O Estatuto do Mau Politico I

Manoel Moacir, 18 de Julho, 2018 - Atualizado em 18 de Julho, 2018

O Estatuto do Mau Politico I

Este estatuto nunca será aplicado. É uma ficção. Imaginação do passado, ilusão do presente, e fábula do futuro. Um delírio do imaginário. Uma sátira política numa sociedade com moral cristã e pacífica, longe de honesta e altruísta. Aqui “não existe pecado abaixo da linha do equador”. Atinge exclusivamente a figura imaginada dos maus políticos. Não acolhe os bons políticos, e nem a política como uma filosofia de promoção do bem-estar social e coletivo. Propõe trazer para a boa e necessária política, os cidadãos e cidadãs de boa-fé. Não generaliza, mas excepciona a chamada politicagem aos maus políticos. Simbolicamente está expresso em trinta e três artigos, a idade de Cristo, sete partes, o número da mentira, sendo esta é a primeira.

O mau político como um conceito, ultrapassa os parlamentares per se, abrange em sua simbologia os conluios de servidores públicos corruptos, os possuidores de cargos e funções estatais que não exercem com retidão, impessoalidade e moralidade; e empresários que empregam meios subterrâneos nas relações com o Estado, a exemplo das licitações fraudulentas e superfaturamentos. Outros exemplos, como o “jeitinho”, escondidos em formas ardilosas de capturar os privilégios públicos, e levar vantagem em tudo. Pactos patrimonialistas entre interesseiros, persistem nos registros da nossa história. Inspirações da clássica obra do dramaturgo Dias Gomes, “O Bem Amado” alimentaram este estatuto. A ficção materializada no prefeito Odorico Paraguaçu, de Sucupira, atualizada neste hipotético estatuto. Hipocrisia, corrupção, autoritarismo, e hipnotismo da política fazem de Sucupira, o Brasil oficial; e de Odorico a expressão do mau político. Qualquer comparação com fatos e atores na atualidade, são coincidências e casualidades, sem nenhuma intencionalidade e responsabilidade estatutária.

Preâmbulo: Nós, os maus políticos, reunidos em Brasília, distante das bases, na calada da noite e em algum lugar incerto, aprovamos sob a proteção diabólica e por unanimidade o presente Estatuto do Mau Político. Ele dispõe sobre o exercício do mandato parlamentar para assegurar a harmonia e a felicidade de poucos e evitar os conflitos de muitos. O mau político deve aproveitar as vantagens e privilégios da legislatura, ela pode ser única.

Artigo Primeiro: O malfeito compensa

Parágrafo Único: Define-se o mau político como aquele que leva vantagem em tudo. Não ouve a opinião pública. Pretende dispor da onipotência da verdade. Não se faça presente nas reuniões plenárias e comissões, nem participa das decisões de interesse do País. Não tolera as palavras mudança, fiscalização, e justiça. Não professa a moral, nem a ética. Não escuta os clamores sociais. Distante das pessoas comuns e próximo dos poderosos e influentes. Busca as vantagens e privilégios para familiares, amigos, financiadores de campanhas, laranjas, e aliados. Rouba, mas faz.

Artigo Segundo: Quem se eleva será exaltado, quem se humilha será humilhado

Parágrafo Único: A relação dos maus políticos com as empresas estatais, empreiteiros, servidores públicos corruptos, e financiadores de campanhas eleitorais tem como prioridade o patrimonialismo.

Artigo Terceiro: Com a consciência intranquila não existem remorsos

         Parágrafo Único: Os princípios éticos e morais, constituição, leis complementares e ordinárias, decretos, resoluções, regulamentos, instruções, portarias, valores, história, tradições cristãs, dignidade, e consciência tranquila, não se aplicam aos maus políticos.

Artigo Quarto: Cobertor curto eu fico no meio

  • 10 – Primeiro defenda os próprios interesses;
  • 20 – A seguir, os interesses dos familiares;
  • 30 – Por fim, os interesses dos financiadores de campanha, amigos, eleitores, e aliados;
  • 40 – Nunca defenda os interesses de pobres, pretos, e prostitutas;
  • 50 – Honestidade e dignidade são retóricas e discursos de campanhas eleitorais.

Na democracia representativa, o papel do eleitor é altivo e indispensável na escolha consciente dos seus representantes, para governar os destinos da sociedade. Uma conquista da civilização. Está em suas mãos, a decisão de quem terá o poder e o controle do Estado. Não deverá ir às urnas votar com o coração. A liberdade de consciência é uma característica da dignidade humana, em seu mais avançado estágio de progresso. Escreveu no passado, mas atual para o presente, Gilberto Amado, intelectual e político sergipano: “um povo é tanto mais elevado quanto mais se interessa pelas coisas inúteis - a filosofia e a arte [acrescento, a política]”.

Manoel Moacir Costa Macêdo

PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

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