Cem Mil Mortos! (por Antonio Samarone)

Antonio Samarone, 08 de Agosto, 2020 - Atualizado em 08 de Agosto, 2020

 

Tudo está voltando ao normal, independente dos ares pestilentos. A quantos mortos chegaremos? Não se sabe. A sociedade perdeu a empatia pelos que sofrem. Cada um contenta-se em ter escapado, até agora.

Os governos batem cabeça, centrados em livrarem-se da responsabilidade. Divulgam meias verdade, criando um otimismo exagerado. A máquina de propaganda massifica que o pior já passou e que uma vacina salvadora está a caminho.

A narrativa construída procura responsabilizar as vítimas. A Peste só continua porque as pessoas não fazem a sua parte: não usam máscaras, se aglomeram e não lavam as mãos. A saída é multar os infratores.

Mentira!

A sociedade não faz a sua parte, por faltar uma condução responsável do combate a Pandemia, por parte do Poder Público.

As máscaras quando não usadas adequadamente podem se transformar em veículo de transmissão da doença. As máscaras (EPI) e as máscaras cirúrgicas precisam de um descarte adequado. São materiais infectados.

As máscaras de pano protegem limitadamente e precisam ser higienizadas após o uso. As máscaras não devem ser manuseadas.

Nada disso é observado pelos gestores da pandemia. Aplicar multas nos desmascarados é uma medida pirotécnica, um faz de conta. Os políticos estão jogando para a plateia, com conivência dos meios de comunicação.

Os boletins oficiais divulgam o número de “curados”. Estamos na fase aguda da doença. Não se sabe quais as sequelas, quais as manifestações futuras da doença em sua fase crônica.

Os vírus podem permanecer em latência no organismo. Mesmo os que não tiveram sintomas agora, não estão livres de manifestações futuras. Como será a forma crônica da covid-19? Ainda não se sabe.

A hepatite C é uma doença viral que não se manifesta na fase aguda, os infectados são assintomáticos. Muito tempo depois vem a cirrose e câncer de fígado. As doenças são eventos complexos.

Os que se salvaram da forma aguda grave da covid-19, que ficaram muito tempo hospitalizados, vão precisar de assistência especializada por muito tempo. O que está sendo feito para isso em Sergipe?

As trombetas públicas anunciam uma vacina salvadora até dezembro. Uma bala de prata para matar o vampiro. Não é bem assim. Não se sabe ainda se haverá a formação de uma imunidade coletiva, seja pela doença, seja por vacinas. É o que diz a OMS.

É evidente que uma vacina eficaz vai ajudar, mas não vai erradicar a doença. Na história da medicina, só a varíola foi erradicada por uma vacina, depois de duzentos anos de uso.

Nada é levado a sério pelos gestores públicos e alguns ainda vão encher o bolso com a Peste.

Nenhuma providência de saúde pública foi tomada em Sergipe, para conter a transmissão da doença. Faltam testagem em massa, ações de vigilância, isolamento dos infectados, bloqueio dos casos, investigação dos contactantes, rastreamento e busca ativa.

Os boletins em Aracaju omitem os nomes das vítimas, numa manobra infame de naturalizar as mortes, transformá-las em números, em estatísticas. A ocultação das vítimas visa minimizar a empatia, esconder os mortos, numa atitude nojenta e vil.

Muitas mortes seriam evitáveis. Uns morreram da Peste, outros da irresponsabilidade dos políticos. Espero que depois da tempestade, uma comissão da verdade seja criada para apurar esses crimes.

Além das mortes, muitas vidas estão sendo destruídas.

Estou com uma profunda sensação de impotência, de omissão, de vergonha, de acomodação. Não sei como reagir a indignidade que está sendo cometida pelos governantes.

Não é só Bolsonaro. Muitos governadores e prefeitos não assumiram as suas responsabilidades.

O Brasil marcha para a desgraça sem reação. Quando o auxílio emergência findar a fome baterá em muitas portas.

Muito dinheiro público, que a sociedade vai pagar, foi repassado para estados e municípios. Como esses recursos estão sendo gastos? Falta transparência!

Espero que uma faxina seja feita e os malfeitores punidos.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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