O Ouro Branco. (por Antônio Samarone)

Antonio Samarone, 31 de Janeiro, 2020

1949, o cirurgião francês Henri Laborit usou a clorpromazina para reduzir as reações dos pacientes durante as grandes cirurgias. Laborit percebeu que quando usava doses elevadas os pacientes ficavam apáticos, indiferentes e continuavam assim após a cirurgia.

Laborit convenceu a um amigo psiquiatra a usar a clorpromazina em pacientes psicóticos. Em 1952, a clorpromazina foi usada em altas doses, via intravenosa, em um paciente psicótico agitado. O paciente sossegou e permaneceu calmo. A droga começou a reduzir a intensidade dos sintomas psicóticos e o paciente voltou à normalidade. Era quase um milagre.

A companhia farmacêutica GlaxoSmithKleine licenciou a clorpromazina e o seu faturamento triplicou em dez anos. Estava descoberto, por acaso, o primeiro medicamento eficaz contra os sintomas da esquizofrenia.

Houve uma correria das indústrias para descobrirem novos medicamentos. Em 1958, a Geigy lançou no mercado a imipramina, o primeiro tratamento eficaz contra a depressão.

Os psicotrópicos entraram em ação nas doenças mentais. Faltava um medicamento para as manias, para o transtorno bipolar.

John Cade, um médico obscuro do exército australiano, impressionado com o comportamento enlouquecido de vários soldados em decorrência da guerra, passou a estudar o assunto. Eles tremiam, gritavam e balbuciavam palavras sem sentido. John Cade achou semelhante aos sintomas da mania.

Retornando a Melbourne, John Cade achou que a mania era causada pelo o ácido úrico que se acumulava no cérebro, e que precisava usar alguma substância que neutralizasse o mesmo. O solvente escolhido foi o carbonato de lítio.

A suposição que a mania era causada pelo ácido úrico estava errada e o lítio, um metal ferroso da primeira coluna da tabela periódica, ao lado do sódio e do potássio, não se sabe até hoje como atua no organismo. Ou seja, uma experiencia destinada ao fracasso.

Porém, um resultado inesperado: o lítio mostrou-se excepcional estabilizador do humor, eficaz no tratamento do transtorno bipolar e usado com sucesso até hoje. Mesmo sem muito interesse da indústria farmacêutico. O lítio não tem patente e ainda é barato.

Em outras palavras, na medicina as vezes as coisas funcionam, mesmo sem se saber como. Sobretudo na psiquiatria.

Entretanto, a importância do milagroso lítio começou a mudar por outra razão.

O lítio tornou-se o ouro branco. Ele é o principal componente usado na fabricação de baterias. Um smartphone usa cerca de 3 gramas de lítio e um carro elétrico 20 quilos. A demanda anual por lítio deve atingir um milhão de toneladas.

Em 2025, todos os carros da China serão elétricos.

A Bolívia possui a maior jazida de lítio do mundo, em seu deserto salgado Salar de Uyuni (foto). A Bolívia é a Arábia Saudita do lítio.

Vamos entender por que derrubaram o Evo Morales?

Estava em andamento a construção da cadeia produtiva do lítio. Ao invés de exportar o lítio como matéria prima, Evo Morales sonhou em exportar as baterias.

A direita boliviana, apoiada pelo imperialismo, pelo mercado, pela OEA, deu um golpe e derrubou o índio.

Antônio Samarone.

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