A Solidão das Quarentenas. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 30 de Abril, 2020 - Atualizado em 30 de Abril, 2020

 


Telefonei para uma amiga, professora aposentada da UFS, para ter notícias sobre o seu isolamento. Ela mora só, num bairro de classe média em Aracaju.

Tomei um susto com sofrimento da professora. Lembrei-me de um verso de Alceu Valença: “A solidão é fera a solidão devora/ É amiga das horas prima irmã do tempo...”

Samarone, estou muito triste, disse-me ela, ansiosa, não consigo dormir direito, e com muita saudade dele, que não sei por onde anda. “Ele”, era o marido, que morreu há um certo tempo.

Estou angustiada! Enfatizou a professora. Todas as vezes que assisto ao Jornal Nacional, entro em pânico. Tanta morte, tanto defunto, tanto caixão, fico em dúvida se não estou sonhando.

Continuou a professora:

Sozinha, meio esquecida, passo os dias sem receber um telefonema de ninguém. Me esqueceram? Você sabe, a minha família não é daqui. Só tenho um irmão vivo, que mora em Barbacena. Ele é psiquiatra. De vez em quando ainda me telefona.

A minha salvação é Zefinha, que trabalha comigo a 30 anos. Ela faz de tudo. Compra a comida, os remédios, toma conta do meu dinheiro. A minha sorte é que ela não tem medo do coronavírus. Diz que tem o corpo fechado.

Eu sei que é superstição, mas fico calada por conveniência. Já pensou se ela também resolvesse se isolar? Eu ia para onde? Quem ia receber uma idosa, quase surda, cheia de reumatismos, e enjoada.

O que é isso professora, você sempre foi alegre e inteligente. O xodó dos alunos.

Não me fale em alunos, nenhum mal assombrado se lembra mais de mim. Pensei calado, é verdade!

O coração começou a ficar apertado com a minha impotência. O que fazer? Como ajudá-la? Fiquei imaginando, quantos idosos não estão passando por isso nesse momento.

A vida continua bela e surpreendente.

Eu sem saber como ajudá-la, e foi ela quem me ofereceu ajuda: você vai ser candidato esse ano? Tomei um susto! Não sei, a política está nebulosa. Ela continuou, me decepcionei muito com a política, não ia mais votar, mas se você for candidato, conte comigo.

Claro, eu sei que ela pode ter dito isso só por gentiliza. Mas foi exatamente a gentiliza dela que me comoveu. Ela quis encontrar um jeito de me agradar, o voto foi um pretexto. Mesmo em apuros, ela continua solidária com os amigos.

A natureza humana é insondável.

Enceramos a conversa e fique a pensar. Como a Peste é devastadora. Além das desgraças que passam na televisão, das dificuldades econômicas de muita gente, da profunda dor dos que perdem familiares e amigos, sepultados às pressas, sem a menor chance de despedidas.

Além de tudo isso.

Existem os sofrimentos anônimos, solitários, invisíveis, vividos na intimidade de cada um. Me comove a solidão e o abandono dos velhos. Não é apenas uma questão da carência material. A professora tem uma boa aposentadoria. Mas lhe falta o carinho, a atenção e a solidariedade dos amigos.

Me apavora o sofrimento emocional dos contaminados graves. Dos que precisam das UTIs. Qual a assistência espiritual e emocional que esses contaminados, que estão nas ante sala da morte, estão recebendo?

E os que estão morrendo em casa, nos asilos, nas casas de repousos?

Qual o sofrimento dos profissionais de saúde, dedicados, correndo riscos, muitas vezes impotentes. Assisto emocionado as manifestações de júbilo quando alguém escapa, e recebe alta.

A peste é muito mais que o desmantelamento da economia.

Antonio Samarone.

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