O Medo da Peste! (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 29 de Junho, 2020

As três habilidades que todo mundo aprende cedo (dançar, nadar e andar de bicicleta), eu aprendi com muito sofrimento.

Os banhos de tanque e as redes de dormir foram as melhores heranças dos Tupinambás, e eu as herdei.

Aprendi a nadar no Açude Velho.

A molecada ficava no sangradouro, em cima do paredão, na parte mais funda. No centro do açude tinha uma pau fincado. Eu tinha medo, não sabia nadar. Certo dia alguém me empurrou.

Os meus pedidos de socorro, foram respondidos com gritos de incentivos: Vá para o pau! Vá para o pau! E eu fui. Bebi muita água, me salvei e aprendi a nadar.

Nadar é perder o medo da profundidade.

Aluguei uma Merck Suíça em Seu Firmino, e decidi: Hoje eu aprendo a andar de bicicleta. Fui procurar um amigo para me ensinar.

A turma não dava moleza. Peba se ofereceu: "Suba que eu seguro". Eu acreditei e ele me enganou. Escolheu uma rua de descida e me soltou de ladeira abaixo. Ainda deu um tanjo. Desbandeirei e estou andando até hoje, sem saber parar. Com muitas quedas e muitos arranhões.

O segredo foi perder o medo.

A dança é mais sofisticada. Eu não queria dançar conforme a música. O meu corpo nunca me obedeceu e tenho medo do ridículo. Por isso nunca aprendi.

Não ter podido dançar a valsa de formatura no Ginásio, criou uma barreira. Por não saber dançar me desinteressei pela música. Não tive uma educação musical. Nunca passei da zabumba das flechas.

Na dança, perder o medo não foi suficiente.

Esse arrodeio foi para chegar no grande medo da Peste. Tenho mais medo da Peste do que da morte.

A Peste é a morte sofrida, isolado numa UTI improvisada. O medo do contêiner onde vão jogar o meu caixão. O medo de virar um número, anunciado pela Rede Globo.

O medo da cloroquina e da ivermectina. O medo de ser cobaia de uma medicina bizantina.

O medo da indiferença, da falta de empatia, das explicações do Prefeito no Twitter: "morreu um idoso, gordo, diabético e encrenqueiro".

O medo de morrer em vão!

O medo da vala comum!

Antonio Samarone. (médico sanitarista)

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