O Estatauto do Mau Político II

Manoel Moacir, 11 de Agosto, 2018 - Atualizado em 11 de Agosto, 2018

 

Manoel Moacir Costa Macêdo

O Professor Gutemberg Guerra, intelectual orgânico e militante nos dilemas políticos e acadêmicos da Amazônia e dos amazônidas, qualificado pelo seu labor como um mestre renovador e idealista na Universidade Federal do Pará, escreveu que “estamos vivendo uma crise, sim, mas uma crise que derruba velhas práticas e ameaça arcaicos valores, e isso é bom. Melhor seria se aproveitássemos da nudez para dar um banho de creolina e carrapaticida nas instituições que nos servem”.

 

Para ele, o “Estatuto do Mau Político pode ter efeito vário, como teve o ‘Príncipe, de Machiavel’ e o ‘Capital, de Marx’. O político sagaz e o capitalista inteligente não dispensam estes livros. O caráter jocoso do texto pode comprometer a intenção de manifestar o desacordo, ainda que no contexto em que se lança, pretenda despertar a crítica e o reposicionamento das pessoas, em relação a uma forma arcaica e perversa de se fazer política. Uma das contradições é que os ‘maus políticos’ jamais se autodenominariam assim. Quem os atacar se não estiverem cumprindo as regras do jogo parlamentar, serão desarmados com a elegância dos esgrimistas mais experientes, e feridos mortalmente, se não souberem como se defender”. Assim sendo, reza o Estatuto.

Artigo Quinto: Farinha pouca, meu pirão primeiro

I – Não divida as vantagens do poder;

II – Poder não se poupa, se usa; não tem drama de consciência;

III – Não existe solidariedade nas vantagens e privilégios oriundos do mandato;

IV – Uma parte das vantagens partilhe com quem o ajudou, a outra é pessoal;

V – Vantagens fáceis são passageiras, aproveite a oportunidade.

Artigo Sexto: É dando que se recebe

  • 10 – Apoie o que traz retorno financeiro e eleitoral;
  • 20 – Não defenda as mulheres, negros, idosos, índios, LGBT e excluídos;
  • 30 – Apoie os grupos de interesses corporativos que financiaram a campanha eleitoral;
  • 40 – Não esqueça, a cada quatro anos, haverá uma milionária disputa eleitoral;
  • 50 – As mentiras e promessas de campanha, serão esquecidas com a vitória.

Artigo Sétimo: Quem trabalha fica cansado e morre cedo

I – Não deixe de ir as bases, para descanso, festejos, visitar amigos e familiares;

II – Participe de cultos, enterros, casamentos e batizados, rendem votos;

III – Não duvide de Alá, Buda, Cristo, Jeová, Kardec, Maomé, Caboclos e outros deuses;

IV – Nas entrevistas, enfatize as realizações do mandato, nunca serão verificadas;

V – Contrate jornalistas, eles transformarão o medíocre mandato em relevante feito.

Artigo Oitavo: Uma mão lava a outra

  • 10 – Partilhe com os colegas parlamentares do nepotismo cruzado;
  • 20 – Defenda os interesses dos pares, líderes, centrão e baixo clero;
  • 30 - Priorize as corporações patronais, empresários, banqueiros, ruralistas e burocratas;
  • 40 – O mandato tem tempo certo de iniciar e terminar, use e abuse das vantagens;
  • 50 – Seja implacável com quem ajudou, qualquer desconfiança, trate como traidor.

Artigo Nono: Quem espera nunca alcança

I – Não espere o reconhecimento popular, não é o objetivo do mandato;

II – Atenda os pleitos de quem o ajudou, os meios justificam os fins;

III – Os votos não são gratuitos e conscientes, pague com comissões, empregos e cargos;

IV – Os eleitores gostam de promessas, nunca diga não, engane sempre;

V – Nos eventos públicos, não esqueça dos apertos de mãos, abraços e beijos.

Artigo Décimo: As aparências sempre enganam

  • 10 – Pareça sério em público, perspicaz, falso e tirano na intimidade;
  • 20 – Não aparente ser sábio, seja humilde em público e arrogante no particular;
  • 30 – Exerça a ética privada, fuja da ética pública, da mídia e dos órgãos de controle;
  • 40 – Nunca aparente ser rico, mas simples e modesto, esconda a riqueza;
  • 50 – Promova recepções reservadas, os locais públicos denunciam o patrimônio.

    Artigo Décimo Primeiro: Pai e mãe são bons, mas a política é melhor

I – Mate a alma, a família, os amigos e companheiros, o foco é poder e riqueza;

II – Nada substitui os privilégios do mandato, tenha prioridade sobre o fundo partidário;

III – Seja racional, interesseiro, discreto e pragmático; jamais emocional;

IV – Todos têm um preço, tente corromper, não desista;

V – O dinheiro e o poder compram tudo e todos.

 

A sociedade democrática, em sua essência, estimula o debate, e acolhe as contradições sobre o destino da sua gente. Isso não é pouco, uma conquista dolorida das nações, na consolidação dos fundamentos civilizatórios de governar e ser governado pela escolha popular. A eleição é um ato cívico, que exige dos seus principais atores - eleitores e candidatos - dignidade do votado e do votante. Não está descartado em tempo eleitoral, agressões a esse sublime ato, como “a compra de votos no varejo e no atacado. Compra-se os chefes regionais e locais e custa caro”. Canta o poeta Caetano Veloso: “a estrada da vida é mesmo longa e muitas vezes surpreendente [por isso] canto somente o que não pode mais se calar”.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo

PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

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