Médicos e Loucos em Sergipe. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 22 de Junho, 2020 - Atualizado em 22 de Junho, 2020

 

No inicio do século XX, a medicina em Sergipe engatinhava. Poucos médicos conseguiam sobreviver somente de sua clínica. O Hospital Santa Isabel, único da Capital, foi transferido da rua Aurora (atual rua da Frente), pela completa precariedade das instalações, para o alto do Santo Antonio, onde funciona até hoje.

O Hospital Santa Isabel foi instalado num antigo Lazareto, construído por ocasião da epidemia de varíola de 1898.

A deficiência dos serviços médicos em Sergipe pode ser exemplificada com o episódio do falecimento (13/12/1907), durante o trabalho de parto, de Dona Capitolina Alves de Melo, segunda esposa do Desembargador Guilherme Campos, Governador do Estado.

O parto foi acompanhado pelos doutores Costa Pinto e Moreira Magalhães, que chegaram à conclusão, de que somente o procedimento cirúrgico (Cesariana) salvaria a paciente e, mesmo tendo sido sobre “operação cesariana” a tese de doutoramento do doutor Costa Pinto, o mesmo nunca tinha tido a oportunidade de realizá-la.

Em síntese, em Sergipe ainda não existiam condições para a realização de tal procedimento. Nenhum médico estava preparado para realizar uma cesariana, nem existiam instalações hospitalares adequadas. A esposa do governador, faleceu durante o parto, em palácio, por falta de uma cesariana.

A “loucura” do Dr. João Vieira Leite.

Outro exemplo tenebroso da nossa medicina no inicio do século XX, foi o tratamento da “loucura” do Dr. João Vieira Leite, médico e Governador de Sergipe, por poucos dias. Um história quase desconhecida.

O Dr. João Viera Leite é filho do Coronel Sisenando de Souza Vieira e D. Adelaide Leite Vieira, nascido no engenho São Félix, cidade de Santa Luzia do Itanhy, a 04 de setembro de 1867. Irmão do médio Dr. Berílio Leite, que fez história na estância.

Dr. João Vieira Leite colou grau em medicina pela Faculdade da Bahia, em 27 de outubro de 1890, defendendo a tese “Apreciação dos métodos operatórios gerais adotadas na operação cesariana”.

Em seu retorno à Sergipe, montou a sua clínica na praça da Matriz em Estância, sendo bastante aceito. Foi diretor e grande benfeitor do Hospital Amparo de Maria.

Entre seu retorno a Sergipe em 1890 e 1901, o Dr. João Vieira teve carreira meteórica como médico e como político. Um personagem destacado da vida sergipana.

Foi Intendente municipal em Estância (Prefeito), Deputado Estadual nas legislaturas 1894-95, 1896-97, Presidente da Assembléia Legislativa, e nessa condição, Governador de Sergipe por 44 dias, após a deposição de José Calazans (1894).

Até quando ocorreu uma grande tragédia: o Dr. João Vieira, ainda moço, com apenas 35 anos, começou a apresentar um comportamento “estranho”, “esquisito”, o que não demorou muito tempo para que a comunidade suspeitasse de que o facultativo estava ficando maluco. E nessa condição de louco, foi levado à força, pela família, para o Rio de Janeiro, em busca de tratamento.

O Dr. João Vieira resistiu a ida para o Rio de Janeiro. Não houve acordo. O ex Governador de Sergipe foi apeado numa camisa de força e, sob intensa violência, embarcado para a sua última viagem.

Durante a viagem, que durava de cinco a oito dias, o Dr. João Vieira foi enclausurado num apertado compartimento do “Vapor Manaus, da Cia. Esperança Marítima”, transformado em solitária. João Vieira reagiu a repressão insana.

Após muita violência, tortura física e mental, de bater-se insistentemente com cabeça nas paredes, de muita luta para liberta-se, muita automutilação. João Vieira, médico, governador de Sergipe, foi abatido pelas práticas psiquiátricas da época.

Em 21 de janeiro de 1902, nas proximidades do porto de Vitória, no Espírito Santo, antes de chegar ao seu destino no Rio de Janeiro, o Dr. João Vieira não resistiu aos sofrimentos e faleceu de forma absurda, resistindo à violência da internação e lutando por liberdade.

Dr. João Vieira Leite, um esquecido mártir da psiquiatria em Sergipe.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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