As Grandes Muralhas... (Por Antônio Samarone)

Antonio Samarone, 17 de Fevereiro, 2020

Em meados do século XX, Itabaiana era uma cidade de camponeses, artesões e negociantes. Com a chegada da BR - 235 e do Colégio Murilo Braga, emergiram os caminhoneiros e os intelectuais. A cidade se desenvolveu, veio a riqueza.

Nesse primeiro período, havia uma acentuada igualdade: nem éramos muito ricos, nem muito pobres. A terra era bem dividida, o dinheiro também. A cidade era urbanisticamente misturada. O Beco Novo, onde moravam os pobres, terminava na Praça da Igreja, onde moravam os ricos.

Ricos, remediados e pobres, na hora das brincadeiras de prender e soltar, “pé em barra”, das peladas de futebol, dos banhos nos tanques, de roubar manga, íamos todos juntos, ou quase juntos. As festas eram as mesmas. Santo Antônio era dos pobres, mas também protegia os ricos. Todos torcíamos pelo Itabaiana.

Itabaiana cresceu, os ricos aumentaram e os pobres também. O talentoso Melcíades (o nosso Gaudí), criou uma arquitetura típica, um novo estilo urbano. Os ricos construíram o bairro Morumbi. Já não éramos mais a misturada comuna primitiva.

Recentemente, um criativo empresário segregou ricos de pobres, criou grandes condomínios. Dividiu a cidade com grandes muralhas. Muito muro, cerca elétrica e guardas. “Cada macaco em seu galho”, dizem os entusiastas dessa Itabaiana. Hoje uma parte da cidade está cercada!

Urbanisticamente, somos duas Itabaianas. Uma dentro dos muros e outra fora. A Itabaiana de dentro, pode circular livremente pela de fora. Mas a Itabaiana de fora, para circular nos condomínios cercados, precisa se identificar na portaria, dizer o que vai fazer, quem vai visitar e receber o sinal verde.

Não estou fazendo juízo de valor, apenas descrevendo uma realidade.

Dirão os mais apressados: “Mas esse apartheid não foi inventado em Itabaiana”.

Eu sei!

Ocorre em Itabaiana que, o idealizador das “grandes muralhas” quer ser Prefeito, será candidato e deve apresentar “propostas” para a Itabaiana do futuro. É o que se espera.

Todos dentro dos muros? Cercar tudo, como nas cidades medievais?

Eu não sei. Prefiro aguardar!

Que Itabaiana queremos construir e para quem? É essa a minha curiosidade.

Antônio Samarone.

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