Abandonem a arrogância! (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 31 de Maio, 2020


Os coordenadores políticos do combate a Pandemia em Sergipe, falharam! Não seguiram a ciência. Um Isolamento Social de “faz de conta” é mais lesivo que a imunização de rebanho. A livre circulação produziria resultados parecidos.

As ações preventivas em Sergipe foram uma encenação vazia.

O STF deu poderes aos Estados e Municípios sobre a pandemia, quebrando a Federação, e alguns fizeram besteiras.

É simples explicar as falhas em Sergipe:

O isolamento geral, acima de 70%, não funcionou; não existem testes para saber quem está contagiado e esses circulam livremente, e quando se consegue testar e identificar alguns positivos, o isolamento é feito nos domicílios e fiscalizados por telefone. Ou seja, só fica em casa, os que podem e tem consciência. Muito poucos!

A doença se espalhou em Aracaju livremente (600 casos por cem mil habitantes).

O isolamento social em Aracaju nunca chegou a 50%, menor que nos feriadões antigos, fora da Pandemia. Eles falharam! Bastava um pouco de humildade para reconhecerem.

E não falharam por falta de recursos. Li no “NE – notícias”:

“O Estado de Sergipe irá receber do Governo Federal, através do Programa Federativo de Enfrentamento ao Coronavírus para estados, Distrito Federal e municípios, R$ 400 mi, sendo que R$ 86 milhões para serem investidos na saúde pública e R$ 314 milhões para livre aplicação.”

Oitenta e seis milhões, só para combater o Coronavírus!

Falharam!

Claro, é a minha opinião! Não sou o dono da verdade. Hannah Arendt alertava sobre o risco de uma única verdade, pois qualquer verdade "necessariamente termina o movimento do pensamento".

Os Estados Unidos, o país mais poderoso do mundo também falhou. Desde que chegou à Casa Branca, o governo Trump foi informado de que uma pandemia dessa severidade era uma ameaça muito real. E nada fez!

Aracaju tem uma incidência da covid de 600,3 casos por cem mil habitantes, o triplo da média nacional. Um horror! A incidência na cidade de São Paulo, o epicentro da peste, é de 188,1 casos por cem mil habitantes. Existes suspeitas fundadas, que a mortalidade em Aracaju está sub notificada.

Os dados da Peste em Aracaju acusam: as medidas de prevenção não foram levadas a sério em Aracaju. Não funcionaram! Um fracasso absoluto! O combate à Peste em Aracaju foi uma peça do marketing político.

O Prefeito de Aracaju priorizou a continuidade das obras da Prefeitura, de olho no retorno eleitoral. Não impediu as aglomerações das filas da Caixa Econômica, fato decisivo para a disseminação da Peste em Aracaju.

O relator das Nações Unidas, Baskut Tuncak, decidiu ampliar suas investigações sobre o Brasil e incluir as respostas dos governos à covid-19 em seu informe que apontará para as violações de direitos humanos cometidas pelos governos ao não proteger sua população.

Eu peço que incluam Aracaju nessas investigações da ONU.

O medo é que o fracasso na prevenção se estenda para a assistência. Essas UTIs de última hora são respostas inadequadas, gambiarras sanitárias. UTI não se improvisa! Só cria ilusões!

O hospital da campanha de Aracaju, por enquanto, é mais uma peça de propaganda. Construíram um gripário, para atender casos leves. As necessidades são outras.

Eu sei, foram decisões tomadas às pressas. A Pandemia não esperava. O grave é não reconhecerem as falhas.

Falharam!

Não adianta gastar o dinheiro do combate a Pandemia com propaganda, dizendo o contrário.

Deixando de lado a doce província, com as suas mazelas, as suas vaidades e as suas arrogâncias.

Vamos adiante: tratar da Pandemia como uma crise da civilização. A grande reclusão deixará sequelas.

O meu inconsciente está se acostumando com a vida 'online', vivendo virtualmente defronte ao computador. Já comecei a duvidar da realidade. Caminhamos para a digitalização total da vida?

O medo da alienação, a necessidade urgente de sair do mundo virtual, me levou a leitura de “Ideias para adiar o fim do mundo”, de Airton Krenak. Ambientalista, líder indígena, que compartilha a sabedoria dos povos da Florestas.

Como bem analisou Eliane Brum:

“Os povos originais entendem o fim do mundo. Para aqueles que receberam a "visita" dos europeus, como diz ironicamente Krenak, o mundo terminou no século XVI. Estima-se que 95% dos povos indígenas foram exterminados por vírus e bactérias que atravessaram o oceano a bordo dos corpos dos invasores.”

“O pensamento que rejeita a centralidade do ser humano é geralmente visto como curiosidade, folclore ou até excentricidade. Povos indígenas de diferentes povos afirmaram, muito antes dos cientistas, que o céu poderia cair se os brancos continuassem a devorar o planeta.”

Concordo com Noam Chomsky: “Se não conseguirmos um ‘Green New Deal’, ocorrerá uma desgraça. Se não falarmos da causa dessa Pandemia, a próxima será inevitável e será pior, por culpa do aquecimento global”.

O vírus é literalmente uma mensagem, resta-nos saber decifrá-la.

Antonio Samarone.

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