Aracaju, um Paradoxo Sanitário. (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 05 de Agosto, 2020 - Atualizado em 05 de Agosto, 2020

 

Quando Inácio Barbosa resolveu transferir a capital de São Cristóvão para os alagados do Aracaju, não imaginou que estivesse se aproximando das Pestes.

O povoado Santo Antonio do Aracaju ficava na Colina, mas a cidade desceu para a baixada, às margens do Rio Sergipe. Baixada pantanosa, insalubre, infestada de miasmas, tomada pelas febres malignas, sezões e bexigas.

Aracaju não escolheu um sítio geográfico acolhedor. Tudo foi construído com muito trabalho. O desenho quadriculado de Pirro foi traçado no papel e os sergipanos o tornaram realidade.

A capital de Sergipe nasceu no furacão da sua maior tragédia sanitária. A cidade, fundada em março de 1855, recebeu o sopro maligno da Peste Asiática sete meses depois. A grande Pandemia de cólera “morbus” matou mais de trinta mil sergipanos.

O fundador de Aracaju, Inácio Barbosa, morreu de sezão braba, em 06 de outubro de 1855, aos 35 anos. A cidade devorou o seu criador.

O alerta foi decisivo: Aracaju necessitava aterrar os seus mangues, apicuns e pantanais. Precisava encontrar água para beber. Remexer dunas e areais, drenar braços de rios e aterrar lagoas.

Os casebres, ruas, avenidas, praças e parques, palácios, mercados, fábricas, quartéis e igrejas, tudo fora construído sobre os charcos.

O medo da Peste apressou o passo. A cidade brotou das trevas sanitárias. Esse primeiro aterramento foi pela vida e sobrevivência. Um enfrentamento à Peste.

A cidade aprendeu a conviver com a malária, varíola, febre tifoide, tifos e disenterias. No final do Dezenove, a tuberculose (Peste branca) surgiu altaneira.

Quando se achava que tudo ia bem, explodiu uma nova Peste: a Gripe Espanhola de 1918. Os sergipanos se juntaram ao governo e, num esforço conjunto, eliminaram o mal.

Os sergipanos eram escaldados por grandes desgraças sanitárias, sabiam então o que fazer.

Essa Peste de 1918, serviu de estímulo para se iniciar a construção dos serviços de saúde pública e hospitais. O Instituto Parreira Horta e o Hospital de Cirurgia foram os maiores exemplos.

Aracaju iniciou a construção da sua rede de esgoto sanitário, até hoje não concluída.

A luta dos sergipanos para tornar Aracaju uma cidade saudável, salubre e quem sabe, bela, continua. Tivemos a ajuda da Fundação Rockefeller, dos engenheiros, arquitetos, urbanistas, sanitaristas e políticos visionários.

O primeiro conjunto habitacional de Aracaju, o Agamenon Magalhães, foi construído por razões sanitárias, para retirar os pobres e as raparigas da Ilha das Cobras e do Curral do Bomfim. O favelamento de Aracaju foi sufocado.

Na década de 1950, apareceu em Aracaju um mosquito africano, de hábito domiciliar e que transmitia a malária. Foi um desespero. Desmanchamos o morro do Bonfim, drenamos as últimas lagoas, construímos os canais, ocupamos os mangues com aterros e jogamos a cidade por cima.

Como não existia limitações ambientais, jogamos merda nos rios, invadimos as suas margens, criamos uma capital bela e insalubre. Os aterros do fundo do Batistão, do entorno da igreja São José e da Coroa do meio já foram por ambições econômicas.

A Petrobrás chegou! Aracaju se transformou num Paraíso da especulação imobiliária.

A cidade foi privatizada. Voltou-se para os interesses econômicos do mercado de imóveis. A cidade perdeu a qualidade de vida. A prefeitura virou um escritório das construtoras. Até hoje!

No alvorecer do Século XXI (2020), recebemos a visita inesperada de uma nova Peste. Uma doença nova, desconhecida, um vírus agressivo, que se espalhou pelo mundo em poucos dias. Aracaju não estava preparada.

Nesse momento a doença continua fazendo o seu estrago. Mas vai passar!

Espero que no pós Pandemia, os sergipanos que resistirem, retomem a tarefa da construção de Aracaju. Concluam a obra de saneamento, despoluam os rios, construam parques, áreas verdes, humanizem a mobilidade, protejam as calçadas, os ciclistas e os pedestres. Preservem o patrimônio cultural.

Preservem o que sobrou dos manguezais, dunas e restingas.
No Século XIX. Quando Aracaju nasceu, o aterramento foi movido por razões sanitárias, uma luta contra os miasmas, em defesa da vida.

No Século XXI, os aterramentos são movidos pela ganância econômica, nocivos à saúde e à qualidade de vida.

Aracaju é um paradoxo sanitário. Para nascer precisou destruir o meio ambiente e para continuar vivendo precisa preservar o que restou da natureza.

A preservação do meio ambiente é principal questão do Aracaju. A sua principal prioridade.

Sei que é difícil enxergar essa realidade ambiental. Tem muita coisa imediata pela frente nos assustando e que precisam de respostas.

Insisto, Aracaju só se tornará uma cidade sustentável quando pudermos nadar no Rio Sergipe, na rua da frente. Quando os Rios Poxim, do Sal e Vaza Barris forem limpos. Quando se puder tomar banho no Riacho Tramandaí, no fundo do Batistão.

Aracaju no pós Pandemia, precisa acabar com o grande fedor da Praia Formosa!

A Peste da covid-19 trouxe essa mensagem ambiental. Aracaju fará a sua parte?

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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