A Torre de Babel. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 16 de Maio, 2020 - Atualizado em 16 de Maio, 2020

 

Na história bíblica, os homens resolveram construir na Babilônia uma Torre, para atingir o céu e alcançar os deuses. Javé, incomodado com o orgulho humano, decidiu confundir a sua linguagem, para que eles deixassem de se entender uns com os outros. A construção da Torre ficou impossível.

A metáfora bíblica está se realizando agora. A individualização exacerbada, a atomização dos indivíduos, o fim das raízes sócio culturais, a desagregação humana, estão levando a um isolamento mental absoluto. A quarentena e o isolamento social da Pandemia agravaram essa tendência.

Babel, quer dizer confusão. Dizia Voltaire: “os arquitetos foram confundidos após terem erguido sua obra até oitenta e um mil pés judeus”.

Ninguém entende ninguém e vice-versa.

Não existem nem referências, nem tradutores. Entre as luzes e as trevas, domina uma neblina densa, onde todos os gatos são pardos. A mediocridade venceu, como dizia Nelson Rodrigues, “eles são muitos”.

Assisti a um debate sobre a Pandemia, onde um professor renomado relatava as conclusões de um trabalho científico da Universidade de Princeton e foi interrompido por um colega médico, discordando da tese, com um argumento inusitado: “duvido que esses cientistas já tenham colocado a mão na barriga de um paciente”.

Tudo gente teórica, esbravejou o médico!

O doutor querelante usava a seu favor, trinta anos “botando” a mão na barriga dos pacientes no Hospital de Cirurgia. A mão na barriga, foi um argumento que tornou o seu ponto de vista imbatível.

O doutor passou a ser visto com espanto e admiração social. Criou coragem e passou a postar a sua verdade na Internet. “Trinta anos botando a mão na barriga dos pacientes”, lhe concedeu legitimidade para comprovar qualquer absurdo.”

As religiões foram contestadas pelo iluminismo, as ciências pelo empirismo prático, ressentido e arrogante.

Tenho recebido centenas de vídeos, textos, imagens de médicos guiados por sua intuição, contestando tudo, todo o conhecimento produzido pelo método científico. E defendendo condutas salvadoras.

Muitos doutores asseguram a verdade do seu pensamento, citando pesquisas, todas científicas, e algumas postadas em revistas especializadas. Babel também chegou para os cientistas. Qualquer esquisitice encontrará seguidores e comprovação científica.

Hoje, pode-se mentir, inventar estórias, versões sobre qualquer coisa, sem correr o risco de um desmentido humilhante. Em especial sobre uma doença, que se reconhece como desconhecida, como é o caso da Covid – 19.

Não! Esse risco do desmentido não existe. O mentiroso não terá dificuldades em encontrar uma pesquisa, publicada em alguma revista ou portal do mundo, comprovando a asneira que ele acredita.

É o fim das narrativas coletivas, das ideologias universalizantes e das utopias salvadoras.

Em que acreditar?

O pensamento alcançou uma fragmentação extrema, onde cada um cria o seu mundo, professa as suas crenças e conduz o seu destino.

As utopias foram individualizadas. Na esfera privada, cada um realiza a seu sonho como pode. Todos originais e únicos.

Um ditado popular em minha infância, dizia que “cada cabeça era um mundo”. Isso se tornou realidade. O mundo ficou chato. Um diálogo de surdos. Ninguém quer ouvir ninguém e se ouvir não entende.

As interpretações, as visões, as crenças, as formas de enfrentamento dessa Pandemia, demonstram esse fim do entendimento humano. Uma nova e definitiva Babel.

Li no Jornal espanhol, El País, que na Alemanha, uma multidão de pessoas heterogêneas e irritadas, saiu às ruas para protestar contra a ditadura do Corona, se consideram vítimas das elites globais, que estariam utilizando a irrupção de um novo vírus, como pretexto para enriquecer e reduzir as liberdades do povo.

Eu cheguei a ficar em dúvida: será se eles têm razão?

As redes sociais estão entupidas de fake news, porém rolam algumas verdades. Na grande mídia é tudo fake news! Mesmo quando eles estão divulgando um fato com imagens, as versões e as análises são sempre interessadas, sempre fake news.

Cada um fala para si próprio. Só acreditamos em nossas verdades. Quem estiver esperando melhorias, novos tempos, mudanças no pós pandemia, pode desistir. O que vem pela frente é muita confusão.

Não sei as razões, mas não tenho dúvidas que Javé voltou a confundir a linguagem humana. Na versão bíblica, Cristo veio para desfazer o mal entendido de Babel.

Temo, que dessa vez ninguém dê jeito!

Antonio Samarone.

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