Em Sergipe, o Poder Público ajuda ou atrapalha na Pandemia? (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 27 de Junho, 2020

O Poder Público defronta-se com uma contradição: precisa retomar a economia, com a doença em crescimento. O governo não testa, não monitora, não isola os transmissores, não conhece as taxas de contágios, não identifica os focos, em suma, anda no escuro.

Sem informações, perdido, o Governo de Sergipe anda em zigue-zague. Não ata, nem desata.

Apresentou um “plano de reabertura das atividades econômicas” fictício, com protocolos inventados, sem nenhuma relação com a transmissão da doença. Eu sei, a doença é nova, desconhecida, mas não precisava tanta bobagem.

O governo fez um cronograma: a partir de tal dia pode-se cortar o cabelo, mais na frente está autorizado a se fazer a barba. Os restaurantes podem abrir com a metade das mesas, sem música ao vivo. As pedicures e manicures só em Shoppings. Comércio de Rua das 10 às 14 horas.

Passando a impressão que tudo isso foi estudado, avaliado por gente experiente, que conhece os segredos da Peste.

A lógica é simples, como o governo não faz testagem, não sabe, por exemplo, quantos músicos estão infectados e transmitindo a doença, proíbe-se a todos de trabalharem. Uma estupidez conveniente.

Ninguém reage, pensando que essas medidas são determinações científicas, sacrifícios necessários para evitarmos as mortes.

O “Plano” Atribuiu a cada etapa uma cor, por recomendação dos físicos. Legalizou esse besteirol por decretos, publicados no diário oficial. E a Imprensa encarregou-se da divulgação solene.

Como parte da encenação, o governo mobilizou as forças de segurança, para garantir o necessário cumprimento da Lei.

Salvos as recomendações óbvias, evitem aglomerações, usem máscaras e lavem as mãos, a maioria dos protocolos são exigências, restrições e rituais simbólicos, visam iludir a sociedade, acalmá-la, passar uma sensação de segurança.

Em cada esquina, as empresas colocarão funcionários medindo a temperatura do povo, com aqueles termômetros digitais, que aparecem na televisão. Fiquem tranquilos, o governo está zelando por vocês.

Enquanto isso as pessoas continuam morrendo nas enfermarias, sem acesso as UTI públicas.

O Governo mente, faz de conta!

Nesse momento, milhares de pessoas testadas positivas, estão em suas casas, acompanhadas por telefone, transmitindo a Peste livremente para familiares e vizinhos.

li na imprensa, que a prefeitura de Aracaju mandou, a partir de ontem, uma equipe de saúde para visitar esses infectados. Eu fiz duas perguntas básicas: essas equipes estão devidamente protegidas e equipadas para realizar testes em todos os comunicantes. A resposta foi negativa.

Sem testagem em massa, nada feito, não existe controle. Não se enfrenta a pandemia com decretos e propaganda. A sociedade está cansando. Não se engana a todos por muito tempo.

Um exemplo didático: um edifício com 48 apartamentos, todo mundo entra e sai pelos mesmos elevadores. Com o fim confinamento, se não houver testagem periódica, os moradores ficarão com medo uns dos outros. Todos passarão a ser suspeitos.

Como retornar as aulas sem testagem em massa de professores e alunos? Isso será necessário por muito tempo. A doença deixará de ser epidêmica, mas o vírus permanecerá entre nós, causando surtos localizados e, não havendo controle, podendo acontecer uma segunda rodada.

Nenhuma saída da Pandemia é viável sem a ampla participação da sociedade. Todos envolvidos, colaborando, repassando experiencias bem sucedidas. Procurando caminhos inteligentes de superação.

A transição será dolorosa e sofrida. As sequelas serão imensas para todos, mas em especial, para os idosos. A discriminação com os idosos será insuportável. Vamos reagir?

Respondendo à pergunta do título desse artigo: em Sergipe, o poder público atrapalha mais do que ajuda. Não tenho dúvidas! Precisamos revogar os poderes imperiais que delegamos a essa gente.

Trocamos a liberdade pela segurança, e ficamos sem as duas!

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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