A Pandemia e as desigualdades em Sergipe. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 09 de Maio, 2020

A Peste chegou apressada à Sergipe. Avança velozmente sobre as pessoas. Ontem (08/05) chegamos a 1.438 casos e 28 óbitos. A doença triplicou em Sergipe, nos últimos oito dias.

Chama a atenção a fragilidade do SUS. A Rede Pública dispõe de apenas 46 leitos de UTI para atender a 85% da população, já a rede privada, que cobre apenas 15% da população em Sergipe, possui 54 leitos de UTI.

Sergipe é um Estado pobre, apenas 15% da população possui Planos de Saúde. A UNIMED é a maior operadora, com 107 mil clientes. Já os Seguros Saúde, uma modalidade de cobertura mais cara, beneficia somente a 29 mil sergipanos.

A imensa maioria dessa pessoas, 317 mil sergipanos cobertos com Planos de Saúde, com acesso a rede privada, está isolada, bem protegida, e dispõem dos 54 leitos de UTI da rede privada.

O coronavírus atinge a todos, é verdade, só que de forma profundamente desigual.

A tragédia está desabando sobre os mais pobres.

A realidade é que temos um milhão e novecentos mil sergipanos que usam o SUS, quase indefesos, sujeitos ao ataque traiçoeiro do coronavírus, na linha de tiro da pandemia. Aflitos, pois só existem 46 leitos de UTI para atendê-los.

Um resumo da desigualdade, no atendimento às vítimas da Peste:

Trezentos e dezessete mil sergipanos dispõem de 54 leitos de UTI e um milhão e novecentos mil dispõem de apenas 46 leitos. Fizeram a conta? Uma parte da população tem um leito de UTI para cada 5.800 pessoas; e a outra parte, tem um leito de UTI para cada 41.300 pessoas.

Esse é um ponto que precisa mudar no pós Pandemia.

O risco das pessoas isoladas em condomínios é insignificante, comparado com o risco das pessoas que necessitam enfrentar as criminosas filas da Caixa Econômica para receber o abono de 600 reais.

A desproporção dos riscos não é somente entre jovens e idosos, mas sobretudo, entre ricos e pobres. No estado de São Paulo, 38% das vítimas fatais que não apresentavam comorbidades e tinham menos de 60 anos. No Brasil, os mais jovens representam 22% das mortes.

Eu desconheço estudos sobre a mortalidade da Pandemia no Brasil, por classe social e renda. A relação da pandemia com o social está sendo ignorada pelos pesquisadores.

Segundo pesquisadores da UFS, a rede de saúde em Sergipe será saturada, e entrará em colapso na próxima semana. Ou seja, teremos gente precisando de UTI, sem leitos disponíveis. Essas pessoas morrerão em casa ou nos corredores das Unidades de Saúde.

Se existe a previsão dos pesquisadores da UFS, se as evidências apontam que a desgraça está a caminho, porque não tomamos providências antes. Vamos criar leitos públicos de UTI. O que estamos esperando?

Não estou dizendo que é fácil. Faltam equipamentos e profissionais preparados em emergências. Os intensivistas são poucos. Não é fácil formar equipes qualificadas às pressas, de última hora, diante de um quadro de desproteção. Muitos profissionais já morreram ou estão contaminados por falta de proteção adequada. Isso é fato!

O inadmissível é cruzar os braços e esperar a desgraça.

Não quero condenar as autoridades por incompetência, nem as absolver por impotência, seria apressado e não ajudaria. A hora é de somação e de solidariedade.

Antonio Samarone.

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