficar ansioso quando não tenho soluções para o que me incomoda. Naturalizei a impotência. Parece que o mundo só muda quando quer, tem as suas vontades e os seus caprichos. Quando menos se espera, ele já está de outro jeito.

A noite de natal cristã foi fixada em 25 de dezembro, pelo Papa Júlio I, no século IV. De lá para cá muita coisa mudou. Hoje, os comerciantes tomaram conta. O natal virou uma estratégia para aquecer as vendas.

O paganismo comemorava o Sol, em 25 dezembro.

Onde estão os presépios? Na infância, eu visitava o devoto presépio de seu Jaconias, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Ficava num canto da sala de visitas. A gente via da calçada, pela porta da rua que ficava aberta, protegida por uma grade de madeira, daquelas baixinhas. Lembro-me dos bois, carneiros e camelos de barro, todos bem feitos.

Ontem fui bater perna, e só vi Papais Noéis em portas de lojas, tudo triste. Na verdade, eu nunca gostei desse espantalho. Não vejo nem graça, nem sentido. Me encanto com os Reis Magos (Melchior, Gaspar e Baltazar), três malucos carregados de ouro, incenso e mirra, rodando o mundo procurando um menino.

Ainda comemoro o dia 06 de Janeiro.

Nunca soube o que era “mirra”, minha mãe achava que era prata...

Outra esquisitice são essas as arvores-de-natal, pinheirinhos de plástico cheios de bolinhas de vidro coloridas e reluzentes, cobertas com pisca-piscas. Não faço a menor ideia nem quem inventou, nem o que simbolizam. Nenhuma expressão religiosa. Me disseram que é um enfeite decorativo.

Como os presépios acabaram, a classe média bota os presentes ao lado dessas arvores-de-natal, para a distribuição no jantar da véspera, onde o peru e o panetone são consumidos sem entusiasmo. Sem contar a neurose de quem está acima do peso.

Até um presépio que a Prefeitura montava na Sementeira acabou.

Natal era um dia de festas. Todos vestiam roupas novas. A gente ficava na festinha esperando tocar meia-noite. A missa do galo era sagrada, até os crentes assistiam. Diziam que um galo cantou alto, a meia noite, no dia que Jesus nasceu.

Depois da missa, quem podia, ia nas barracas da festinha comer arroz com galinha.

Como não existem mais galos, todos morrem frangos, e mesmo que sobrem alguns, não ouvimos mais o seu canto. Acabaram com a missa do galo. No Natal tem outras missas, várias, menos a missa do galo. Parece que só o Papa ainda reza a missa do galo no Vaticano, e os saudosistas podem assistir pela televisão.

Se alguém souber de uma missa do galo na Arquidiocese de Aracaju, meia-noite, me avise.

O comércio reduziu o Natal a LED e pisca-piscas. Em protesto, não vou às compras. Por mim, as bugigangas vão sobrar nas prateleiras.

Viva o Natal Cristão.

Antônio Samarone.

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