Senhor Prefeito, com licença... (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 11 de Junho, 2020

“A Era na qual a humanidade se via impotente diante de epidemias naturais, provavelmente chegou ao fim”, foi a avaliação de Yuval Noah Harari em seu best-seller “Homo Deus”. Errou feio!

A Peste avança livremente no Brasil. Já matou 264 pessoas em Sergipe e o Brasil se aproxima dos 40.000 óbitos. Nesse ritmo, o Brasil passará os EUA em 29 de julho, onde chegaríamos a 137 mil óbitos.

Essa é a realidade apontada pelos dados estatísticos.

O isolamento social foi um recurso para retardar a marcha da doença, e retardou. Como já compraram os respiradores e leitos de UTI (meia boca) foram montados às pressas, as pessoas já podem morrer com um certo conforto.

Se existe UTI onde as pessoas possam morrer, as restrições a mobilidade geradas pelo confinamento podem ser suspensas. A vida econômica está voltando a funcionar. A tragédia, é que estamos voltando no escuro e desinformados.

A Saúde Pública não possui uma estratégia para iniciar o combate à doença nos pós confinamento. Nada foi pensado.

O Prefeito Edvaldo Nogueira repete mecanicamente um mantra: “fiquem em casa”, “fiquem em casa”, “fiquem em casa”, como se isso fosse uma panaceia. Acabou a fase de deslumbramento, onde ele sonhava em acabar a Peste por decreto.

Se o comercio, a indústria, as escolas, os salões de beleza vão abrir, como ficar em casa?

O senhor observou que nas regras da transição entre o confinamento e a abertura do comercio só existem obrigações para a sociedade. Como disse de forma impensada o Governador Belivaldo: “Já fizemos a nossa parte, cabe a população fazer a dela.”

Calma autoridades!

A população precisa fazer a sua parte, mas dentro de uma estratégia montada pela Saúde Pública. Quem coordena as ações, quem possui a logística, os recursos humanos qualificados é o Poder Público.

Por falar nisso, quais os caminhos que tomaremos enquanto a vacina não chega? Você estão pensando sobre isso, ou é só oba-oba. O que fazer no pós confinamento?

Excelências, é hora de trabalhar.

Sair um pouco dos holofotes das mídias. A Saúde Pública, que vocês comandam, precisa cair em campo, iniciar a sua atuação: testando, rastreando os casos, identificando os transmissores e fazendo o isolamento epidemiológico.

Só a rede básica do SUS tem cobertura e competência para realizar esse trabalho.

Vocês já pensaram em fortalecer o LACEN - Laboratório Central de Saúde Pública de Sergipe, contratar e treinar profissionais, melhorar a estrutura, comprar os kits para a testagem em massa? Já estão pensando em montar uma estratégia para iniciar esse trabalho?

Os senhores serão cobrados pela omissão.

Sei que esse trabalho é de pouca visibilidade política. Más, é esse o trabalho que funciona. Não trará a glória efêmera para os políticos.

O senhor não terá placa para descerrar, nem fitas para cortar, não terá foguetório, nem coletivas à imprensa. Entretanto, senhor Perfeito, a sociedade está precisando que os senhores cumpram as obrigações.

Quantas pessoas foram infectadas existem até hoje? Quantas permanecem susceptíveis? Como está ocorrendo a transmissão, quem continua transmitindo? Sem informações, só improvisando, jogando para a plateia, o senhor vai transformar o confinamento em medo.

Estamos criando uma sociedade do medo e da desconfiança, à espera de uma vacina salvadora. Edvaldo Nogueira, esse é o pior caminho. O que senhor pensa sobre isso?

Não quero fazer embate político. Não é a hora.

Mas, como médico sanitarista da velha escola da SUCAM, não posso calar diante de tanta omissão. Os caminhos da Saúde Pública para enfrentar as epidemias são conhecidos e funcionam. São caminhos testados.

Para facilitar o entendimento: a Saúde Pública do município precisa iniciar o trabalho de busca ativa dos casos, nos moldes propostos pelo Comitê Científico do Nordeste, por eles denominados como “Brigadas Emergenciais de Saúde”. Entendeu?

Outra coisa básica, elementar, não se enfrenta uma Pandemia sem o envolvimento da sociedade. A Busca ativa e o trabalho das Brigadas dependem da participação popular.

Edvaldo Nogueira, o senhor avaliou mal. Transformar o combate a Peste em plataforma eleitoral, foi um equívoco, que ainda pode ser consertado. O gestor público não se sustenta só com a astúcia.

Não gostaria de comentar a parte assistencial, não é a minha área. Mas o galpão armado no campo do Sergipe, que o senhor chama de Hospital da Campanha, para cuidar de casos leves, não parece uma boa opção técnica.

Existiam saídas bem melhores. Talvez o senhor tenha pensado mais em visibilidade.

Que Deus nos proteja!

Antonio Samarone.

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